Novas feridas abertas pela polícia nos protestos da Colômbia

Lina VANEGAS, Juan Sebastian SERRANO
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Durante o protesto começou uma chuva de balas. Dezenas de jovens morreram ou ficaram feridos em manifestações contra a violência policial na Colômbia. E em vários casos os que dispararam estavam uniformizados, de acordo com investigações em andamento e sobreviventes agredidos.

Nos dias 9 e 10 de setembro, multidões com pedras, paus e bombas se voltaram contra as delegacias de polícia em Bogotá pelo assassinato de Javier Ordóñez (43 anos).

Treze pessoas morreram em vários pontos de Bogotá e no município vizinho de Soacha. Tinham entre 17 e 36 anos. Outras 75 ficaram feridas por balas.

A AFP escutou vários feridos cujos depoimentos retratam essa noite de repressão.

1) Dois em um tiro

A bala ricocheteou na borda metálica da janela antes de atingir o peito de Robert Valencia (35 anos). Os estilhaços alcançaram o nariz de seu irmão Henry (39).

Seus pais estavam apavorados, sem entender por que choviam balas dentro da casa onde têm um restaurante.

"Quando você vê um disparo no centro do peito, ao lado do coração, começa (...) a pensar que será a última vez que verá sua família", disse Robert. "Voltei a olhar meu pai e minha mãe e comecei a me despedir".

Ensanguentado, Henry chegou até seu carro estacionado a poucas quadras de distância. Seus pais levavam Robert nos ombros. Foram direto para um hospital, abrindo passagem entre manifestantes e policiais.

Enquanto aguardavam atendimento, Henry sentiu o receio de uma enfermeira, que acreditava que os negros "estavam atirando pedras" nos protestos.

A bala atingiu o esterno de Robert, um osso flexível que evitou um dano maior, e os estilhaços atingiram a narina direita de seu irmão.

2) Queria ser militar

Kevin Benítez (19) queria ser militar, mas um disparo da polícia o impediu. Com uma bala presa no braço esquerdo, o jovem relata como foi seu encontro com a desgraça.

Em 10 de setembro, enquanto voltava de uma partida de futebol, encontrou uma manifestação tranquila em frente a uma delegacia policial no sudoeste de Bogotá.

Às onze da noite, policiais de moto aceleraram em direção à multidão e Kevin correu para um estacionamento. Uma câmera de segurança registrou quando um policial disparou dois tiros contra ele. Outra câmera captou quando foi jogado no chão, agredido e levado para um carro policial, onde notou que tinha "um buraco" no braço.

Ele conta que a delegacia recusou fornecer atendimento médico. Saiu de lá caminhando até um hospital. Os médicos não conseguiram extrair a bala, o que fez com que fosse rejeitado na academia militar. Hoje está desempregado.

3) Em uma democracia

No final de 2019, Nicolás Jiménez (23) saiu de Buenos Aires, onde estuda cinema, para passar as férias em Bogotá, mas a pandemia atrasou seu retorno.

Na noite de 9 de setembro Nicolás saiu para buscar sua mãe em um ponto de ônibus. Esbarrou com um confronto com pedras entre manifestantes e policiais.

Nicolás, que vive no noroeste de Bogotá com sua mãe, duas irmãs e três irmãos, viu policiais motorizados avançando contra a multidão. Enquanto corria com medo do gás lacrimogêneo, sentiu um impacto na mão direita.

A bala foi retirada no hospital. "Eu não tinha nenhuma arma para que atirassem contra mim e pelas costas", conta.

Nicolás trabalha de casa em uma empresa de publicidadee ainda não recuperou a mobilidade da mão direita. "Isso não acontece em um país democrático", reflete ele.

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