Nova onda de covid: Cobrança de consciência não substitui políticas públicas

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Nova onda de covid levou a um aumento de casos, mas testes estão em falta
Nova onda de covid levou a um aumento de casos, mas testes estão em falta (Foto: Getty Images)

O Brasil parece viver uma nova onda de covid-19, em função da variante ômicron, de alto potencial de contágio. Apesar do apagão de dados do Ministério da Saúde, os relatos de testes positivos não param de chegar.

Automaticamente, vem a cobrança pela consciência, os pedidos para pessoas se preservem, se cuidem, não saiam de casa, se vacinem. Se preservar é importante, mas o caminho para frear a contaminação não é esse, mas ter políticas públicas. Isso passa, claro, pela imunização, mas também pela testagem – e nenhum dos dois assuntos é tratado com a devida importância pelo governo federal.

Vacinação de crianças

Qualquer pessoa com mais de 12 anos pode se vacinar contra a covid-19 no Brasil. Isso não quer dizer que todos estejam protegidos, já que as crianças até 11 anos ainda não podem se imunizar. Apesar da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 16 de dezembro, as primeiras doses chegaram ao Brasil na quinta-feira (13) e são cerca de 1,2 milhão de doses, para 20 milhões de crianças nesta faixa etária.

Ao longo do mês de janeiro, o país deve receber 4,3 milhões de doses e, no total, o acordo do Ministério da Saúde com a Pfizer prevê a compra de 20 milhões, suficiente para vacinar metade das crianças.

Nem mesmo a opinião pública tem mobilizado o governo federal. Segundo pesquisa Genial/Quaest, divulgada na última quarta-feira (12), 72% dos brasileiros são a favor da vacinação de crianças. A mesma pesquisa mostra que o presidente Jair Bolsonaro (PL) perderia em um eventual segundo turno da eleição para Lula (PT), Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT). Ainda assim, o presidente não usa a vacina, trunfo que só ele teria – já que a Pfizer só negocia com o Ministé5rio da Saúde -, para recuperar a popularidade.

Como estratégia eleitoral, o caminho escolhido pelo presidente é sinuoso e aposta em uma estratégia de 2018: o antipetismo. O ódio e a aversão contra Lula e o PT ainda têm força na sociedade brasileira, mas a disposição de Bolsonaro e sua vontade de evitar a vacinação de crianças podem ser a cartada final para tirar qualquer traço de favoritismo do atual presidente.

O governo federal não apenas não tem políticas públicas para frear o vírus como elogiou a nova variante: Bolsonaro afirmou que a ômicron era “bem-vinda” no Brasil, voltando à tese da imunidade de rebanho, como fazia no início da pandemia.

A ômicron, apesar dos sintomas mais leves em pessoas vacinadas, ainda tem levado pacientes para as Unidades de Terapia Intensiva. Relatos da médica intensivista Ludhmila Hajjar apontam que aqueles nas UTIs são os que não se vacinaram. Alguns, claro, são por opção (ou estupidez), mas as crianças sequer têm essa possibilidade até agora.

Falta de testes

Desde o início da pandemia, o Brasil testa pouco, o que leva a uma subnotificação dos casos. Mas, atualmente, a situação é ainda pior. Não há testes, mesmo para quem está disposto a pagar. Nas farmácias, onde antes era possível encontrar uma alternativa mais barata, há falta de exames. E há, claro, aqueles que não podem pagar pelos exames de precisam contar com o SUS, onde também faltam testes.

O apagão de dados não é só o das planilhas, mas também na maquiagem de números. Sem testes, as pessoas não conseguem saber se estão com covid-19. Os sintomas mudaram e uma simples dor de garganta ou um nariz entupido podem ser a ômicron – o problema é: como saber?

Cobrar que uma pessoa não vá a uma aglomeração, tudo bem, mas cada vez menos pessoas têm a possibilidade de ficar em casa e, sem políticas de testagem e com sintomas mais leves, muitas não sabem que estão com covid. A consciência individual ajuda, mas sem política pública, não há efetividade. Isso faz com que elas possam contaminar desde idosos, mais vulneráveis, até crianças, que ainda não podem se vacinar.

Mesmo com o alerta de que a ômicron geraria uma disparada de casos, foi só no dia 13 de janeiro que o Ministério da Saúde enviou um pedido para que a Anvisa regulasse o autoteste. 

O Ministério da Saúde parece achar que o jeito de acabar com a pandemia é varrer o vírus para baixo do tapete. Mas, ainda temos as crianças, que podem ser vacinadas a conta gotas, a começar pelos próximos dias, e podem ser vetores da infecção.

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