Nova geração de comediantes negros combate racismo no humor

Alma Preta
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Bruna Braga, humorista de Osasco, na Grande São Paulo. Foto: Ketilyn Bells
Bruna Braga, humorista de Osasco, na Grande São Paulo. Foto: Ketilyn Bells

Texto: Flávia Ribeiro Edição: Lenne Ferreira

Um reduto dominado por homens brancos que reforça o racismo, machismo, LGBTfobias e outras opressões. Não é de hoje que as mais diversas formas de preconceito têm pautado o humor que é feito no Brasil.

Para se ter ideia, este cenário motivou inúmeras pesquisas, que identificam como o humor praticado pela elite intelectual no período pós-escravidão contribuiu fortemente para a manutenção do racismo no país. Na contramão dessas práticas, um recente movimento de humoristas, especialmente negros, surge para afirmar que é possível fazer rir sem oprimir grupos historicamente desumanizados.

“Acredito que o limite do humor seja a graça. Tem discurso de ódio que é só isso. Tem discurso que é só criminoso. Não considero nem humor e acho que ninguém deveria, mas é uma pergunta maior do que o que eu acho. Para mim, o limite do humor é a lei”, pontua a comediante Bruna Braga, natural de Osasco, cidade da Grande São Paulo.

Filha de uma diarista e de um ajudante de pedreiro, Bruna passou por vários trabalhos e cursos até chegar aos palcos. “Eu queria ser atriz de humor, só depois que descobri o stand-up. Hoje, me reencontro com a atuação numa nova jornada, mas fazer humor é o que sempre quis. A graça foi durante muitos anos a forma que eu encontrei de não apanhar, de atrair a atenção de forma positiva e de protagonizar espaços onde eu me sentia invisível. A escola foi meu primeiro palco. Rir de mim mesma impediu que as pessoas pudessem rir de mim. Tirei as armas deles”, conta.

O mesmo racismo que Bruna driblou durante a infância tem sido reforçado ao longo da história do humor brasileiro. É o que mostra a pesquisadora Maria Margarete dos Santos Benedicto, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), na tese “Quaquaraquaquá quem riu? Os negros que não foram... A representação humorística sobre os negros e a questão do branqueamento da belle époque aos anos 1920 no Rio de Janeiro”.

No trabalho, ela mostra que a ideologia do branqueamento influenciou de modo decisivo as representações dos negros e de seus descendentes nos textos, poesias satíricas e nas ilustrações impressas nas páginas das revistas humorísticas do período.

O estudo analisa documentos históricos raros e identifica que as revistas da época, que apresentavam os primeiros textos e charges satíricas produzidas e destinadas à “classe letrada”, fortaleciam essa ideologia no modo como os negros eram representados.

“De certa forma, esses trabalhos não somente propagaram como também perpetuaram os preconceitos no imaginário da sociedade brasileira. Nesse sentido, podemos dizer que o humor é, simultaneamente, parte e uma reflexão sobre a estrutura social que habita”, analisa a professora no texto.

Comediante carioca, Rhudson Victor, conheceu a stand-up comedy cedo, aos 14 anos de idade, e mergulhou de cabeça no universo desde então. “Eu sempre gostei de fazer as pessoas rirem, me passava uma sensação boa. Entretanto, não sabia o que era aquilo, já que a comédia stand-up não era tão popular, principalmente, no subúrbio”, lembra.

Mesmo atento para não reforçar preconceitos, o comediante reconhece que já errou algumas vezes. Para essas situações, Rhudson recomenda que os artistas ouçam as críticas e mudem. “Uma piada pode atingir as pessoas de várias formas, não só com riso, porque a piada mexe também com as emoções. Eu, enquanto comediante, não quero despertar nenhuma emoção negativa nas pessoas, tenho a ciência do que eu falo pode impactar tanto para o bem quanto para o mal”, considera.

“Por isso que quando eu erro, eu escuto, procuro saber que tipo de gatilho a piada proporcionou para aquela pessoa, porque há a possibilidade de despertar o mesmo em outras e, se for algo que não agrega, acho que não é a mensagem que eu quero passar. Costumo dizer que o que falo com a minha comédia minha mãe tem que poder escutar também, se fere ela, não tem porque passar paras as pessoas”, completa.

Rhudson Victor, humorista do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução/Instagram
Rhudson Victor, humorista do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução/Instagram

“Ser três vezes melhor”

Não é só no humor que os comediantes precisam desconstruir o racismo. O exercício da profissão também apresenta desafios para as pessoas negras que atuam na área. “Os desafios são os de sempre: ser três vezes melhor e ser colocada para competir entre as poucas existentes no mercado. A gente é unidade, nunca é pluralidade. Todos os dias me sinto exposta a micro violências e isso é na vida, para além do humor, que é só um reflexo da sociedade”, confessa Bruna, que integra o grupo Coisa de Preto, primeiro stand up comedy black do país.

Mesmo com as dificuldades, o currículo de conquistas de Bruna é extenso. Ela já venceu a competição do programa “Comedy Central Stand Up – A Seleção” e está na temporada 2018 e 2019 do “Stand Up No Comedy”, no canal Comedy Central, além do projeto “Comediantes Resolvem Os Problemas do Mundo”, nas redes sociais da mesma emissora. Atualmente, também apresenta o programa “Vai Ser Rimando”, toda quarta-feira, às 20h30, ao lado do rapper, compositor e empresário Emicida na LAB TV.

Além do racismo estrutural, Rhudson também precisou lidar com entraves familiares e limitação financeira. Ele precisou esperar dos 14 aos 20 anos para, de fato, subir em um palco pela primeira vez. O seu tempo era dividido entre comédia, o curso de História e o trabalho em um supermercado. “Fui percebendo que, de fato, amava ficar no palco, mesmo que por cinco minutos. Aquilo era o evento do meu dia. Evento da minha semana, às vezes, até do meu mês”, comenta.

A decisão de largar a faculdade para se dedicar mais à profissão de comediante não agradou os familiares. Para compensar, ele se comprometeu em prestar concurso militar e, para sua surpresa, foi aprovado. A conquista causou mais problemas na família, que comemorou o resultado e criou expectativas. Mas, ao invés de começar o internato, ele se mudou para São Paulo. “Para viver de comédia e, desde então, tenho conseguido, com muitas dificuldades, claro, mas sem luta não há vitória”.