Novas habilidades são afloradas durante o isolamento social

Lívia Neder
·4 minuto de leitura
Ana Paula admira seu trabalho em macramê na parede: ela já tinha intimidade com o crochê e aprendeu a técnica com linhas

20200509_180300.jpg

Ana Paula admira seu trabalho em macramê na parede: ela já tinha intimidade com o crochê e aprendeu a técnica com linhas

NITERÓI - Fazer do limão uma limonada foi a receita adotada por muita gente neste período de isolamento social. Potencializar e descobrir novas atividades viraram a saída na hora de administrar o tempo e a ansiedade. Sejam sonhos antigos ou algo que jamais havia sido pensado, habilidades estão sendo reveladas em tempos de quarentena. De artesanato à marcenaria, passando pela produção de pães e massas, em comum todos os que adotaram ocupações diferentes no tempo livre destacam o papel terapêutico que elas exercem.

Conectada com artes e trabalhos artesanais ao longo da vida, a jornalista Ana Paula Soares viu no distanciamento uma oportunidade de aprender uma atividade e apostou no macramê. O sucesso foi instantâneo: logo que postou em suas redes sociais a primeira peça finalizada, encomendas começaram a surgir. Um dos mais pedidos é um suporte de vaso de plantas com base de tronco de árvore.

— Estava trabalhando na produção de uma peça de teatro, e, assim que anunciaram a quarentena, soubemos que o espetáculo não voltaria tão cedo. Eu já estava assistindo a vídeos e planejando fazer macramê, então achei um galho bonito na rua e pensei que era um sinal. Antes que as lojas fechassem, comprei fio de algodão, comecei e não parei mais. Foi uma descoberta para a vida. Estou apaixonada — conta.

Nascida no interior de São Paulo e morando em Niterói há 12 anos, Ana Paula, hoje com 31 anos, faz crochê desde os 7.

— Tenho uma relação forte com o crochê, de mãe para filha. Sempre que eu precisava me reconectar com minhas raízes, fazia crochê. Por isso o coloquei em quadros. Achava que ele precisava ser visto como arte, além do artesanato. O momento de fazer macramê é de descanso. Está me fazendo muito bem— revela.

Para quem não tinha muitas habilidades na cozinha, o funcionário público Jheronimo Rodrigues surpreendeu a família com seus dotes culinários na produção de pães artesanais, iniciada a partir do isolamento social. Incentivado por um amigo, ele começou com receitas simples de brioches e rapidamente evoluiu para as mais complexas, incluindo pães de fermentação lenta. Seu repertório inclui baguete francesa, pão italiano, croissant, foccacia e até massa folhada.

— Sempre gostei de diferentes tipos de pão e tive curiosidade quanto ao processo de produção, mas nunca me aprofundei no assunto. Com o confinamento e a partir da experiência de um amigo, fui ler sobre o assunto e vi que era perfeitamente possível fazê-los em casa. Foi só partir para a prática. A cada pão, fui lendo sobre receitas e técnicas e assistindo a canais no YouTube, como o Amo Pão Caseiro — conta Rodrigues, que prepara as receitas acompanhado de um ajudante especial, o filho Raul, de 5 anos.

Tutoriais na internet

Diretor de prevenção a incêndio e pânico, Tarci Vieira Júnior revela que a quarentena fez emergir um sonho antigo, cheio de memória afetiva, de quando ainda era criança. Hoje, aos 42 anos, ele decidiu que a marcenaria, da qual aprendeu a gostar por influência do avô, fará parte da sua vida mesmo depois que o confinamento passar:

— Meu avô tinha uma oficina, e eu adorava ficar lá com ele. Então montar um espaço igual àquele sempre foi um desejo. Por falta de tempo, esse projeto ficou guardado por anos. Eu tinha algumas ferramentas, mas estava tudo bagunçado. Nestes tempos de pandemia, resolvi botar o projeto em prática e montei uma pequena marcenaria na minha casa.

Tarci Junior conta que, com a ajuda de tutoriais na internet, conseguiu fazer a sua primeira peça.

— Foi um banquinho bem simples, mas foi muito legal poder relembrar os tempos da oficina do meu avô. Neste período tão difícil, trabalhar na minha oficina tem sido uma ótima válvula de escape, praticamente uma terapia — conclui o novo marceneiro do pedaço, que já fez um porta-temperos para a mulher e adianta que a próxima criação será uma pequena estante de maquiagem para a filha.

E foi pensando na filha que ainda está por vir que o bancário Márcio Ponce tomou a iniciativa de reformar seu apartamento por conta própria. A ideia inicial era pintar apenas o quartinho da primogênita Luiza, que deve nascer em agosto, mas ele se empolgou e pintou todos os cômodos.

— Por causa da pandemia, ficamos com medo de pôr um profissional em casa, então comecei a pintar por minha conta. Nunca tinha pintado paredes, e quando fui ver já estava comprando mais tinta para pintar os outros cômodos. Nós acabamos aprendendo coisas novas neste momento. Agora, eu e minha mulher estamos esperando chegar umas prateleiras e nichos que compramos pela internet para terminar o quartinho — conta o pai ansioso.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)