Nos EUA, Bolsonaro diz que coronavírus é 'superdimensionado'

Mariana Sanches - @mariana_sanches - Enviada da BBC News Brasil a Miami (EUA)
Bolsonaro falou com comunidade brasileira em Miami nesta segunda, dia 9 (ZAK BENNETT/AFP via Getty Images)

Em um discurso no qual chorou e arrancou risos da plateia de apoiadores da comunidade brasileira em Miami, nos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o derretimento global dos mercados nesta segunda-feira, dia 9 — que ceifou R$90 bilhões de valor de mercado da Petrobras e fez a Bovespa fechar em baixa de 12% — é resultado da reação à epidemia de coronavírus, que ele avalia ser "superdimensionado".

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Quase um ano e meio após vencer a corrida presidencial, Bolsonaro também lançou dúvidas sobre a lisura de sua própria eleição, ao dizer que possuía "provas" de que teria havido fraude no processo e que ele, na verdade, deveria ter sido eleito em primeiro turno. Bolsonaro mencionou o ataque a faca que sofreu, o que gerou comoção no público local, majoritariamente evangélico.

No começo do evento, o pastor Leidmar Lopes, presidente da Associação de Pastores do Sul da Flórida, chegou a puxar uma oração pela saúde de Bolsonaro e afirmou que se autoexilou por não enxergar, até a eleição do então candidato do PSL, solução para os problemas brasileiros: "O senhor é a resposta às nossas orações", disse.

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Em ambiente amplamente favorável, o presidente sugeriu ainda que as manifestações populares do dia 15 de março poderiam até ser canceladas caso os parlamentares aceitem devolver ao Executivo o total de R$30 bilhões do Orçamento impositivo — atualmente, metade desse valor está destinado a emendas parlamentares e o restante voltou para o Planalto, em uma negociação feita pelos líderes partidários e os articuladores políticos de Bolsonaro na semana passada.

'Está superdimensionado o poder destruidor desse vírus'

O coronavírus, presente hoje em 97 países, é o pivô de uma desavença entre Arábia Saudita e Rússia, duas das maiores produtoras mundias de petróleo do mundo.

Por conta da epidemia — que já contabiliza 105 mil casos no mundo (25 no Brasil), com 3,8 mil mortes —, milhares de indústrias paralisaram suas produções, escolas fecharam, cidades inteiras foram colocadas em quarentena, o que acarretou em forte redução no consumo de combustíveis fósseis.

Diante da queda na demanda, o preço do barril de petróleo começou a declinar e a Arábia Saudita propôs que os produtores diminuíssem em 1,5 milhão de barris a sua prodição diária, para controlar o preço. A Rússia não aceitou a proposta. Em retaliação, o país árabe ordenou que sua petrolífera passasse a produzir à máxima capacidade e inundou o mercado de petróleo, o que derrubou o preço do barril em 30% e provocou um efeito cascata nas bolsas de valores ao redor do mundo nessa segunda-feira.

A queda foi tão forte que o acumulado de baixas na Bovespa nas últimas semanas anulou todos os ganhos de investidores na bolsa desde o início do governo Bolsonaro. Aos apoiadores, no entanto, o presidente buscou desconectar o país do movimento negativo global.

"Os números vêm demonstrando que o Brasil começou a se arrumar em sua economia. Obviamente os números de hoje, a queda drástica da Bolsa de Valores no mundo todo, têm a ver com o petróleo que despencou, se eu não me engano, 30%", disse o presidente.

"Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica. Mas não é que o Brasil vai dar certo, já deu certo", disse, tentando transmitir tranquilidade.

Nos Estados Unidos, há mais de 600 casos, com duas mortes na Flórida, onde Bolsonaro passou os últimos 3 dias. O presidente Donald Trump, com quem Bolsonaro jantou no sábado, tem dito que a epidemia é alarmismo midiático e que mais pessoas morrem proporcionalmente de gripe no país do que poderiam morrer de coronavírus — afirmação que as estatísticas desmentem.

Mais cedo, em um seminário com investidores brasileiros, Bolsonaro disse ser "leal" aos princípios econômicos de Paulo Guedes, e reafirmou o compromisso em "honrar contratos". Via Twitter, descartou qualquer interferência no mercado para segurar o preço do combustível e anteviu que o valor cairia nas refinarias.

