Nova Cracolândia é alvo de operação contra o tráfico em SP; 21 pessoas foram detidas

Operação na Cracolândia começou na madrugada de quarta-feira (11) com o objetivo, segundo as polícias, de combater o tráfico de drogas. (Foto: Reprodução)
Operação na Cracolândia começou na madrugada de quarta-feira (11) com o objetivo, segundo as polícias, de combater o tráfico de drogas. (Foto: Reprodução)

A região da nova Cracolândia foi alvo de uma operação conjunta entre as polícias Civil e Militar, a Guarda Civil Metropolitana e funcionários da Prefeitura de São Paulo, na madrugada desta quarta-feira (11).

As ações ocorreram no entorno da praça Princesa Isabel, no Centro de São Paulo, local que recebeu a mudança da concentração de usuários de drogas e traficantes. Até às 8h30, 21 pessoas já tinham sido detidas por suspeita de tráfico de drogas ou por resistência à prisão.

A operação começou por volta das 3h30 com o objetivo, segundo a polícia, de retirar da região as barracas de usuários de drogas e cumprir 36 mandados de prisão expedidos pela Justiça com base nas investigações da Operação Caronte, segundo a Polícia Civil.

"A polícia não vai permitir o tráfico de drogas nesse local", disse o delegado Roberto Monteiro, da 1ª Delegacia Seccional do Centro.

Ao todo, 650 oficiais participam da ação. Também foram apreendidos pacotes de drogas, balança e cadernos com anotações.

Por volta das 4 horas da manhã, uma parte dos usuários começou a deixar a praça e a desmontar as barracas. Policiais do Choque e da Iope, grupo de elite da GCM, abordaram os usuários e os mandaram se sentar embaixo da estátua do Duque de Caxias.

"Todo mundo para debaixo do cavalo", gritavam os oficiais.

De acordo com integrantes da prefeitura, a intenção é remover todos os usuários da praça que, futuramente, pode ser transformada em um parque. "Hoje, na verdade, essas barracas são utilizadas para encobrir o tráfico. Todas as barracas serão tiradas porque elas não utilizadas para moradia, mas sim para guardar droga e encobrir o tráfico", disse o delegado Severino Pereira de Vasconcelos, do 77º (Campos Elíseos).

A orientação é encaminhar os usuários para a rua General Rondon, perpendicular à praça, onde estão posicionadas as equipes de assistentes sociais. Serão oferecidas vagas nas unidades do Siat (Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica).

Segundo o secretário municipal de Projetos Estratégicos, Alexis Vargas, que acompanha a ação, o número de pessoas abordadas no entorno da cracolandia que aceitaram ir para os Siats, entre janeiro e março deste ano, foi sete vezes maior do que o mesmo período de 2021. E os atendimentos no Caps da Luz aumentaram 20%. "Quando dispersa o fluxo os usuários ficam mais propensos a aceitar tratamento", disse.

Cada usuário é revistado pelos policiais antes de ser encaminhado para as equipes de assistência social.

Ação na nova Cracolândia terminou em confronto na terça (10)

No início da tarde de terça-feira (10), guardas-civis metropolitanos entraram em confronto com usuários de drogas na Cracolândia. A confusão se estendeu por quase duas horas. Segundo a GCM e a Polícia Civil, ninguém foi preso.

Um inspetor da GCM, que não quis se identificar, disse à Folha de São Paulo que o episódio teve início durante uma ação de zeladoria, realizada rotineiramente na praça. Segundo ele, as equipes foram atacadas de maneira hostil, com pedras e garrafas. Com isso, diz ele, foi necessária a intervenção.

Outro inspetor, que se apresentou apenas como Vladimir, contou que as hostilidades por parte dos usuários tiveram início quando foram avisados de que não poderiam permanecer na calçada da rua Guaianases, ao lado da praça. Nesse momento, conforme o inspetor, eles passaram a atacar os guardas.

Um frequentador da praça, que não quis se identificar, afirmou que a confusão começou quando um homem jogou uma pedra contra um guarda-civil que o mandou desmontar a barraca.

De acordo com o inspetor Vladimir, um guarda ficou ferido na mão esquerda ao ser atingido por uma pedra.

