Da Nova Zelândia pode surgir a 'salvação' para indígenas brasileiros

Integrantes da Comissão Guarani Yvyrupa e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil fazem manifestação em defesa da demarcação das terras indígenas e contra o marco temporal, na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Guiacurus, Caetés, Goitacazes, Tupinambás e Aimorés eram apenas nomes de ruas em uma das mais belas composições de Milton Nascimento para o álbum “Clube da Esquina 2”. Todos estavam no chão, assim como Guajajaras, Tamoios, Tapuias, Timbiras e Tupis na música “Ruas da Cidade”, onde “a parede das ruas não devolveu os abismos que se rolou”.

No Brasil de 2019, começamos a assistir o que talvez seja a “ofensiva final aos povos indígenas”, conforme declarou, em entrevista à agência A Pública, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, um dos mais respeitados pensadores brasileiros da atualidade.

Essa ofensiva começa pela linguagem.

No início do mês, pesquisadores brasileiros se reuniram com especialistas de oito universidades públicas da Nova Zelândia, para entender como o país conseguiu evitar a extinção da língua indígena do povo nativo Maori. Participaram do encontro pesquisadores da Massey University, da University of Canterbury, da University of Waikato, da Auckland University of Technology e da University of Otago

O encontro aconteceu em um momento de tensão entre o governo Bolsonaro e os povos indígenas, sobretudo em razão da disputa por terras na Amazônia, tema de um sínodo da Igreja Católica que transformou o papa Francisco em um novo inimigo da nação, e uma liderança indígena é atacada nominalmente pelo presidente em sua fala na Assembleia Geral da ONU. O pano de fundo é a potencial exploração de minérios em terras indígenas, uma promessa de campanha do capitão.

Segundo o Atlas Mundial das Línguas em Perigo, da Unesco, o Brasil é um dos países com o maior número de línguas ameaçadas do Planeta. Das 1.500 línguas indígenas existentes aqui até a colonização, restam cerca de 150, de acordo com uma pesquisa recente da Unicamp.

Se forem extintas, automaticamente desaparecerá uma série de traços culturais, ensinamentos e conhecimentos dos povos indígenas de um território onde habitavam bem antes da chegada dos portugueses.

Tempos atrás, a língua dos Maoris também estava ameaçada de extinção. Para que isso não acontecesse, um longo trabalho de preservação de identidade cultural e compreensão da realidade linguística foi realizado ao longo de décadas (sim, décadas).

Até o fim dos anos 1960 a língua Maori era proibida no sistema de ensino do país, dominado pelos colonizadores ingleses. Calcula-se que menos de 20% da população nativa tinha acesso à própria língua na época.

Isso começou a mudar nos anos 1970, com os esforços de revitalização do idioma, que contou com a inclusão das questões linguísticas e culturais dos Maori em sala de aula.

Em 1972, três grupos de ativistas peticionaram a assembleia legislativa para promover a língua e conseguiram criar o programa Te wiki o Te Reo Māori (a semana da língua Maori).

Já na década de 1980 foi criado o movimento Kōhanga Reo (Ninhos de Língua), com escolas infantis de imersão no idioma.

A língua Maori se tornou língua oficial da Nova Zelândia apenas em 1987, e hoje universidades do país oferecem programas dedicados ao estudo do idioma.

Os Ninhos da Língua existem até hoje e atuam como centros de educação pré-escolar e creches, com todas as atividades realizadas em Maori.

Essa experiência foi apresentada por uma delegação de educadores, pesquisadores e estudantes neozelandeses no NZ Summit, evento realizado na Universidade de Brasília (UnB) no último dia 3.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Massey University já iniciaram um processo de cooperação para troca de conhecimento, segundo a Education New Zealand (ENZ), agência do governo para a divulgação e representação da educação da Nova Zelândia.

A parceria prevê a publicação de artigos, intercâmbios de pesquisadores nativos de povos tradicionais e a elaboração de um livro sobre linguística e educação voltado para educadores e estudantes universitários, além da organização de um seminário internacional sobre revitalização e preservação de idiomas.

Em um governo assombrado, literalmente, por outros incêndios internos, a iniciativa é uma forma de evitar que a memória indígena se resuma de vez às referências ao extermínio nas placas de ruas.