Novas mensagens mostram que Lava Jato blindou Moro de tensão com STF

Former Judge Sergio Moro participates in an anti-corruption conference in Rio de Janeiro, Brazil, Friday, Nov. 23, 2018. Moro said he would present a bill to fight corruption and organized crime in February and reiterated that he had been given carte blanche by the President-elect to carry investigations. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Moro teria reclamado a Deltan a "bola nas costas" da PF em divulgar lista com nomes de políticos com foro privilegiado antes de remetê-la ao STF. (Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Moro e procuradores do MPF temiam que Teori, relator da Lava Jato no STF, desmembrasse inquéritos e enfraquecesse a operação

  • Preocupados com atrito entre Moro e STF, procuradores se articularam para blindar o ex-juiz e a força-tarefa

Novo vazamento divulgado neste domingo (23) revelou que procuradores da operação Lava Jato se articularam para blindar o então juiz Sergio Moro de possíveis tensões com o STF (Supremo Tribunal Federal) que paralisassem as investigações, em 2016.

A série de reportagens do ‘Intercept’ começou no dia 9 de junho, um domingo. Na primeira leva de matérias, o site divulgou uma série de mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol.

As mensagens privadas divulgadas neste domingo foram enviadas por uma fonte anônima ao The Intercept Brasil, e publicadas pelo jornal Folha de São Paulo e pelo site do The Intercept Brasil.

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No dia 22 de março de 2016, a Polícia Federal tornou públicos documentos apreendidos na casa de um dos executivos da Odebrecht de um processo que corria em Curitiba.

O material, divulgado pelo jornalista Fernando Rodrigues antes que Moro o colocasse em sigilo, continha nomes dezenas de políticos com direito a foro especial, que só podiam ser investigados com autorização do Supremo.

As mensagens indicam que os procuradores e o então juiz temiam que o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF, desmembrasse os inquéritos que estavam sob controle de Moro em Curitiba, enfraquecendo parte da força-tarefa no momento em que ela avançava contra a Odebrecht.

A troca de mensagens acontece um dia depois de Moro ter sido repreendido por juízes do STF pela divulgação de conversa entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidente Dilma Rousseff.

“BOLA NAS COSTAS”

O atrito com o Supremo foi causado pelo que Moro chamou de “bola nas costas” da Polícia Federal. Conforme as mensagens publicadas, Moro reclamou a Deltan Dallagnol, via Telegram, a divulgação da lista apreendida pela PF: “Tremenda bola nas costas da Pf”, disse. “E vai parecer afronta [ao STF].”

Moro avisou que teria de enviar ao tribunal pelo menos um dos inquéritos em andamento em Curitiba, que tinha o marqueteiro petista João Santana como alvo. Deltan disse ter contatado a Procuradoria-Geral da República e sugeriu que o juiz enviasse outro inquérito, com foco na Odebrecht.

Horas depois, segundo as mensagens, Deltan escreveu novamente a Moro, sugerindo que não tinha havido má-fé por parte da PF. “Continua sendo lambança”, teria respondido o juiz. “Não pode cometer esse tipo de erro agora.”, completou Moro, segundo o vazamento.

Deltan respondeu: “Saiba não só que a imensa maioria da sociedade está com Vc, mas que nós faremos tudo o que for necessário para defender Vc de injustas acusações.”

Moro disse ainda que temia pressões para que sua atuação fosse examinada pelo Conselho Nacional de Justiça e comunicou que mandaria para o Supremo os três principais processos que envolviam a Odebrecht, inclusive os que a força-tarefa tinha sugerido manter em Curitiba.

Deltan se comprometeu a falar com o representante do MPF no CNJ e sugeriu que tentaria apressar uma das denúncias que a força-tarefa estava preparando. A medida permitiria que o caso fosse encaminhado ao STF já com os acusados e crimes definidos na denúncia.

