Nova substância se mostra capaz de melhorar o funcionamento do cérebro em pacientes com Alzheimer

Ana Lucia Azevedo
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Antonio Scorza / Agência O Globo

RIO — Uma substância sintética se mostrou capaz de melhorar o funcionamento do cérebro e restaurar a memória perdida devido ao mal de Alzheimer. O estudo foi realizado por cientistas brasileiros e, embora os dados se refiram a testes com animais, abre um caminho não para a cura, mas para um tratamento eficiente para uma doença até agora sem qualquer terapia eficaz.

Publicado no prestigioso periódico internacional Science Signaling, o trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Nova York.

— Vimos que essa substância realmente mantém o processo de formação da memória funcionando. Ela não atua sobre a causa do mal de Alzheimer, mas sobre as consequências. É como se o Alzheimer fosse uma pedra que bloqueia uma estrada. A droga não tira a pedra, mas abre um desvio seguro — afirma Sergio Ferreira, um dos autores do estudo e professor titular dos Institutos de Biofísica e de Bioquímica Médica da UFRJ.

O mal de Alzheimer avança no mundo. Hoje se estima que 40% das pessoas acima dos 85 anos sofram de demência e o Alzheimer representa 70% dos casos. No mundo são 35 milhões de pessoas, um milhão das quais no Brasil.

Ainda assim, pouco se tem conseguido para combatê-lo. A última droga aprovada é de 2003 e tem ação muito reduzida. Na melhor das hipóteses, retarda por um ano o declínio do cérebro.

'Estamos otimistas que abrimos um novo e bom caminho'

A substância identificada pelos brasileiros restaura a ordem no estrago feito pelo mal de Alzheimer. Ela se chama ISRIB e foi desenvolvido por cientistas da Universidade da Califórnia em 2013. A ISRIB estimula a produção de proteínas, um processo conhecido como síntese proteica.

A síntese proteica é fundamental para a formação e a consolidação da memória. Quando aprendemos alguma coisa, os neurônios produzem proteínas específicas para guardar e consolidar a informação. Mas, estudos anteriores, inclusive um do próprio grupo da UFRJ, já haviam demonstrado que o mal de Alzheimer desregula a síntese proteica nos neurônios.

Normalmente, quando submetidos a estresse, seja uma infecção, uma substância tóxica ou falta de nutrientes, as células cessam a produção da maioria das proteínas e focam apenas naquelas associadas ao estresse. É um processo de defesa do organismo, benéfico. Porém, o mal de Alzheimer causa um estresse permanente e faz com os neurônios mergulhem nesse estado de permanente estresse. Deixam de fazer as proteínas necessárias para guardar as memórias.

Os cientistas da UFRJ e Maurício Oliveira, que faz pós-doutorado na Universidade de Nova York, supuseram que a ISRIB, por atuar justamente sobre esses mecanismos de estresse, seria uma boa candidata.

Os testes com camundongos demonstraram que os cientistas brasileiros estavam certos. A ISRIB realmente restaura a produção de proteínas e, com isso, a memória.

— Esse é o primeiro estudo a mostrar que é possível estimular a produção de proteínas em cérebros afetados pelo mal de Alzheimer e, com isso, recuperar a memória — explica Ferreira.

O próximo passo será ampliar os testes e Ferreira observa que o mais promissor é investir não na própria ISRIB, mas na identificação e reposicionamento de medicamentos já disponíveis e aprovados para uso em seres humanos que possam atuar de forma parecida com a ISRIB. Já existem pesquisas nessa linha.

— O reposicionamento economizará tempo e dinheiro, porque poderemos usar drogas já testadas e seguras. Estamos otimistas que abrimos um novo e bom caminho — destaca o cientista.