Resultados preliminares indicam aprovação da nova Constituição da Tunísia em referendo

A nova Constituição promovida pelo presidente tunisiano, Kais Saied, foi amplamente aprovada no referendo realizado nesta semana, apesar da elevada taxa de abstenção, de acordo com os resultados preliminares divulgados pela autoridade eleitoral, nesta terça-feira (26).

A nova Constituição, que reforça os poderes do chefe de Estado, recebeu o apoio de 94,6% dos eleitores, revelou o presidente da autoridade eleitoral, Farouk Bouasker, com base nos resultados preliminares.

A coalizão de oposição Frente Nacional de Salvação (FSN), que pediu o boicote ao voto, acusou a autoridade eleitoral, nesta terça-feira, de ter "amplificado" e "falsificado" os dados de participação.

De acordo com o órgão, apenas 27,54% dos 9,3 milhões de eleitores registrados votaram. Nas últimas eleições legislativas de 2019, a taxa de participação foi de 32%.

"Entre 92 e 93%" dos eleitores aprovaram a Constituição de Saied, com base em pesquisas de boca de urna, disse à AFP o diretor do instituto de pesquisas Sigma Conseil, Hassen Zargouni, nesta terça-feira.

A Tunísia, berço da Primavera Árabe, vive uma crise econômica agravada pela covid-19 e pela guerra na Ucrânia, da qual depende para suas importações de trigo.

O país está altamente polarizado desde que Saied, eleito em 2019, concentrou todos os poderes em suas mãos em 25 de julho de 2021.

Para a Frente de Salvação Nacional, de oposição e da qual faz parte o movimento islâmico Ennahda, "75% dos tunisianos se recusaram a aprovar o projeto golpista lançado há um ano por Kais Saied".

Said Banerbia, da ONG Comissão Internacional de Juristas, criticou a legitimidade do voto. "Qualquer Constituição que resulte [daquela votação] não reflete a visão da maioria dos tunisianos e carece de legitimidade democrática e propriedade nacional", disse ele à AFP.

Para o analista Youssef Cherif, "a maioria das pessoas votou no homem [Kais Saied] ou contra seus oponentes, não em seu texto".

É o caso de Noureddine al-Rezgui, agente judicial que trabalha na Tunísia. "Os tunisianos querem se livrar do antigo sistema e dar uma nova guinada nele", afirmou.

Al-Rezgui relativizou a baixa participação, assim como o especialista Abellatif Hannachi, que a julgou "respeitável considerando que a votação foi organizada no verão, nas férias e em meio ao calor".

- Bandeiras e buzinas -

Depois que as primeiras estimativas do Sigma Conseil foram divulgadas em rede nacional, centenas de simpatizantes de Saied saíram para comemorar a vitória em carreatas pelo centro da capital, agitando bandeiras e buzinando.

Por volta da 22h00 de segunda-feira(horário de Brasília), o presidente apareceu diante da multidão e declarou que a Tunísia "entrou em uma nova fase", segundo a televisão local. A nova Carta Magna permitirá passar de "uma situação de desespero para uma de esperança", afirmou.

Grande parte do apoio veio da "classe média mais impactada" por anos de crise econômica, analisou Sigma Conseil.

O presidente de 64 anos exerce o poder de forma cada vez mais solitária. Ele considera que a reforma constitucional é uma extensão da "correção do rumo" que começou em 25 de julho de 2021 quando, alegando bloqueios políticos e econômicos, demitiu seu primeiro-ministro e suspendeu temporariamente as funções do Parlamento antes de dissolvê-lo em março.

O novo texto "dá ao presidente quase todos os poderes e desmantela qualquer controle sobre sua gestão e qualquer instituição que possa controlá-lo", disse Said Benarbia, diretor regional da Comissão Internacional de Juristas. "Nenhuma das garantias que poderiam proteger os tunisianos de violações de Ben Ali está presente", disse ele.

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