Brazil's General Prosecutor Deltan Dallagnol, coordinator of the Lava Jato anti-corruption operaton's task force speaks during the ceremony to deliver two million signatures in favor of a bill with 10 measures against corruption, in Brasília on March 29, 2016. AFP PHOTO/ANDRESSA ANHOLETE / AFP / Andressa Anholete        (Photo credit should read ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty Images)
Segundo mensagens, Deltan manifestou apoio a Moro e prometeu defesa diante de "injustas acusações". (Foto: ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty Images)

“MORO ESTÁ CHATEADO”

Minutos depois de conversar com Moro no chat do Telegram, Deltan procurou o delegado Márcio Anselmo, que chefiava as investigações sobre a Odebrecht. “Moro está chateado”, disse Deltan, de acordo com as mensagens. Anselmo teria respondido que correra para anexar os papéis aos autos dentro do prazo legal e que não via motivo para “todo esse alvoroço”.

Deltan respondeu: “O receio é que isso seja usado pelo STF contra a operação e contra o Moro. O momento é que ficou ruim”, disse. “Vem porrada”, segundo consta nas mensagens.

No dia 23 de março, dia seguinte às mensagens repreendendo Deltan, Moro voltou ao Telegram e pediu que o procurador ajudasse a conter o grupo antipetista MBL (Movimento Brasil Livre), que protestava em frente ao apartamento do ministro Teori Zavascki em Porto Alegre, com faixas com os dizeres “traidor” e “pelego do PT”.

Segundo as mensagens, Moro escreveu a Deltan: “Nao.sei se vcs tem algum contato mas alguns tontos daquele movimento brasil livre foram fazer protesto na frente do condominio.do ministro. Isso nao ajuda evidentemente.”

Deltan disse que tentaria se informar, mas ponderou: “Não sendo violento ou vandalizar, não acho que seja o caso de nos metermos nisso por um lado ou outro.” Mais tarde, o Deltan teria avisado Moro que que o MBL estava “chateado” com a força-tarefa devido a sua recusa em se juntar explicitamente à chamada do grupo para o impeachment de Dilma, mas alertou que o MPF não tinha contato com o MBL.

Dois inquéritos e uma ação penal que corriam em Curitiba, incluindo a lista da Odebrecht, foram enviados ao STF em fins de março. Poucas semanas depois, Teori devolveu os inquéritos a Curitiba, mantendo no STF somente as planilhas da Odebrecht que listavam políticos com foro, como manda a lei, as mesmas que Moro não queria mandar ao Supremo.

Primeiro relator da Lava Jato no Supremo, Teori morreu num acidente aéreo em janeiro de 2017.

EPISÓDIOS ANTERIORES DO VAZAMENTO

Deltan já defendeu publicação de vazamentos na mídia

Novos trechos de conversas divulgadas pelo The Intercept Brasil, neste sábado (22), revelam que Deltan Dallagnol e outros procuradores do MPF (Ministério Público Federal) concordaram e defenderam a publicação na mídia de vazamentos de informações sigilosas ou obtidas ilegalmente.

Contudo, desde que vieram à tona as primeiras mensagens entre o então juiz Sergio Moro e procuradores indicando possível interferência do agora ministro na operação Lava Jato, as manifestações públicas de Deltan são de que ele e os procuradores, assim como a operação em si, são vítimas de um “ataque gravíssimo por parte de um criminoso”.

Procuradora deixa caso Lula após 48h da crítica de Moro

A procuradora do MPF Laura Tessler foi afastada do processo do triplex de Guarujá, que resultou na condenação do ex-presidente Lula, 48 horas depois da crítica feita por Sergio Moro a Dallagnol.

Em novo trecho de novo vazamento, divulgado nesta quinta-feira (20), mensagens trocadas pelo Telegram entre Deltan e o procurador Carlos Fernando, no dia 13 de março de 2017, apontam que a escala do MPF foi alterada para retirar Laura do processo específico do triplex após Moro criticar seu desempenho em inquirições de audiências. Sabatinado no Senado pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) na quarta-feira, o ministro da Justiça negou interferência.

FHC - Mitigar apoio importante

Mensagens trocadas entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol, divulgadas pelo The Intercept Brasil nesta terça-feira (18), apontam que o ministro repreendeu as investigações contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pois “não queria perder o apoio”.

