Novela Mandetta vira entretenimento macabro em época de quarentena

O presidente Jair Bolsonaro e seu minsitro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Foto: Andre Coelho/Getty Images

Para quem gosta de novela ruim, o governo Bolsonaro decidiu disponibilizar em suas plataformas de transmissão simultânea um thriller de terror psicólogico para o assinante degustar, não exatamente digerir, durante a quarentena.

A novela chama-se “Mandetta”.

Ao sobrenome do ministro da Saúde soma-se um roteiro de idas e vindas, traições e suspenses, crocodilagens e construções baratas de maniqueísmo. É a fórmula-pronta para caçar a audiência entediada com as próprias vidas em risco.

Siga o Yahoo Notícias no Google News

No Natal de 1988, quando a Rede Globo exibiu o capítulo 193 da novela “Vale Tudo”, um país inteiro se reuniu em torno da TV para assistir ao assassinato de Odete Roitman, personagem de Beatriz Segall que todo mundo sabia que estava na mira naquele 24 de dezembro.

Leia também:

Trinta e um anos e alguns meses depois, a vida imitou a arte, e todos ficaram ansiosos para saber qual seria o fim de Luiz Henrique Mandetta, o mais novo algoz da novela mitomaníaco-bolsonarista -- um papel já interpretado por Fernando Hernrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Fernando Haddad, Luciano Bivar, Gustavo Bebianno, João Doria, Flávio Dino, Hamilton Mourão e grande elenco.

Manipuláveis, os espectadores seguiam as pistas deixadas pelo herói pícaro da trama que passou os últimos dias dizendo que não se bicava com seu ministro, que este andava estrela demais, perdera a noção de humildade e que sua hora estava próxima. Caçadores de spoiler cravaram: vai ter tiro.

Os sinais estavam subentendidos, entendidos e superentendidos até na limpeza da mesa do auxiliar. Na lógica invertida dos inquilinos de Brasília, era o esporro que precedia o silenciamento. Mas não foi desta vez.

Quem já sentiu na pele a temperatura da fritura corporativa, quando o gerente começa a dar sinais diretos e indiretos da decisão para todo mundo, menos ao envolvido, pode imaginar o bloqueio psicológico ao ver sua mesa sendo limpa enquanto o chefe entrevista outros candidatos à sua frente. A diferença é que, em vez de um relatório prometido para segunda-feira, o trabalho a ser interrompido é o gerenciamento de uma pandemia. Coisa pouca.

Quem observa a cena pela chave do messianismo começa a entender um pouco mais o que leva o herói pícaro a colocar a bomba-relógio no subordinado em sua hora mais escura. Sem condições técnicas de se destacar na multidão por um talento extraordinário, o mito precisa investir na ideia de que nada contra a corrente para mostrar que ele é o único caminho até a verdade. O cajado é um medicamento sem eficácia e efeitos colaterais devidamente mapeados. A pressa em trazer o anúncio para a cura atropela, nesta contra-corrente, o tempo da ciência que seu auxiliar parece se aninhar.

Para as mentes perturbadas dos que se creem infalíveis, meia contestação é crime inafiançável.

Ao fim do episódio, um anticlímax que deixou em aberto a explosão para os próximos capítulos, ficou claro para os roteiristas que a novela entrou naquela fase em que o personagem em tese secundário tem mais moral com o público do que o protagonista da trama. A ele ficaram os aplausos; ao outro, as panelas.

Ao longo do dia, milhares de espectadores, entre eles quem já nem acompanhava novela, lançaram nas redes hashtags com apelos pela sobrevida do ministro da Saúde. Os roteiristas ouviram, e deram ao perseguido não apenas o direito de acordar vivo no capítulo seguinte, como um teste para o status de personagem principal.

Os pícaros que tentavam afirmar a autoridade pelo medo saíram desmoralizados.

Tiveram de ouvir indiretas que, não fossem os internautas, sequer captariam a respeito do Mito da Caverna (spoiler: na história de Platão, prisioneiros de mãos amarradas podem avistar apenas sombras projetadas nas paredes que confundem distorções e realidades. É nesta caverna que o medo do espectador tenta ser manipulado pelo mito).

A ordem dos autores para o cosplay de imperador é uma paródia histórica: diga ao povo que ele fica.

A novela pode ser ruim, mas é preciso reconhecer: os roteiristas sabem como prender e manipular as atenções.

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook e Twitter e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.