Candidatos novatos a câmara apostam em delivery de material, QR code e lives para driblar pandemia

Vitor da Costa
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Arquivo Pessoal

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Arquivo Pessoal

RIO — Os candidatos a vereador tiveram que adaptar a campanha na tentativa de enfrentar as dificuldades impostas pela pandemia do novo coronavírus. Com tempo de televisão reduzido e poucos recursos, foi preciso muita criatividade para atrair a atenção dos eleitores. Para os novatos, que na maior parte dos casos são desconhecidos do eleitor, os problemas são ainda maiores. O delivery de material de campanha, o uso de QR code e a realização de mais lives estão entre as estratégias mais utilizadas.

Despesas: Campanhas eleitorais de 2020 registram menos gastos que as passadas

A candidata a vereadora por São Pailo pelo PT Vivi Mendes, de 31 anos, precisou alterar o planejamento inicial e decidiu descentralizar a campanha, ao incentivar que os eleitores formassem comitês domiciliares em suas casas.

Com a estratégia, os eleitores podem entrar em contato com a candidata pelas redes sociais para receber o material de campanha em suas casas e fazer a divulgação no local em que vivem. Até o momento, mais de 350 comitês já foram formados.

— Cada pessoa pode contribuir de forma diferente. Podem colocar uma placa na casa dela, trocar o nome da rede de wi-fi, realizar rodas de conversa com os vizinhos. Também entregamos material de campanha em domicílio. O voto de vereador é muito personalizado, então esse apoio é importante — explica a candidata, que também procurou investir em mais adesivos para carros.

Entre as 1.811 candidaturas à Câmara do Rio, está a Coletivas, um grupo para mandato coletivo pela Rede Sustentabilidade. Ao contrário de campanhas que não respeitam o distanciamento social pelo país, o coletivo, formado por sete mulheres, decidiu cumprir as recomendações sanitárias e realiza a campanha apenas de modo online.

— Estamos produzindo diversas lives no perfil da candidatura e nas nossas contas pessoais. Com os recursos do nosso financiamento coletivo, devemos investir em mais impulsionamentos na rede, nessa reta final da campanha — conta Erian Ozório, porta-voz da candidatura.

Entre as ações, estão vídeos das candidatas comentando as últimas notícias e reuniões online com os internautas. O áudio dos vídeos também é convertido para o formato de podcats.

Para a especialista em marketing político, Fernanda Galvão, as redes sociais são um recurso indispensável para as candidaturas, principalmente, para os novatos. Segundo Galvão, a combinação de criatividade com a integração entre as plataformas deve ser pensada por esse perfil de candidatos.

— As redes devem sair do lugar comum, ter a cara do candidato. Também é fundamental utilizar este tipo de ferramenta para gerar cadastro e aumentar o engajamento — destaca.

Sem encontrar boas opções para votar, o servidor público Luiz Salmeron, 32 anos, decidiu tentar uma das 20 vagas da Câmara de Sorocaba (SP). Com a pandemia, ele precisou ajustar o foco de sua campanha para o ambiente online.

Para isso, Luiz realiza conversas com eleitores interessados por meio de vídeo-chamadas agendadas, além de distribuir kits com materiais de campanha a domicílio. Até o momento, já foram entregues mais de 500 kits. Ele também utiliza, durante abordagens nas ruas, placas com QR code que direcionam para a sua conta de WhatsApp.

— Desenvolvemos uma campanha híbrida com foco no digital. O maior desafio para quem é iniciante é se tonar opção aos olhos do eleitor. E como as pessoas não estão falando tanto sobre a eleição, esse desafio aumenta — ressalta o candidato pelo PSDB.

Partidos

Os partidos também desenvolveram algumas iniciativas para auxiliar os candidatos. O PT criou a “Casa 13”, plataforma digital que permite o download de materiais personalizados para a campanha, além de possuir outras funcionalidades. O PSDB e o Cidadania também disponibilizam materiais pré-prontos para serem personalizados pelos interessados. Essa é a prática mais comum entre as agremiações.

O PDT desenvolveu a plataforma “Trabalhistas”, pela qual os candidatos podem acessar guias de campanha digital, obter materiais de campanha e disponibilizar os links de suas redes sociais para que sejam consultados pelos internautas. No MDB, há o “MDB Drive”, que traz dicas para a campanha e materiais gráficos para as redes.

Outra estratégia para dar publicidade às candidaturas menores é a ocupação de perfis de políticos com mandato, que costumam ter mais seguidores. No Rio de Janeiro, o PSOL delegou à deputada estadual Mônica Francisco, a missão de dar maior visibilidade às candidaturas fora da capital.

Em vários momentos da campanha, a página da deputada é utilizada pelos candidatos a vereador. Uma das ocupantes do espaço foi Vanessa Vicente, 38 anos, candidata do partido a uma das vagas da Câmara de Belford Roxo.

Vanessa decidiu se candidatar durante a pandemia. Por coordenar um pré-vestibular comunitário, ela viu as dificuldades dos alunos com as restrições impostas ao ensino, e achou que podia fazer a diferença com um cargo eletivo.

Para ela, um dos principais obstáculos da campanha quando se é iniciante e com pouca estrutura é a dificuldade de conciliar o trabalho com os compromissos políticos, o que não ocorre com os atuais mandatários. Para driblar as adversidades, Vanessa aposta em plenárias no Zoom e na disseminação de conteúdo pelo WhatsApp.

— No início da campanha, os candidatos tiveram um workshop com dicas de uso das redes. Foi importante, pois às vezes temos muitas ideias, mas não sabemos como fazer — conta a candidata, que viu seus seguidores aumentarem após ocupar a página de Mônica.

Mais concorrência

Em 2020, mais de 518 mil pessoas já registraram candidatura para as câmaras municipais, segundo dados do TSE. O número é superior aos 463.405 candidatos de 2016. Entre as explicações para o aumento está o fim das coligações para a disputa das vagas nos legislativos municipais.

Agora, o cálculo para decidir quem vai ocupar uma cadeira levará em conta somente os votos dos candidatos de cada partido e não a soma dos coligados. Isso faz com que as legendas lancem mais nomes, o que aumenta a competição.

Outra desvantagem é o pouco tempo no programa eleitoral. Enquanto os candidatos às prefeituras possuem blocos fixos de dez minutos, a propaganda dos vereadores é feita ao longo do dia. No espaço disponível, os partidos também buscam priorizar os puxadores de voto. O mesmo ocorre na distribuição dos fundos públicos de campanha.