Como age o novo coronavírus nos bairros ricos e pobres de São Paulo?

·4 minuto de leitura
Foto: Bruna Prado/Getty Images
Foto: Bruna Prado/Getty Images

Texto: Guilherme Soares Dias Edição: Nataly Simões

De um lado, Brasilândia e Sapopemba, distritos com alto índice de densidade demográfica de São Paulo, que lideraram o número de óbitos totais e ilustram a face pobre da cidade. Do outro, o Jardim Paulista, região com uma população mais rica e que costuma fazer viagens ao exterior, onde foi registrada a primeira infecção do novo coronavírus no Brasil.

A Ação Covid-19, grupo interdisciplinar de pesquisadores dedicados à entender como a desigualdade afeta a evolução da pandemia no Brasil, analisou a expansão da pandemia em diferentes territórios entre o fim de março e início de junho de 2020. A análise encontrou “discrepâncias de realidades” que se refletem em distintos padrões de isolamento, transmissão e mortalidade entre as populações dessas áreas. O estudo conclui que “as extremas desigualdades da capital paulista são amplificadas na pandemia”.

A cidade de São Paulo tem 12,18 milhões de habitantes e registrou a primeira morte em decorrência do novo coronavírus em 17 de março. A Brasilândia, na região norte, com 264 mil habitantes, possui loteamentos populares implantados sem planejamento, com ruas estreitas, terrenos pequenos e ausência de espaço público.

O estudo lembra que a alta densidade e o grande número de pessoas vivendo em um mesmo domicílio com poucos cômodos, questões sanitárias que incrementam a vulnerabilidade da saúde de seus moradores, são fatores que agravam os impactos da Covid-19 em sua dispersão nas periferias. “Esses fatores colocaram a Brasilândia, já no começo da pandemia, entre os distritos líderes em mortes absolutas em São Paulo. Tal situação é extremamente preocupante em uma região que só agora recebe um hospital apenas 11,8% pronto e com quatro anos de atraso em sua construção. Mesmo esse aumento de leitos (apenas 20) não deve melhorar muito a situação para a Brasilândia, que possuía uma proporção de 0,011 leitos por cem mil habitantes até o ano passado”, informa a Ação Covid-19.

No distrito, a adesão ao isolamento foi menor do que o ideal e a rotina seguiu “quase a normalidade pré-quarentena”, já que boa parte de sua população não pode deixar de sair para trabalhar e tem necessidade de fazer baldeação no transporte público.

Jardim Paulista

Situado na Zona Oeste, o Jardim Paulista tem 88.692 mil habitantes, compõe a região dos Jardins e contorna a Avenida Paulista no sentido da Marginal Pinheiros. O bairro é de alto padrão de vida e população com acesso à água encanada e oferta abundante de lazer. Na região estão localizados alguns dos hospitais mais bem financiados do país: o Hospital Sírio-Libanês e unidades do Albert Einstein.

Nos Jardins, o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado em 25 de fevereiro. A vítima era um homem que havia voltado de uma viagem internacional. O bairro registrou as primeiras mortes na cidade ainda no fim de fevereiro. Até meados de março a concentração dos óbitos nos distritos mais ricos da capital tinha relação com o fato de os casos de internação e de óbito terem sido registrados, em sua grande maioria, em hospitais particulares. A partir do fim de março, no entanto, essas zonas mais ricas passaram a não ser mais o epicentro da doença na cidade de São Paulo.

Já m maio, os índices de contágio foram maiores nas regiões mais ricas da capital, enquanto nas regiões mais pobres a taxa de mortalidade aumentou desproporcionalmente. Mesmo com elevada densidade demográfica, as condições de isolamento foram implementadas de forma voluntária no início da pandemia.

Sapopemba

O bairro da Zona Leste paulista tem 284 mil habitantes e é o terceiro mais populoso e o quarto mais denso da cidade. O distrito foi um dos que mais registrou óbitos por Covid-19 em São Paulo. De acordo com o Relatório Situacional da Secretaria Municipal da Saúde, dos 7.599 óbitos registrados até 27 de maio, 205 ocorreram na região.

A quantidade de leitos de UTI disponíveis é um dos fatores que agrava a situação: 0,845 leitos por 100 mil habitantes. Um mês e meio após decretada quarentena oficial no Estado de São Paulo, o Hospital Sapopemba já havia atingido sua capacidade máxima.

Segundo relatos, moradores de diferentes faixas etárias não têm realizado a quarentena voluntária. Mesmo após o decreto de quarentena do Governo do Estado de São Paulo, jovens se reuniram em bailes funk noturnos e os idosos em praças.

O estudo conclui ainda que o isolamento social de 70% da população, desejado pelo Governo do Estado de São Paulo, antes da sua política de reabertura da economia, bastaria para atenuar os efeitos da pandemia em distritos díspares e desiguais como Jardim Paulista e Brasilândia, mas seria insuficiente para mitigar os efeitos em Sapopemba. “Mesmo que tivéssemos chegado ao cenário ideal estabelecido pelo governador, a reabertura da economia seria trágica para a cidade, com as curvas se acelerando novamente, como observado nas simulações”.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos