Novas rodas de samba de raiz mudam segundas-feiras no Recreio

Quem passa pela esquina da Estrada do Pontal com a Rua 8W às segundas-feiras, tem a sua atenção atraída para dentro do restaurante Cocotão. Uma vez por semana, do meio-dia às 20h, um grupo com mais de 40 músicos, militares e policiais, a maioria reservistas, se reúne para o que eles chamam de “segunda sem lei” e dão um verdadeiro show de samba de raiz, sem microfone, na maior afinação e com muitos instrumentos.

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— Tudo começou há um ano, com quatro amigos que decidiram se reunir às segundas-feiras e almoçar cada dia em lugar diferente. A ideia era só fazer uma resenha. Alguns eram compositores, como o Leandro Fab, e começaram a aparecer mais músicos. Aí o encontro tomou uma proporção que a gente não imaginava — diz Marcelo Ferreira, organizador da resenha dos amigos.

O encontro começou em quiosques na Praia da Reserva. Com a chegada do inverno, foi transferido para o Cocotão, há um mês. A resenha começa ao meio-dia e meia, com um churrasco para o grupo e seus convidados, e a música tem início às 14h30m. À mesa estão sambistas como os compositores Beto Correa, com mais de 700 músicas gravadas por artistas como Tim Maia, Banda Eva, Olodum e Exaltasamba; Leandro Fab, gravado por Seu Jorge; e Renan Fiore, cujas músicas estão nos repertórios de Diogo Nogueira, Mc Binho e Jorginho China. A maioria dos integrantes mora no Recreio.

— Segunda é o dia em que esquecemos os problemas e nos reunimos com amigos. É dia de samba, pagode, comida e bebida — afirma Cesinha do Banjo, ex-integrante do Grupo Raça.

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Mulheres, só entre a clientela do restaurante. Chama a atenção o fato de a roda ser formada só por homens. É para ninguém ter problemas em casa, explicam os integrantes. E todos ficarem bem à vontade.

— Não tem microfone, é só energia pura. Samba de raiz mesmo, lembra os pagodes e rodas de samba de antigamente — diz Beto Correa, convidado por Ferreira e Leandro Fab para o evento e desde então frequentador assíduo. — O clima é leve, cantamos o que dá vontade, mostramos novas músicas, pedimos opinião. É uma troca muito boa.

Para MC Binho, a resenha é um momento de pura descontração:

— Sinto liberdade e realização aqui. Tocamos de maneira descontraída e não há a cobrança do palco de não poder errar. Não tem ensaio e é espontâneo. Cantamos para a gente.

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Noite termina com resenha no CFZ

Quando dá 20h, é hora de sair do Cocotão e ir para o Bar do Galinho, no Centro de Futebol Zico (CFZ), também no Recreio. Depois da pelada do compositor Délcio Luiz, que termina às 20h, começa a resenha Que Segunda É Essa, realizada há três meses. O dono do campo, Zico, aprovou.

— O Délcio começou a alugar o campo para fazer a pelada dele e depois organizava um churrasco com pagode. Ficou tão legal que o meu filho Thiago (Coimbra) ligou para ele e pediu para fazer a inauguração oficial do bar na segunda. Aqui é a casa do futebol e do músico que joga futebol — diz o Galinho.

Desde então, a roda acontece no bar do CFZ. Délcio conta que no grupo de WhatsApp da roda há somente 22 pessoas e que ele nunca imaginou que ela fosse começar a lotar. Diverte-se ao observar que pessoas que ele nunca viu estão participando da festa:

— A inauguração foi tão legal que uns dias depois fui para o escritório e peguei o violão para fazer uma homenagem ao bar. Mostrei para o Zico e ele adorou. Resultado: no último dia 4 gravei no CFZ o clipe do Que Segunda É Essa, com convidados como Renato da Rocinha, Anderson do Molejo, MC Coringa, jogadores que foram do Flamengo, amigos meus e do Zico, que aprendeu a cantar a música e participou da gravação tocando tamborim ao meu lado.

O lançamento do clipe e da música será nas plataformas digitais, no dia 22. Com o sucesso da resenha despretensiosa, o músico pensa em criar um evento mensal que possa reunir um número ainda maior de pessoas:

— Estamos pensando em fazer a primeira edição no meio de agosto. Teremos que colocar microfone e segurança. Vai mudar um pouco, mas a ideia é não perder esse clima descontraído e entre amigos. A gente canta para a gente, sem repertório. É uma forma de reunir os amigos e a família. Segunda-feira já peço para não marcarem nada na minha agenda. É o dia que nós, músicos, temos para relaxar.

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Délcio conta que, como a sua resenha, foi assim que surgiram várias outras rodas de samba que hoje são famosas.

— Esse é o verdadeiro samba de raiz. Foi assim que começou o Cacique de Ramos, e o Fundo de Quintal nasceu como um futebol entre amigos — recorda.

Músico do Fundo de Quintal, Rodrigo Couto marcou presença no Cocotão e depois foi para o CFZ na última segunda-feira. Ele afirma que é uma honra poder tocar ao lado de tantos ídolos.

— É uma experiência única. Um samba nunca é igual a outro; é como uma partida de futebol. Cada dia é diferente — destaca.

O chef de cozinha Alessandro Motta não é músico, mas aprendeu a tocar alguns instrumentos com amigos. Na "segunda sem lei",entra na roda de samba.

— Nunca me imaginei tocando ao lado do Délcio — deslumbra-se.

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Sobrinho do falecido Bira, do Fundo de Quintal, Sandro Barbosa estava na resenha de Délcio pela primeira vez na última segunda e já pretende voltar. Quer conhecer também o encontro no Cocotão.

— São poucos os lugares que fazem samba de raiz hoje em dia. A gente gosta de como era feito antigamente. Esse evento é um tesouro escondido. A Barra e o Recreio sempre foram conhecidos por suas boates. Espero que agora sejam conhecidos também pelo samba de qualidade.

Morador da Baixada Fluminense, o compositor Alan Reis diz que o samba tem o poder de unir as pessoas, e é tão gostoso por ser democrático. Em sua primeira vez no evento de Délcio, afirmava ter sido muito bem recebido.

— Aqui todo mundo é igual. O bom sambista sempre acha o samba, e o bom samba sempre encontra o sambista — brinca.

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