Nova terapia celular ajuda portadores de leucemia e linfomas

Por Dr. Roberto Magalhães*

A ciência tem feito progressos extraordinários no desenvolvimento de novos tratamentos personalizados para vencer o câncer. Um dos avanços mais recentes é a terapia CAR-T Cell (sigla do inglês para chimeric antigen receptor T-cell therapy). Ela é feita com células do sistema imune, os linfócitos, do próprio paciente, que são modificadas em laboratório e devolvidas ao organismo para combater as células tumorais. Posso afirmar que essa é, seguramente, uma abordagem revolucionária e que tem se mostrado muito eficiente contra diversos tipos de câncer do sangue e do sistema linfático, entre eles a leucemia linfoblástica aguda, o linfoma não Hodgkin e o mieloma múltiplo.

Vale contar um pouco mais sobre esse recurso para a compreensão da sua importância. A CAR-T Cell é feita com células do sistema de defesa do organismo, especificamente os linfócitos T, que no hemograma completo são também cohecidos como glóbulos brancos ou leucócitos. Eles são colhidos do sangue do paciente por meio de um processo de separação semelhante à hemodiálise, chamado aférese, e enviados a um laboratório de altíssima tecnologia.

Lá, essas células são expostas a um vírus que não causa doença, mas funciona como um mensageiro que leva as informações necessárias para que passem a fabricar receptores de antígenos quiméricos específicos que vão reagir contra as células do tumor. O objetivo é que as células geneticamente modificadas recuperem a capacidade de “enxergar” e destruir as células cancerígenas. Esse é, na verdade, o grande desafio na luta contra a doença, que consegue driblar os mecanismos de resistência do sistema de defesa humano.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou o uso da técnica em pacientes com leucemia linfoblástica aguda com idade abaixo de 25 anos e nos casos de linfomas não Hodgkin (o mais comum subtipo difuso de grandes células), em que os tratamentos convencionais indicados falharam. Ilustra bem essa situação o ocorrido com a menina Emily, o primeiro caso documentado de sucesso da terapia, que agora comemora uma década de remissão livre da doença. Ou seja, curada. Aos 5 anos, a criança foi submetida ao novo método, que ainda estava em fase experimental, depois que os protocolos convencionais com poliquimioterapia em altas doses e até mesmo o transplante de medula, não tinham dado resultado.

A expectativa é ampliar a indicação da técnica à medida que novos estudos comprovem seus benefícios contra outros tipos de neoplasias do sangue e para combater tumores sólidos, o que está sendo estudado por muitos pesquisadores ao redor do mundo. As aprovações das agências reguladoras dos países dependem da conclusão desses trabalhos científicos e da validação dos seus dados pelas autoridades locais. Em Israel, por exemplo, a técnica já está disponível também para tratar casos de linfoma não Hodgkin, mieloma múltiplo e leucemia mieloide aguda.

Um desafio a ser vencido para a implementação ainda é o alto custo dessa tecnologia, que chega ao país e dependerá de uma boa seleção dos pacientes quanto à indicação do tratamento, de uma boa infraestrutura hospitalar, além da sensibilidade e compreensão por parte das operadoras de saúde sobre a relevância no processo de tratamento e cura dos pacientes.

Além dos dez anos de cura de Emily, há mais boas notícias. Cada inovação da medicina se consolida, na prática, quando setorna acessível à população que pode se beneficiar desses avanços e conquistas. É o que está acontecendo agora no Brasil. Em breve, a terapia CAR-T Cell será oferecida aos pacientes no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), no Rio de Janeiro, que faz parte da Dasa, maior rede de saúde integrada do país.

Referência em transplantes, o CHN está entre os centros altamente especializados que lideram os transplantes de medula óssea no país. Ao menos nove equipes, mais de 50 médicos hematologistas e profissionais da saúde treinados para garantir o que há de melhor e mais moderno em terapia onco-hematológica aos pacientes atuam no Centro de Excelência em Hematologia e Terapia CAR-T Cell do CHN. Para levar a ciência para mais perto de quem precisa dela, a Dasa vem preparando a instituição há pelo menos três anos e está no processo para receber a certificação internacional FACT, concedida pela Foundation for the Accreditation of Cellular Therapy.

*Dr. Roberto Magalhães, médico hematologista no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN)

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