Nove lendas e curiosidades sobre o Cristo Redentor, que completa 90 anos

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RIO - Você sabia que a Princesa Isabel foi quem sonhou primeiro com um Jesus no alto do Corcovado? E que foi o cardeal Leme quem deu a ideia de que a estátua tivesse o formato de cruz? Nos 90 anos do Cristo Redentor, selecionamos nove histórias pitorescas que envolvem a estátua.

A primeira pessoa a imaginar uma imagem de Cristo no topo do Corcovado foi a Princesa Isabel. Após a assinatura da Lei Áurea, abolicionistas a procuraram com a proposta de eternizar em estátua a “redentora”, como fora apelidada por José do Patrocínio. A princesa, gentilmente, recusou a ideia. E mais: em 2 de agosto de 1888, o então ministro dos Negócios, José Fernandes da Costa Pereira Júnior, em nome de Sua Alteza, pediu à Comissão Organizadora do monumento que fosse modificada a homenagem para “uma estátua do Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro redentor dos homens, que se fará erguer no alto do morro do Corcovado”.

O documento foi encontrado pelo jornalista Rodrigo Alvarez, que acaba de lançar "Redentor" (Globo Livros), a primeira biografia da estátua no livro. Até então, as glórias por ser o primeiro a sonhar com Jesus no alto da montanha carioca eram do padre francês Pierre-Marie Bos. Em 1903, ele registrou o desejo num poema.

O projeto monumental do Cristo Redentor tem um autor: o engenheiro carioca Heitor da Silva Costa, que venceu, dentro da Comissão Organizadora, outros arquitetos famosos da época com o seu projeto de um Cristo com o globo terrestre numa das mãos. Na outra, Jesus seguraria uma cruz. A ideia era inspirada no Cristo dos Andes e logo ganhou o apelido na cidade de "Cristo da bola". O projeto precisou ser modificado, para que de longe tivesse o formato de cruz, e Heitor conta com o pintor Carlos Oswald para colocar seu Cristo no papel. Com os desenhos debaixo do braço, ele embarca para Paris em busca de um escultor.

O escolhido é Paul Landowski, um parisiense filho de polonês autor de obras importantes na França. É ele quem cria a escultura no estilo art déco, transformando a ideia em obra de arte. Ou seja, o Cristo tem mais de um pai, embora no alto do Corcovado existam apenas os bustos do cardeal dom Sebastião Leme, figura central para a execução do projeto, e de Heitor da Silva Costa. Para Rodrigo Alvarez, Landowski é um personagem injustiçado nessa história toda, e uma das hipóteses é o fato de ser um francês no meio de um projeto que nasce dentro do contexto nacionalista. E o parisiense nunca visitou sua obra mais icônica.

Com o "Cristo da bola" alvo de piadas, o cardeal dom Sebastião Leme, à frente da Comissão Organizadora e maior líder da Igreja no Brasil de então, pede que seja feita uma estátua "de alto conteúdo simbólico, que não seja apenas Cristo, mas que seja também vista de longe como se fosse uma cruz". É ele, portanto, que dá um ponto final à crise de como Jesus deveria ser representado. Vale lembrar que na inauguração do Cristo, foram do cardeal as palavras que ficaram para a história: "Cristo vence! Cristo reina! Cristo governa! E defende o Brasil contra todos os males!"

Por mais estranho que pareça, é com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, que a Igreja se aproxima do Estado. Com o fim da monarquia há a separação entre Estado e Igreja, que é deixada de lado durante a República Velha. O escitor Alexei Bueno, que conhece com profundidade a história do Rio, conta que mesmo no Império a relação com o poder era conturbada. Dom Pedro II, ao final, já não contava com apoio da Igreja.- Quando houve a Proclamação da República houve a separação completa.

A República era completamente positivista, influenciada por Auguste Comte, e muito anticlerical. Na verdade, na Revolução de 30, houve o contrário do que se poderia esperar: um movimento de aproximação, afirma Bueno.

