Nova onda de chineses ocupa São Paulo

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não há nada de novo na presença de chineses em São Paulo, mas há uma presença chinesa nova na cidade.

Em número, são centenas -bem menos que os imigrantes do século passado. É uma pequena fração comparada às dezenas de milhares que fugiram de guerras ou da fome e somam hoje 250 mil pessoas (incluindo descendentes).

No estilo, os recém-chegados são quase invisíveis. Dominam mais de um idioma, conhecem a cultura e a culinária ocidental e dispensam o corredor da Liberdade à Vila Mariana. Moram afastados uns dos outros em Moema, Higienópolis, Jardins, Itaim.

O que define o endereço agora é a conveniência de acesso às empresas nas quais são diretores, gerentes-gerais, vice-presidentes ou, em muitos casos, donos.

Numa mesa de canto de um bistrô francês, estão as amigas Carol, Sandra, Jessica, Helen, Linda e Li. Enquanto almoçam, conversam sem parar, algo banal aos olhos brasileiros, mas impensável para um chinês do século passado.

"Lá há muitos idiomas, o que impede a conversa até entre habitantes de regiões vizinhas", conta David Jye Yuan Shyu, 78, professor aposentado de chinês da USP.

A barreira da língua caiu faz tempo para o grupo de amigas, que são de diferentes cidades, reflexo da internacionalização da China.

Todas falam o mesmo mandarim. E inglês. E português, o suficiente para prosperarem com seus negócios. E alemão, como uma delas. Todas têm curso superior e só três são donas de casa, ocupação incomum para as chinesas.

"Sempre trabalhei muito e sentia falta disso. Na China, a igualdade de gêneros é real", diz Carol Liu, 57, que mudou-se em 2006, acompanhando o marido executivo.

Ex-professora de inglês, hoje ela é gerente de vendas da China Telecom. De quebra, virou relações-públicas informal da nova onda de chineses. Em um evento no consulado, teve a ideia de fazer encontros entre as mulheres dos executivos, e depois também empresárias e comerciantes, que se veem todo mês.

Ao final, uma delas faz um relato do encontro para o grupo de WeChat. O programa, parecido com o WhatsApp, é usado por 100% dos novos chineses em SP, inclusive pelo executivo Lanbo Cao, 55.

Ele chegou ao Brasil em 2012 para administrar uma fabricante de motocicletas, inaugurada em 2009 em meio ao boom de investimentos chineses. São mais de cem hoje no país, e o país asiático tem liderado com folga a compra de firmas brasileiras.

Cao diz que raramente sai dos Jardins, por insegurança --aspecto mencionado como o pior defeito da cidade por 12 dos 14 chineses entrevistados pela Folha.

Nos finais de semana, joga tênis, badmington e golfe. Faz parte da cultura empresarial da China que negócios sejam feitos em jantares --não em almoços-- e relacionamentos profissionais sejam estreitados nos campos esportivos aos domingos.

O vice-presidente do Bank of China no Brasil, Zhang Guanghua, 47, fica até sem palavras quando a pergunta é sobre bons locais para passear. "Não passeio. Só trabalho."

Já Bo Feng, 37, leva as duas filhas para passear no zoológico e no parque Ibirapuera, um dos locais preferidos também da administradora Ying Qiu, 36.

Iniciante no português, ela quer morar na cidade como uma paulistana. É o que faz o consultor André Sun, 41, que já está em São Paulo há 13 anos. "Sinto que faço parte da cidade." Com visto de residência permanente, ele pensa em ficar.

O professor Shyu vê como um grão de sal a nova onda de chineses. "Executivos em geral vêm por pouco tempo. Usam só inglês ou intérpretes. A influência sobre a cidade vem do imigrante pobre."

Alguns desses novos chineses parecem estar decididos a mudar essa história.