Novas formas de vida emergem entre rochas da última geleira da Venezuela

Margioni BERMÚDEZ
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Musgos, líquens e aves não registradas sobre os 4.000 metros de altitude da Cordilheira dos Andes colonizam rochas nuas, devido ao degelo da última geleira na Venezuela.

O derretimento apressado por causa da mudança climática causa tristeza, mas abre uma oportunidade única para os cientistas.

Não vai demorar muito para que essa massa de gelo desapareça do pico Humboldt, na cidade de Mérida, tendo-se reduzido em mais de 99% desde 1910, segundo registros coletados por pesquisadores venezuelanos entre maio de 2019 e outubro de 2020 para documentar os efeitos da mudança climática.

De uma área de geleiras equivalente a 300 campos de futebol, agora ela corresponde a cerca de cinco (4,5 hectares), segundo cientistas.

"É uma notícia muito triste, muito difícil", diz à AFP a física Alejandra Melfo, integrante do projeto Última Geleira Venezuela do Instituto de Ciências Ambientais e Ecológicas da Universidade dos Andes (ULA), patrocinado pelo National Geographic Society.

No entanto, "é interessantíssimo para um cientista ter a chance de ver como paulatinamente a vida é formada na rocha", acrescenta Melfo, que participou das expedições exibidas no documentário "Último Glaciar Venezolano, Vida después del Hielo", que estreou no YouTube em meados de dezembro.

Durante três expedições coordenadas pelo ecologista Luis Daniel Llambí, acompanhado por uma dezena de pesquisadores, foram registrados "musgos e líquens novos para Venezuela, espécies que nunca foram registradas nessa altitude, inclusive espécies que nunca foram registradas", destacou Melfo.

"Em particular vimos beija-flores, uma espécie conhecida como o Chivito del páramo, um beija-flor que conseguimos identificar e que está polinizando as plantas nestas altitudes", acrescentou.

- "Nova vida" -

A diminuição da geleira representou uma "oportunidade única de fazer um estudo que nunca foi feito nos Andes, de como a vida vai colonizando a rocha quando o gelo é removido".

"A geleira morre e deixa vida, uma chance nova para a vida", acrescenta.

Graças ao projeto, foram elaborados "mapas multitemporais", nos quais foi possível determinar onde a geleira estava em cada momento histórico para identificar o quanto foi reduzida. "É como se a geleira agisse como uma máquina do tempo", afirmam.

A pesquisa estudou a sucessão, fenômeno em que um ecossistema passa para uma próxima fase.

As expedições, lembra Melfon, foram feitas sob duras condições climáticas que incluíram rajadas de vento que soltaram as barracas do acampamento.

Encontrou-se "interação de entidades que se chamam biocrostas, que são uma associação com líquens e bactérias que vão formando um ambiente onde outras plantas podem viver".

- Geleira "infinita" -

José Manuel Romero, documentarista nascido em Mérida que participou da produção do filme que resume a aventura da geleira, escalou-a pela primeira vez no ano 2000.

"Consegui chegar à geleira do Humboldt e me parecia infinita, eram horas para poder chegar ao cume, era incrível, lindo, tinha gelo até o topo, nunca me passou pela cabeça que isso ia desaparecer ou pelo menos em muitíssimo tempo", contou à AFP.

Em seus 40 anos, já viu duas geleiras desaparecerem das cinco que existiam nessa cordilheira: o pico Bolívar e o pico Bonplant. Outras duas desapareceram antes de seu nascimento (El Toro e El Leon).

"Este é o primeiro dezembro que passamos sem a geleira do pico Bolívar - não se vê um único pedaço de gelo no pico Bolívar, isso é muito lamentável - e com o pouco gelo que resta na geleira de Humboldt", lamentou.

Prever exatamente quanto tempo resta para a geleira "depende muito se os verões são fortes, se chove muito, se há episódios de El Niño, mas é coisa de anos, não de décadas, não acreditamos que chegue ao fim da próxima década", reforçou Melfo.

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