— Quem convence Washington Luís a abandonar a presidência e se exilar foi Cardeal Leme, que depois virou amigo pessoal do Getúlio, que era de origem positivista e castilhista. Mas era de grande interesse essa união com a Igreja para a governabilidade. O período pós-Revolução de 30 foi o melhor para a Igreja. E os marcos dessa aproximação e de retomada de uma Igreja forte são a proclamação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e a inauguração do Cristo Redentor, ambos ocorridos no Rio de 1931 com a presença de Getúlio Vargas.

Em valores da época, o Cristo Redentor custou 2.076 contos de réis. O jornalista Rodrigo Alvarez, no livro "Redentor", diz que em valores atualizados a obra girou em torno de 6,5 milhões de dólares. Hoje, esse total equivaleria a quase R$ 36 milhões. Parece uma fortuna, mas a Estátua da Liberdade, de 1886, teve um custo de cerca de 60 milhões de dólares. Do tal gasto com o Cristo, 10% foram somente para o trabalho do escultor Paul Landowski e também do engenheiro francês Albert Caquot, responsável pelo cálculo estrutural. Já para a mão-de-obra, foram 30,6% do valor final, pago pelos católicos brasileiros que contribuíram com doações.

O livro "Redentor" desmente que o inventor italiano Guglielmo Marconi, considerado o pioneiro na transmissão via rádio, apertou, da Itália, o botão que iluminaria o Cristo na sua inauguração, via sinal telegráfico. A história vinha sendo repetida há 90 anos. Há quem diga que o sinal chegou, mas fraco. Roodrigo Alvarez rebate:

— Essa é uma mentira do Chatô (o jornalista Assis Chateaubriand). Tentaram fazer isso, mas o sinal nunca chegou. O engenheiro Gustavo Corção apertou o botão, da estação de Jacarepaguá, para iluminar o Cristo.

A história do Cristo Redentor está associada ao do Trem do Corcovado, que décadas antes da inauguração do monumento já era um meio de chegar ao topo do morro. No fim do século XIX, o espaço era um mirante disputado de onde se podia observar a cidade, conhecido como Chapéu do Sol. A estrutura, construída em 1885 (um ano após a inauguração da estrada de ferro), foi demolida para dar lugar ao monumento do Cristo. O projeto do trenzinho foi feito por etapas. Em 9 de outubro de 1884 foi aberto o trecho Cosme Velho-Paineiras.

E em 1º de julho de 1985 foi aberta a ligação entre Paineiras e a base do monumento. Com 3.824 metros, o Trem do Corcovado foi a primeira locomotiva elétrica do país. Durante as obras, foi usado para transportar materiais para erguer o monumento. A passagem tem preços que variam de R$ 27,00 (idosos) a R$ 88 (adultos na alta temporada). Moradores da cidade viajam ao preço promocional de R$ 54

No passado, o Corcovado foi conhecido como Pináculo da Tentação. O nome original estava distante do que poderia combinar com um Santuário. O nome foi inspirado numa passagem do Novo Testamento que fazia referência ao Pináculo (local mais alto) do Templo em Jerusalém. Nele, Jesus Cristo teria sido alvo de uma tentativa de sedução pelo diabo para que pecasse. O demônio tentou convencer Jesus que se ele se jogasse do pináculo seria segurado pelos anjos, por ser filho de Deus. Mas Jesus se recusou.

Entre as histórias que cercam a construção do Cristo Redentor está do mestre de obras e engenheiro auxiliar Heitor Levy. Durante a obra, ele quase despenhou do penhasco, mas foi salvo pelos colegas.

Judeu, Levy converteu-se ao catolicismo e escreveu os nomes da família num pergaminho que guardou no coração interno da estátua. ‘’Era um exemplo prático da 11ª Promessa do Sagrado Coração de Jesus: As pessoas que propagarem esta devoção terão o seu nome inscrito para sempre no meu coração’, informa um texto da Arquidiocese do Rio.

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