Nova classe de droga avança tratamento de câncer de ovário

Rafael Garcia
Imagem de microscópio de amostra de tecido de ovário com câncer

SÃO PAULO - Uma mudança de estratégia no tratamento do câncer de ovário, um dos mais agressivos que existem, conseguiu aumentar a sobrevida das pacientes. Três ensaios clínicos diferentes indicaram que uma nova classe de drogas, os inibidores de PARP, pode dar alguns meses a mais de vida para os pacientes quando administrada cedo, ainda que a cura seja uma meta distante.

O aumento de sobrevida foi pequeno em termos absolutos, da escala de um ano para dois anos, no caso de pacientes com estágio similar de avanço da doença. Mas por representar cerca do dobro da taxa normal de sobrevida, a novidade ganhou a capa da revista médica "New England Journal of Medicine", que publicou três estudos sobre a ação dos inibidores de PARP, o último deles nesta quarta-feira (18).

— Todas as populações incluídas no teste foram beneficiadas pelos inibidores da PARP na terapia de manutenção de primeira linha — disse ao GLOBO Isabelle Ray-Coquard, pesquisadora do Centro Leon Bérard, de Lyon (França), líder do estudo.

— Não estamos falando de um câncer do qual 70% das pacientes serão curadas, como o câncer de mama. Estamos falando de um câncer do qual 70% delas vai morrer, por ser uma doença extremamente agressiva — afirmou.

O grupo de pesquisa francês recrutou mais de 800 pacientes de câncer de ovário para o teste e constatou que foi um subgrupo delas, com perfil genético específico, se beneficiou mais dos inibidores de PARP.

Houve aumento de sobrevida de 21 para 37 meses no caso de pacientes que eram portadoras de mutações de DNA do no gene BRCA — o mesmo que aumenta o risco de câncer de mama quando está mutado. Pacientes com resultado positivo para um outro teste genético, chamado HRD, tiveram sobrevida ampliada em média de 17 para 37 meses.

Um terceiro grupo, porém, que não caia em nenhum desses dois perfis genéticos, teve benefício pequeno, uma ampliação de menos de um mês de sobrevida. Eles formam cerca de metade dos pacientes.

Ao serem capaz de prever quais são as pacientes que vão se beneficiar de uma intervenção precoce com os novos medicamentos, porém, os médicos conseguem planejar melhor o tratamento para cada uma delas.

Medicina personalizada

Em editorial no "New England Journal of Medicine", o cientista Dan Longo, da Escola Médica de Harvard, qualificou os trabalhos como um avanço na "medicina personalizada" para o tratamento da doença.

Os outros dois ensaios clínicos citados no periódico, além do francês, foram liderados pelo M.D. Anderson Cancer Center, do Texas (EUA) e pela Universidade de Navarra (Espanha).

— Foram apresentados nos ensaios clínicos três produtos de empresas diferentes, e os resultados são muito consistentes entre si — afirma Maria del Pilar Estevez Diz, diretora de corpo clínico do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo).

Segundo a pesquisadora, o advento dos inibidores de PARP foi importante no histórico de pesquisa da doença, porque o câncer de ovário geralment é diagnosticado só em estágio avançado, e as opções de tratamento são poucas.

Os fármacos específicos testados agora foram o niraparib, o veliparib e o olaparib. Todos proporcionaram aumentos de sobrevida na escala de um ano. — A gente comemora mesmo esse avanço pequeno, porque é uma doença muito agressiva — afirma Pilar.

Acesso

Uma questão a ser endereçada para que o novo tipo de terapia tenha impacto é o acesso aos medicamentos, sobretudo em países em desenvolvimento, como o Brasil. Com custos de tratamento em torno de R$ 30 mil por mês, poucos pacientes têm perspectiva de acesso à terapia, que ainda não está incorporada ao SUS.

O teste genético para as mutações HRD, por sua vez, é oferecidos por enquanto apenas pela empresa Myriad Genetics, e sai por mais de R$ 12 mil.

Isabelle Ray-Coqard, chefe da pesquisa francesa, afirma que, de qualquer forma, o formato atual do teste ainda não é capaz de identificar todos os pacientes que terão potencial benefício das novas drogas. Eles são pacientes cujos tumores possuem genes de "deficiência da reparação homóloga" (daí a sigla HRD), o que significa que o tumor tem dificuldades para manter a integridade do próprio DNA. O que os inibidores de PARP fazem é prejudicar ainda mais essa capacidade das células tumorais, que acabam morrendo.

O problema com o teste da Myriad, diz a pesquisadora, é que ele pode estar deixando de identificar alguns tumores HRD que poderiam ceder às novas drogas. Com o custo alto da terapia, é importante que centros clínicos saibam quem de fato ganha sobrevida com ela.

— Nós não temos certeza que que esse grupo de pacientes com resultado negativo no teste da Myriad não precise receber os inibidores de PARP — afirma. — Precisamos projetar um teste melhor para conseguir separar o grupo de pacientes que não precisaria receber esses medicamentos.