Nove dicas de uma comissária de bordo para sobreviver ao caos aéreo nos Estados Unidos e na Europa

Há 20 anos, cheguei a um momento decisivo na minha vida; fiz ficha em todas as companhias aéreas e, meses depois, me tornei comissária de bordo oficialmente. Adorava o novo emprego, e com ele passei a viver uma rotina completamente nova e empolgante – mas não estava preparada para a alta temporada deste ano no Hemisfério Norte.

A pandemia mudou a aviação mais do que qualquer outro evento que testemunhei durante minha carreira. Se o 11 de Setembro alterou o embarque e a entrada nos aeroportos, a Covid-19 transformou completamente a experiência dentro do avião, gerando pressão e deixando todo mundo nervoso, levando a política para uma área em que não deveria se instalar.

No início, as companhias aéreas tentaram economizar ao máximo, permitindo aposentadorias precoces e dispensando parte dos funcionários; além disso, muita gente pediu demissão para ficar com a família. Só que agora estamos com falta de mão de obra. Assim que caiu a obrigatoriedade do uso de máscara (nos voos domésticos nos Estados Unidos), o número de passageiros aumentou mais depressa do que as empresas tinham condição de absorver. Atualmente, estamos sem gente suficiente e sobrecarregados – e não são estou falando só nos pilotos e comissários, mas nas equipes em terra. Você pode até não pensar nelas, mas sem esse pessoal não há como estacionar os aviões, movimentar as pontes telescópicas para embarque e desembarque, colocar e tirar as malas ou fazer o escaneamento dos cartões de embarque.

Um detalhe que poucos sabem é que a tripulação tem limite de tempo de trabalho, que geralmente varia entre períodos de 12 a 16 horas. Ou seja, não só não é seguro como ilegal voarmos além disso. Se os tripulantes do seu voo sofrem atrasos e chegam a tal marca, não interessa se você tem de ir a algum lugar; paramos quando temos de parar. Do jeito que a coisa está, não há muitas opções de cobertura, de modo que ele acaba sendo cancelado.

Tradicionalmente, o verão é sempre um período complicado para a aviação, mas o deste ano está muito pior: há milhares de cancelamentos e atrasos por semana, e não parece haver perspectiva de melhora tão cedo. Tenho visto um sem-fim de passageiros perdendo eventos importantes como casamentos, cruzeiros, conexões internacionais e até enterros. O choro é real por motivos mais que justos, e não há nada que eu, comissária, possa fazer para ajudar.

Viajar faz bem à alma; ajuda a revitalizar as energias e renovar o foco. Às vezes, você precisa sentir a areia sob os pés, sentir o aroma fresco das árvores ou mergulhar nos sons de uma cidade nova para voltar a se sentir vivo. Mas o segredo este ano é se antecipar. Elimine o máximo possível de estresse, planejando-se com antecedência e se preparando. Aqui vão meus melhores conselhos, baseados em duas décadas de trabalho a mais de nove mil metros de altitude.

1) Chegue cedo

Se estiver indo para um cruzeiro, saia de casa um dia antes. Conte esse tempo extra como parte das férias. Hospede-se em um hotel em uma cidade nova e saia para explorá-la. Jante em um lugar bacana, saboreie um bom vinho e divirta-se. Acorde sem pressa, tome café, coma panquecas e siga para o navio com tranquilidade. O gasto extra vale a paz de espírito, vai por mim. Outro dia trabalhei em um voo que estava atrasado; uma família de oito pessoas perdeu a conexão para Roma, a única naquele dia, e acabou perdendo também o cruzeiro em que embarcaria lá. (Comprar seguro de viagem também não é má ideia.)

2) Sempre opte pelo voo direto

Assim, se houver atrasos, você não precisa se preocupar em chegar a tempo de pegar o próximo voo. Se a conexão for inevitável, não opte pelo intervalo mais curto, porque certamente vai se estressar com a possibilidade de não chegar a tempo. A escala de uma hora hoje já não basta; meia hora, então, sem chance. Na maioria dos casos, três horas é um tempo seguro.

3) Voe sempre o mais cedo possível

Raramente, os primeiros voos do dia são cancelados. As tempestades vão se formando conforme o tempo vai esquentado, e as tripulações chegam ao prazo limite de trabalho mais à tarde, quando também aumenta o movimento nos aeroportos mais concorridos. Sim, isso pode significar botar o despertador para tocar às 3h, mas, se o voo matinal porventura foi cancelado, haverá mais opções de reembarque.

4) Baixe o aplicativo da companhia aérea com a qual você está voando

Ele contém informações valiosas e pode livrá-lo de aguardar em filas ridiculamente longas ou de tentar falar com alguém por telefone se algo der errado. Dá para rastrear a bagagem e a chegada do avião em que embarcará; dependendo do caso, você fica sabendo do cancelamento antes mesmo da tripulação. Além disso, ele pode ajudá-lo caso seja preciso remarcar o voo.

5) Pense duas vezes para comprar o bilhete mais barato

Os voos estão saindo lotados. Se você optar pela passagem mais barata, dificilmente poderá se sentar com a família; as companhias já avisam na hora da compra, aliás. E os comissários não estão ali para mudar o avião inteiro de lugar só para que fiquem juntos porque você tentou economizar em um site de vendas terceirizado. Outra coisa: se houver overbooking e ninguém se dispuser a ceder o lugar, os primeiros a ser barrados serão os membros da família que economizou uns trocos fazendo a compra em um site promocional.

6) Faça malas enxutas

Não seja "aquela criatura" que segura o embarque porque resolveu socar tudo em uma mala só até quase explodir e agora não sabe como fazê-la entrar no compartimento superior.

7) Leve agasalho

Vou contar aqui um segredo: às vezes, mantemos a temperatura da cabine mais baixa de propósito. Para quem fica mareado quando voa, o calor só piora a situação. Não queremos que ninguém tenha de usar aqueles saquinhos.

8) Não diga aos tripulantes que eles estão com aparência cansada

Estamos, sim, e sabemos disso. Você pode ser responsável por uma crise de choro ali mesmo na copa.

9) Seja paciente

Seja legal. O objetivo de todas as linhas aéreas é levá-lo ao seu destino. Veja o lado bom da coisa: pelo menos você não está trabalhando.

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