29.abr.2022 - Barracas são montadas para a venda de bebidas irregulares (unidade no centro), crack e outros produtos. Usuários de drogas, moradores de rua e outros frequentadores se reunem na praça Princesa Isabel, no centro histórico de São Paulo, novo “endereço” da Cracolandia desde 18 de Março, quando a aglomeração sem ordem oficial abandonou o quadrilátero das ruas Dino Bueno, Cleveland, Helvetia e Nothmann, a 400m dali. Enquanto moradores dos novos conjuntos residenciais inaugurados na região durante a pandemia comemoram a mudança, comerciantes e moradores da Princesa Isabel têm medo da nova vizinhança e relatam prejuízos. A mudança teria sido provocada pela pressão da Operação Caronte, da Polícia Civil, sobre a organização criminosa que age no local arrendando espaço para barracas e pratos onde são vendidos a droga e outros produtos como a bebida alcoólica caseira feita com etanol e batizada de ‘corote’ por conta da garrafa similar ao industrializado famoso
29.abr.2022 - Barracas são montadas para a venda de bebidas irregulares (unidade no centro), crack e outros produtos. Usuários de drogas, moradores de rua e outros frequentadores se reunem na praça Princesa Isabel, no centro histórico de São Paulo, novo “endereço” da Cracolandia desde 18 de Março, quando a aglomeração sem ordem oficial abandonou o quadrilátero das ruas Dino Bueno, Cleveland, Helvetia e Nothmann, a 400m dali. Enquanto moradores dos novos conjuntos residenciais inaugurados na região durante a pandemia comemoram a mudança, comerciantes e moradores da Princesa Isabel têm medo da nova vizinhança e relatam prejuízos. A mudança teria sido provocada pela pressão da Operação Caronte, da Polícia Civil, sobre a organização criminosa que age no local arrendando espaço para barracas e pratos onde são vendidos a droga e outros produtos como a bebida alcoólica caseira feita com etanol e batizada de ‘corote’ por conta da garrafa similar ao industrializado famoso

Iniciado o confronto, enquanto PMs tentavam controlar usuários de drogas da Cracolândia, estes ateavam fogo em sacos de lixo nas vias do entorno da praça a fim de evitar o avanço deles. Com escudos, guardas-civis protegiam agentes da prefeitura que removiam barracas espalhadas pela praça.

Em um momento, um dos guardas, que protegia funcionários da limpeza, disparou balas de borracha na direção de usuários que tentavam se aproximar dele.

O tumulto levou ao fechamento de vias no entorno da praça e ao espalhamento de usuários de droga pelas avenidas Rio Branco e Duque de Caxias. Pontos de ônibus da região foram depredados.

Assustados, comerciantes baixaram as portas com medo de ataques e arrastões.

Por volta das 15h, o trânsito nas vias próximas à Princesa Isabel já havia sido liberado. E os usuários de droga voltaram a ocupar a praça.

Segundo a assessoria de imprensa da PM, os policias dão apoio à operação, que é da GCM. Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que "durante o policiamento de rotina, alguns indivíduos arremessaram objetos em direção às equipes da GCM, que conteve a ação com o uso moderado da força e utilização de equipamentos de menor potencial ofensivo". Não houve feridos e ninguém foi preso, segundo a secretaria.

Entenda a mudança de local da Cracolândia em SP

A concentração de usuários de drogas deixou de ocupar o entorno da praça Júlio Prestes, na região central de São Paulo, e se mudou para a praça Princesa Isabel, em março após ordem do crime organizado, de acordo com a polícia.

Prefeitura e governo estadual, porém, divergem dessa versão. A administração municipal afirmou que a dispersão da cracolândia ocorreu de forma pacífica. Não houve "nenhum tipo de negociação com o crime organizado", disse o secretário-executivo municipal de Projetos Estratégicos, Alexis Vargas.

O ex-governador João Doria (PSDB) desmentiu a Polícia Civil e negou qualquer influência do crime organizado na mudança.

A Polícia Civil explica que a migração foi uma reação dos criminosos à Operação Caronte, deflagrada em abril do ano passado para prender traficantes na cracolândia.

Como parte da operação, a prefeitura emparedou os imóveis no entorno da praça Júlio Prestes usados como esconderijo de drogas e rotas de fuga, segundo as investigações. A operação identificou 105 alvos e prendeu 79 pessoas.

Conforme a Folha mostrou, 8 em 10 presos pela operação Caronte na cracolândia têm passagem por tráfico de drogas.

Segundo a polícia, antes da migração, o tráfico de drogas ficou a cargo de usuários de drogas que prestam serviços em troca de pequenas porções de crack, conhecidos como "lagartos". A estratégia foi uma forma de poupar os traficantes de serem presos numa eventual ação policial, que se tornaram constantes.

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