Nos EUA, o estigma da discriminação prejudica a vacinação

Joshua Melvin with Andrew Marszal in Los Angeles and Francois Picard in Houston
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Nos Estados Unidos, os afro-americanos afetados pela covid-19 têm duas vezes mais chances de morrer do que os brancos, de acordo com autoridades da saúde. Uma estatística assustadora, mas Gary Jackson não quer ouvir falar de vacinas.

A negativa deste afro-americano, mecânico de 39 anos que vive em Washington, é emblemática de uma desconfiança das autoridades e instituições de saúde, nascida de práticas discriminatórias.

Essa dificuldade está no cerne das questões de saúde pública que os Estados Unidos devem enfrentar se quiserem finalmente controlar a epidemia de covid-19, acreditam vários especialistas.

"Não tenho certeza se é do meu interesse", diz Gary Jackson, sobre a vacinação contra o coronavírus.

"Tenho a impressão de que somos sempre os últimos ou servimos de cobaias", desabafou, enquanto consertava a janela de um carro.

A propensão a ser vacinado está intrinsecamente ligada ao grau de confiança nas instituições médicas e nos tratamentos que oferecem. No entanto, essas duas áreas têm sido objeto de episódios considerados racistas por defensores dos direitos civis nos Estados Unidos.

- "Medo das vacinas" -

Um exemplo notável é o estudo de Tuskegee. Nesta cidade do Alabama, cientistas do governo americano estudaram a partir da década de 1930 os efeitos da sífilis nos homens negros, durante 40 anos, sem lhes fornecer tratamento, para observar a evolução da infecção.

E este estudo está longe de ser um incidente isolado.

"Numerosos experimentos perigosos, não consensuais e não terapêuticos foram realizados em afro-americanos e foram amplamente documentados, pelo menos desde o século 18", escreve Harriet Washington em seu livro "Medical Apartheid" publicado em 2006.

Um passado sombrio que levou alguns grupos a recomendar hoje aos afro-americanos o boicote das vacinas, como a organização muçulmana "Nation of Islam".

"Não deixem que te vacinem", intima um artigo do polêmico líder desta entidade, Louis Farrakhan, que denuncia um "passado de traições ligadas às vacinas".

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) relataram em fevereiro que 46,5% dos negros nos EUA não pretendem receber a vacina, em comparação com 32,4% dos hispânicos e 30,3% dos brancos.

No entanto, a proporção de indivíduos prontos para receber uma dose da vacina aumentou entre esses três grupos desde o início da pandemia.

"É apenas medo. O medo das vacinas, de ser cobaias, algo assim. É disso que os negros têm medo", explica John Jones III, um mediador de bairro em Los Angeles.

"De repente, me mandam tomar este 'medicamento' do nada? É uma luta" para se convencer, acrescenta o mediador de 40 anos, que especifica que ainda não decidiu se será vacinado.

Os negros que consultam um médico nos Estados Unidos têm menos chances de ter seus sintomas levados a sério ou de receber tratamento adequado do que outros, dizem os especialistas.

Mamografias de mulheres negras são, assim, menos examinadas por especialistas em câncer de mama do que por radiologistas gerais, de acordo com um estudo de 2012 da Universidade de Illinois, em Chicago.

- "Continuar a sofrer mutações" -

Em pouco mais de um ano desde o primeiro caso de covid-19 nos Estados Unidos, a doença atingiu os afro-americanos de maneira particularmente forte.

De acordo com o Covid Tracking Project, 161 em cada 100.000 negros morreram da doença, a maior proporção entre grupos étnicos nos Estados Unidos, o país mais enlutado do mundo em termos absolutos.

E de acordo com dados divulgados pelos CDC, apenas 5,4% das doses da vacina foram injetadas em afro-americanos durante o primeiro mês da campanha de vacinação, quando já representam 12,5% da população.

Diante dessas disparidades, várias organizações, públicas e privadas, intensificaram seus esforços para promover vacinas para as comunidades afro-americanas e para garantir que elas recebam uma parte justa das doses.

Não fazer isso apresentaria riscos significativos, alertam os especialistas.

"Se você não vacinar as pessoas que vivem onde a doença é mais prevalente, você permite que a doença continue a se espalhar e a sofrer mutações", explica Darrell Gaskin, professor de saúde pública da Universidade Johns em Hopkins.

Greg Ashby ouviu falar dos argumentos contra a vacinação, mas os rejeitou. Ele veio receber sua primeira dose esta semana em Houston.

"Sei que é isso que precisamos fazer para ajudar a melhorar a situação e é para isso que estou aqui", disse à AFP.

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