'Nossa historiografia é colonial, masculina e sudestina', diz Lilia Schwarcz na Flip

"Canta, poeta, a liberdade". A leitura de um poema de Maria Firmina dos Reis, homenageada da Flip 2022, deu as boas-vindas ao público que foi assistir à primeira mesa programada para esta quinta-feira (24) na Tenda dos Autores.

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Batizada de "Minha liberdade" e mediada pela pesquisadora e professora Eneida Leal Cunha, o encontro reuniu a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e Luciana Martins Diogo, especialista na obra da homenageada e editora da revista "Firminas".

- Estamos aqui para pensar sobre as condições e tensões desse projeto cultural que se chama Brasil - disse Eneida. - Essa é uma mesa dedicada à Firmina e sobre liberdade. Uma homenagem à controversa liberdade do nosso país e à ousadia de uma mulher que, quando estava tudo contra ela, escreveu e produziu memória.

É justamente para evitar o esquecimento e também para se engajar criticamente em relação ao passado que as três entraram em cena. E para lembrar que Firmina já praticava esse exercício no século XIX.

- Em um de seus contos, Firmina faz um encontro entre colonizadores e indígenas, uma fabulação crítica que nos ajuda a pensar esse momento - afirmou Lilia. - É impressionante como ela tinha certeza de questões que discutimos agora. Se a Cida Bento fala sobre o pacto da branquitude, Maria Firmina fala sobre o rigor do patriarcado e da escravidão. E dá às mulheres um lugar especial. Que me desculpem os homens, mas ela afirma que nós temos a potencialidade de resolver os conflitos - brincou Lilia, sendo muito aplaudida.

A historiadora citou o conto "A escrava", em que Firmina discorre sobre uma ama de leite que carregava o silêncio de um filho ausente.

- É um tema que continua atual. Em 2012, houve um deputado federal que votou contra a PEC das domésticas... O nome dele é Jair Bolsonaro - criticou Lilia.

Ela lembrou ainda que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e que Maria Firmina escreveu sobre liberdade em 1887. A historiadora seguiu falando falou sobre como nossos arquivos históricos são limitados.

- Nossa historiografia é colonial, masculina, sudestina e cheia de silêncios - definiu. - Dizem: "Você é historiadora, então, deve ser ótima de memória". Respondo: "Não, porque a história lembra um pouquinho e esquece muito, sobretudo a população negra e as pessoas fora dos espaços de poder.

Prova disso é a frase que Lilia conta mais ter escrito em um de seus livros recentes: "Até momento, não sabemos".

- Muitas vezes, sabemos a data de morte de uma pessoa, mas não a de seu nascimento. Saidiya Hartman, escritora que está aqui na Flip, propõe, com sua literatura repleta de fabulação crítica, que preenchamos essa lacunas. E a questão do protagonismo é muito importante.

Doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, Luciana Diogo, que lança na Flip o livro "Maria Firmina dos Reis: Vida literária", destacou a importância do pioneirismo de Firmina para que hoje "uma mulher negra como eu pudesse estar aqui falando de sua intelectualidade".

Eneida definiu Maria Firmina como uma mulher "pré-abolicionista" e ressaltou o fato de ela ter escrito sobre a memória anterior à escravidão no conto "A escrava", em que a personagem lembra sua vida antes de ser exportada para o Brasil.

A reta final do debate, assistido por uma maioria de pessoas brancas, foi marcado pela afirmação de que todos precisamos ser aliados na luta antirracista.

- É um processo que todos precisamos fazer - afirmou Lilia, autora do livro infantil "Óculos de cor: Ver e não enxergar", sobre racismo estrutural e que conta a história de um menino que precisa colocar óculos para enxergar além da cor branca. - Há maioria de 56% de pessoas negras no Brasil, uma maioria minorizada. A democracia é um processo que não termina. Direitos, sempre precisaremos conquistar. Temos que fazer um pacto pela democracia, que passa pela educação. O Brasil só será menos desigual quando tiver uma educação cidadã, esse é o único caminho para a liberdade. O direito à memória não é garantido a todos no Brasil. Só acredito no gatilho da educação, no sentido de arma mesmo. 2023 está aí e o desafio é construir um país mais inclusivo. O futuro já está aqui na frente, não precisa de óculos.