O diálogo teria acontecido logo após o Jornal Nacional veicular, em 13 de abril de 2017, uma reportagem de suspeitas contra o tucano. O então juiz questionou Dallagnol sobre a seriedade das “acusações".

O procurador teria afirmado que a Lava Jato não levou em consideração a prescrição para demonstrar “passar um recado de imparcialidade". Na época, a operação era criticada por investigar apenas membros do PT envolvidos no esquema de corrupção.

“Ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante", responde Moro.

As denúncias de FHC seriam referentes a um suposto Caixa 2 em 1996.

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Interesse da MPF em FHC veio de sugestão

A reportagem também mostra que o interesse de envolver alguém do PSDB e, assim, apaziguar os críticos surgiu cedo na Lava Jato. Em conversa no dia 17 de novembro de 2017, o procurador Roberto Pozzobon utilizou um grupo do Telegram Chamado FT MPF Curitiba 2 para sugerir uma investigação de pagamentos da Odebrecht aos institutos de Lula e FHC.

O procurador ainda compartilhou um laudo da Polícia Federal daquele mesmo ano, pagamentos mensais feitos pela Odebrecht ao iFHC entre dezembro de 2011 e 2012. A soma era de R$ 975 mil.

A série de reportagens do ‘Intercept’ começou no dia 9 de junho, um domingo. Na primeira leva de matérias, o site divulgou uma série de mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol.

Nessa primeira leva, as acusações contra Moro ficaram por conta de um suposto direcionamento que ele dá para a Lava Jato internamente. Entre outros, o portal apresenta mensagens que mostrariam que Dallagnol duvidada de provas contra Lula, além de colaboração proibida do então juiz com o procurador.

Mais tarde, em 14 de junho, o ‘Intercept’ seguiu suas publicações com mais material contra Moro. Nas novas mensagens divulgadas, há um diálogo horas depois do primeiro depoimento prestado por Lula à Lava Jato.

Neste diálogo, Moro teria proposto ao Ministério Público a publicação de uma nota à imprensa. Nela, haveria conteúdo que esclarecesse o que Moro chama de “contradições” do ex-presidente, no que ele se refere como um “showzinho” da imprensa.

“Vem muito mais por aí”

Em entrevista exclusiva ao Yahoo, o jornalista Glenn Greenwald afirmou que os conteúdos divulgados até então eram “apenas o começo”.

Moro não pode dizer que a reputação dele foi destruída. Mas a aprovação dele caiu dez pontos e ainda vem muito mais coisa por aí, a máscara dele [Moro] vai ser derrubada”, afirmou o jornalista na oportunidade.

Para defesa de Lula, mensagens são “prato cheio”

A divulgação das mensagens pelo ‘Intercept’ abriu um novo flanco para a defesa de Lula tentar reverter um histórico de derrotas em tentativas de anulação de processos contra o ex-presidente.

As conversas divulgadas fizeram a Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) desengavetar um pedido dos advogados de Lula pela anulação do processo do tríplex em Guarujá (SP), que levou o petista à prisão.

A solicitação da defesa foi feita sob o argumento de suspeitas na isenção de Moro após ele ter se tornado ministro do governo Jair Bolsonaro. Em dezembro passado, o ministro Gilmar Mendes (STF) havia pedido vista da ação, mas recolocou em pauta na última semana. A análise do caso está marcada para dia 25 de junho.

Principal base de Bolsonaro, evangélicos estão ‘100% com Moro’

Na última quarta (12), cerca de 30 parlamentares evangélicos se encontraram com Moro e fizeram uma oração para abençoá-lo, como contou o Marco Feliciano (Pode-SP), líder da bancada evangélica na Câmara.

“Fizemos uma oração e abençoamos a vida dele. Pedimos que Deus dê tranquilidade ao ministro”, diz o parlamentar.

O deputado esteve em comitiva, ao lado de Bolsonaro e Moro, que viajou até Belém (PA) na quinta (13) para participar da celebração dos 108 anos da Assembleia de Deus no Brasil.

Lá, Feliciano afirma que Moro foi “ovacionado”.

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