Nove subprefeituras da periferia de SP fazem coleta seletiva de menos de 1% do lixo domiciliar

EDUARDO SILVA E RENAN CAVALCANTE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi preciso sair da casa dos pais e mudar-se para um endereço duas ruas acima para a consultora de eventos Catharina de Brito, 31, descobrir que era possível fazer a coleta seletiva no bairro onde vive, na Casa Verde, na zona norte de São Paulo. "Descobri que existia coleta em algumas partes do bairro. Em 30 anos, nunca tinha tido a informação", conta Catharina. Nos nove meses em que morou com uma amiga, a consultora diz que todos os sábados os vizinhos colocavam o lixo separado para fora de casa antes de o caminhão da prefeitura passar. Hoje, morando novamente com os pais por conta da pandemia, ela diz que o lixo reciclável de casa é coletado por um catador que passa na rua e afirma que, se as pessoas tivessem mais informação, a porcentagem da coleta poderia ser maior na região. Por ali, das mais de 100 mil toneladas de lixo em 2020, apenas 0,92% foram coletadas. A região da Subprefeitura de Casa Verde/Cachoeirinha está entre as piores na lista de coleta de recicláveis de São Paulo que, em geral, recicla pouco -menos de 3% das 3,6 milhões de toneladas produzidas. Em periferias da capital paulista, nove subprefeituras coletaram seletivamente menos de 1% de todo o lixo domiciliar recolhido em 2020. É o que mostram dados da Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana), obtidos pela Agência Mural via LAI (Lei de Acesso à Informação) -segundo o órgão, os dados estão sendo fechados e podem sofrer alterações. As subprefeituras de Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, São Mateus e São Miguel Paulista, na zona leste, e Jaçanã/Tremembé, Perus, Vila Maria/Vila Guilherme e Freguesia/Brasilândia, na zona norte, apresentaram a menor proporção de coleta. Das 32 subprefeituras de São Paulo, apenas quatro tiveram proporção maior do que 5%: Lapa e Pinheiros, na zona oeste, e Santo Amaro e Vila Mariana, na sul. O melhor resultado é o da Vila Mariana, com 13,15%. Entre os fatores para a falta de coleta estão a dificuldade de caminhões circularem por algumas regiões e o desconhecimento dos moradores sobre o serviço, que costuma passar uma vez na semana. A geógrafa Adriana Fonseca Braga, doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, estudou sobre a reciclagem de resíduos sólidos e, em uma análise sobre o período de 2006 a 2016 na capital paulista, constatou situação parecida com a atual. Poucas subprefeituras registravam índice de coleta seletiva acima de 5%. E, como agora, apenas Pinheiros, Lapa, Santo Amaro e Vila Mariana haviam atingido esse valor. "A tarefa de separação dos resíduos não é vista como atividade importante nos lares e isso precisa mudar", comenta Adriana. "O lixo precisa deixar de ser visto como lixo e passar a ser visto como materiais ou produtos que podem ser reutilizados e reintroduzidos em cadeias produtivas como matérias-primas." Segundo ela, ações do poder público em parceria com comércios dos bairros, que poderiam virar postos de coleta, ajudariam a ampliar a reciclagem. "Se tivéssemos mais locais aptos a receber resíduos recicláveis com algum tipo de incentivo, a adesão da população, provavelmente, seria maior", diz a especialista. Foi graças a uma informação divulgada pela prefeitura que a empregada doméstica Luzia Moreira André, 60, começou a colocar o lixo reciclável para fora todas as quartas-feiras, quando o caminhão de coleta seletiva passa por Perus. "Avisaram na UBS aqui da Vila Caiuba. Eu já reciclava antes. Coloco tudo separado por sacola", conta. Para aqueles que não têm a possibilidade de descartar o lixo reciclável nos caminhões da prefeitura, a saída são os carroceiros ou empresas privadas de coleta. Morador da Vila Medeiros, que integra a subprefeitura de Vila Maria/Vila Guilherme, o autônomo Márcio de Carvalho, 46, começou a reciclar o lixo há cerca de dez anos, quando o condomínio onde vive passou a oferecer a opção com uma empresa particular. Mas, embora participe do movimento de reciclagem, ele diz que a região poderia coletar mais do que as 843 toneladas de lixo reciclável que recolhe hoje com mais de esforço da prefeitura. "Não adianta termos um programa no condomínio e o caminhão de reciclagem não passar aqui", comenta. MUITO POUCO O pior índice de coleta de recicláveis se encontra na Subprefeitura de Jaçanã/Tremembé. Das 95 mil toneladas de lixo domiciliar recolhidos, apenas 224 foram feitas de forma seletiva. Moradora da região, a professora aposentada Márcia Miliozi Camilo, 57, ajuda a compor esse número. Como o caminhão não passa em sua rua, ela entrega o lixo a catadores de uma cooperativa, mas aponta um outro problema. "Não adianta só a prefeitura ampliar a coleta, pois falta consciência dos moradores", diz. De acordo com dados da Amlurb, o serviço de coleta seletiva na cidade é feito por duas empresas que utilizam 555 veículos e atendem 76% das vias do município. Nas regiões norte, oeste e central, a responsabilidade fica por conta da Loga. Já a Ecourbis atua nas regiões sul e leste (as informações sobre cobertura do serviço das duas estão nos sites: Loga e Ecourbis). O programa de metas da Prefeitura de São Paulo para o biênio 2019-2020 previa que, até o fim do ano passado, a cobertura chegasse a 100% nos 96 distritos da cidade. Hoje, apenas 52 distritos são integralmente cobertos pelo serviço. De acordo com a gestão Bruno Covas (PSDB), "a maior parte do território não coberto hoje pelo serviço são locais de difícil acesso ou que não permitem a passagem de caminhão". Em contrapartida, a prefeitura afirma que, para que a coleta de resíduos recicláveis secos pudesse chegar às regiões não atendidas, "foi desenvolvida uma estratégia mista de caminhões, com modificação/acréscimo nas rotas para realizar a coleta porta a porta". Os resíduos coletados são encaminhados para as 25 cooperativas de reciclagem cadastradas e os materiais remanescentes são enviados para duas centrais de triagem: Carolina Maria de Jesus, no Bom Retiro, e Ponte Pequena, na Vila Sabará, zona sul da cidade.