Nova alta de casos de Covid-19 nos estados do Sul preocupa especialistas

PAULA SPERB E KATNA BARAN
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PORTO ALEGRE, RS, CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Quando um cientista de dados acostumado a fazer análise de riscos para empresas passou a acertar as projeções dos números de contágios por coronavírus em Caxias do Sul, na serra gaúcha, muitos se assustaram com a velocidade da proliferação do Sars-CoV-2. Era o início da pandemia do país. Em 27 de março de 2020 ele projetou que sua cidade natal teria 41 casos de Covid-19 no dia 18 de abril. Sua primeira projeção se confirmou dois dias antes. Hoje, quando Caxias do Sul soma 23.642 casos, Isaac Negretto Schrarstzhaupt é um dos coordenadores da Rede Análise Covid-19. A rede é formada por cerca de 80 voluntários que se dedicam a divulgar informações científicas sobre a pandemia. "Quando há muitos casos, começa a perder o controle. Caxias do Sul tinha um sistema de isolar quem tinha sintomas, mesmo sem testar. Mas isso começa a se perder quando o número chega a 20 mil. A doença chegou aos lares de idosos, o número começou a subir e refletir nas internações", explica Schrarstzhaupt. Diretores de hospitais da cidade gaúcha chegaram a dizer que o sistema estava em colapso em dezembro passado. A lotação era previsível, explica Schrarstzhaup. Ele observou aumento de mobilidade [deslocamento] dos gaúchos em setembro passado. "Há uma correlação entre mobilidade e contágio", explica. Quanto mais deslocamentos, mais o coronavírus se espalha. Em setembro passado, os gaúchos aproveitaram os feriados da Independência do Brasil e 20 de setembro, quando se comemora a Revolução Farroupilha, para passear e viajar. Cada um dos três estados do Sul ultrapassou a marca dos 500 mil casos positivos de Covid-19. Juntos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul já somam 1.588.087 pessoas contaminadas. No inverno passado, a região chegou a ser considerada o novo epicentro da pandemia. O número de contaminados equivale a 18,25% de todos os casos do país, atrás apenas das regiões Sudeste (mais de três milhões de casos) e Nordeste (mais de dois milhões de casos). Recentemente, os gaúchos romperam a barreira das 10 mil vidas perdidas. Os três estados sulistas contabilizam 25.475 mortes, 11,89% do total de óbitos no Brasil. Em Santa Catarina, as festas de Reveillon já mostraram aumento nos casos no estado. Mas o pior efeito, a morte, começa a aparecer agora. "Os óbitos pelo Réveillon que estão começando a aparecer esta semana e ficarão mais significativos nos próximos dias", explica Oscar Bruno Romero, professor de doenças infecciosas e vacinas do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Romero explica que o efeito não será sentido apenas localmente, mas pelos turistas de outros locais que costumam visitar as praias catarinenses, incluindo os paulistas. "Os turistas que vieram aqui no Réveillon voltaram com o "presente" do vírus para suas casas", diz o professor. Além das festas, as eleições municipais também contribuíram para o "boom" de casos ocorrido em Santa Catarina em outubro, segundo Josimari Telino de Lacerda, professora do departamento de Saúde Pública da UFSC e integrante do Observatório Covid-19 BR. "Pudemos assistir durante as eleições e após esse período um comportamento tanto de gestores como de grande parte da sociedade de retorno às atividades como se não houvesse vírus circulando", diz Lacerda. A professora calcula que de 26 de outubro a 21 de janeiro de 2021 surgiram 51,7% dos casos da doença no estado desde o início da pandemia. No Paraná, apesar de revelarem queda na média móvel de mortes e casos de Covid-19 em comparação com 14 dias atrás, os dados atuais da pandemia estão comprometidos pelo recente ajuste nos números, já que, no início do ano, o governo incluiu no boletim 31.425 casos e 377 óbitos retroativos. Na ocasião, havia pouco mais de 108 mil casos ativos no estado. Agora, são cerca de 126 mil.A discrepância nos dados ocorre porque o sistema estadual não é unificado com o usado pela prefeitura de Curitiba. À Folha, em dezembro, a secretaria de saúde do Paraná informou que pretendia integrar os sistemas. Porém, até então, isso não ocorreu. Assim, ainda faltam acrescentar ao boletim estadual 47.667 casos do novo coronavírus -mais da metade do número total atual, 76.530- e 429 mortes, cerca de 20% da soma, que hoje está em 2.101, todos anunciados pela prefeitura da capital. Em nova nota enviada à Folha de S.Paulo, o governo admitiu que há aumento no número de casos em janeiro e afirmou que os municípios devem notificar os números no sistema estadual. Em contrapartida, a situação dos leitos é mais tranquila do que a registrada nas primeiras semanas do ano, refletindo as medidas mais restritivas adotadas pela gestão Ratinho Jr. (PSD), como toque de recolher, e a ampliação na rede hospitalar exclusiva para tratar a Covid-19. Hoje, a taxa de ocupação de UTIs para adultos gira em torno de 61%, com cenário mais crítico na região norte, que tem 73% desse tipo de leito preenchidos. A regional de Foz do Iguaçu, município que faz fronteira com Cidade do Leste, no Paraguai, é a que proporcionalmente mais teve mortes e casos registrados no estado. Os números pioraram ainda mais com a reabertura da região para estrangeiros, em outubro. Por 15 dias, o Paraguai manteve diversas restrições para entrada de brasileiros, como no horário de circulação, o que fez com que o país pouco sentisse mudanças nos números da pandemia na região de fronteira. Já o Brasil não impôs regras para os paraguaios. Assim, desde então, só em Foz do Iguaçu, o número de casos e mortes pela Covid-19 quadruplicou. "A situação é muito preocupante porque os números vêm aumentando bastante. Estamos trabalhando com ocupação sempre acima de 70%, chegando até a 90%. Em termos proporcionais, é a cidade do estado com mais tem leitos de UTI, começamos com 17 e hoje temos 95. Mas, há um custo muito alto e dificuldade com pessoal", desabafa a secretária de saúde do município, Rosa Jeronymo. Para controlar a pandemia, os especialistas ouvidos pela reportagem sugerem medidas mais restritivas. "Não existe tratamento precoce com evidência científica para tratamento em humanos. O que resta são as vacinas e as medidas protetivas de distanciamento, uso de máscara, higiene das mãos. As vacinas chegaram em pequenas quantidades e demoram ainda para surtir o efeito esperado", explica Lacerda, da UFSC.