Bolsonaro afirmou que a eleição de 2018, na qual foi vencedor, foi fraudada. Disse ainda que tinha provas disso, mas não mostrou nenhuma. É a primeira vez que o presidente é categórico sobre isso. Ao longo da campanha, ele repetiu diversas vezes que não confiava nas urnas eletrônicas e afirmou ser defensor de que as máquinas também imprimissem o voto, para contraprova.

Fraude nas eleições

"Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas, no meu entender, teve fraude. E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar", disse.

Interpelado pela imprensa na saída do evento, ele não respondeu sobre quais provas seriam essas. A BBC News Brasil não conseguiu contatar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite da segunda-feira.

"Nós precisamos aprovar no Brasil um sistema seguro de apuração de votos. Caso contrário, (é) passível de manipulação e de fraudes. Então, eu acredito até que eu tive muito mais votos no segundo turno do que se poderia esperar, e ficaria bastante complicado uma fraude naquele momento."

Ao mencionar a campanha, Bolsonaro rememorou ainda a facada que levou durante ato de campanha em Minas Gerais, em setembro de 2018. Nesse momento, ele chegou a chorar duas vezes.

"Quando cheguei em Juiz de Fora, mais de 40 mil pessoas na praça, Haufman, falei para o pessoal que estava comigo, como já era campanha, eu tinha a Polícia Federal do meu lado. Falei que era a última vez que eu enfrentaria o povo daquela forma, de peito aberto. Porque eu falei "vão me matar". Infelizmente foi a última vez. Aconteceu, mas graças a Deus, por um milagre, segundo os médicos, eu sobrevivi".

Ao que a plateia respondeu: "Amém".

Crise com o Congresso e reformas

O presidente afirmou ainda que a economia deve melhorar conforme outras reformas — como a tributária e a administrativa — sejam aprovadas no Congresso, e prometeu enviá-las para votação dos parlamentares ainda esse mês.

Há três dias, durante uma parada técnica para reabastecer a aeronave na qual ele viria para os Estados Unidos, em Roraima, Bolsonaro escalou o conflito com o Congresso ao exortar apoiadores a aderirem às manifestações do próximo dia 15 contra o Legislativo. Dias antes, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, General Augusto Heleno, chegou a ser flagrado dizendo sobre o Parlamento: "O Congresso vive nos chantageando. Fodam-se". Heleno foi ovacionado pelos apoiadores de Bolsonaro.

O confronto é resultado da queda de braço pelos R$30 bilhões do orçamento que haviam sido retirados do controle do Executivo e repassados para destinação em emendas parlamentares. O presidente vetou o arranjo e o Congresso ameaçava derrubar o veto. Na semana passada, no entanto, um acordo costurado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ); do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); e pela equipe econômica de Guedes, com aval de Bolsonaro, acertou que os vetos seriam mantidos, mas o governo enviaria novo projeto de lei dividindo igualmente os R$30 bilhões entre Executivo e Legislativo.

"O relacionamento com o Parlamento já esteve pior do que está hoje em dia. Ontem, anteontem, eu troquei umas mensagens com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, falando sobre a questão do dia 15 de março, que é algo voluntário por parte do povo. Não é contra o Congresso, não é contra o Judiciário, é a favor do Brasil. Afinal de contas, devemos obedecer e seguir o norte apontado pela população. E o que a população quer, que está em discussão lá em Brasília, não quer que o Parlamento seja o dono do destino de R$ 15 bilhões do Orçamento", disse, para aplausos efusivos dos apoiadores.

Didaticamente, ele seguiu explicando sua estratégia política de pressão aos parlamentares:

"É isso que está em jogo no momento. Acredito ainda que, até o dia 15, os presidentes da Câmara e do Senado anunciem algo no tocante a dizer que não aceitam isso, no tocante a ficar com eles os recursos. Acredito que eles possam botar até um ponto final na manifestação", afirmou.

Na sequência, amenizou suas próprias palavras: "Não um ponto final, porque ela vai haver de qualquer jeito, no meu entender, mas para mostrar que estamos sim afinados no interesse do povo brasileiro".

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