Novo comando do IRB extingue bônus de R$ 61 milhões após escândalo, mas ações caem 10%

Rennan Setti, com agências

RIO e SÃO PAULO - O novo comando do IRB anunciou, nesta quinta-feira, o fim do bônus pago a executivos pela valorização das ações na Bolsa. No mercado, acredita-se que esse programa de incentivos tenha sido um dos principais motivadores para a crise de confiança que culminou na renúncia do presidente e de seu vice na noite de quarta-feira.

As ações da resseguradora continuam caindo na B3 mesmo após a troca de executivos, recuando quase 10%.

O chamado "programa de superação", aprovado pelo conselho e pela assembleia de acionistas da companhia em 2018, previa pagar mais R$ 61,9 milhões aos executivos se eles conseguissem fazer com que o valor de mercado da companhia dobrasse após três anos (e desde que o papel superasse também o Ibovespa, índice de referência da Bolsa). O programa previa pagamento anual de uma parcela do valor total.

Esse incentivo é considerado mais agressivo que o de outras companhias. Já no ano passado, os três diretores estatutários receberam remuneração total conjunta de R$ 46 milhões, sendo que R$ 24 milhões se referiram apenas ao "programa de superação".

Nesta quinta-feira, Pedro Guimarães, que comanda a Caixa Econômica Federal e o conselho do IRB, afirmou que os conselheiros decidiram abandonar esse bônus para os executivos que assumirão a presidência e a vice-presidência de finanças.

José Carlos Cardoso, presidente do IRB, e o Fernando Passos, seu vice, foram substituídos por Werner Süffert. Ele ficará no lugar de Passos permanentemente e será presidente interino até a escolha de um nome definitivo. Süffert era diretor financeiro da BB Seguridade.

'Problema sério'

Eles renunciaram na véspera depois que o grupo do megainvestidor Warren Buffett negou ser sócio da resseguradora. Em conversas com analistas na semana passada, os executivos haviam confirmado rumores publicados na imprensa de que a Berkshire Hathaway havia comprado ações, notícia que havia provocado um salto de quase 7% no pregão do dia anterior.

Em teleconferência sobre as mudanças no comando do IRB nesta quinta-feira, Guimarães admitiu que a questão envolvendo a Berkshire Hathaway é um "problema sério" e será investigada.

Poucas horas antes da renúncia dos dois, a negativa de Buffet já havia provocado uma queda de 32% nas ações no pregão de quarta-feira, levando a uma perda de R$ 8,3 bilhões em valor de mercado. O tombo se somou a uma sequência de reveses do IRB na Bolsa desde fevereiro, quando a gestora carioca Squadra fez uma aposta pública contra seus papéis, alegando que o lucro era menor que o divulgado. Nesse período, os executivos do IRB também foram flagrados em aparente contradição na ocasião da saída de Ivan Monteiro da presidência do seu Conselho de Administração.

A imprensa noticiou em 27 de fevereiro que ele havia pedido demissão, mas o IRB negou. No dia seguinte, confirmou a saída, afirmando que só então fora informada. O GLOBO apurou, porém, que Monteiro havia protocolado a demissão uma semana antes. Além disso, em teleconferência com analistas, os executivos da resseguradora sustentaram que Monteiro deixou o conselho porque "houve uma piora no quadro clinico dele (...) e ele optou por antecipar a renúncia e formalizar para o mercado", segundo descreveu o BTG Pactual em relatório.

Mas fontes próximas a Monteiro sustentam que ele não deixou o conselho por questões de saúde, e, sim, por divergências sobre a gestão da empresa. Em sua carta de renúncia, alegou questões de cunho pessoal, sem citar problemas de saúde.

Perda de R$ 26 bilhões

Nesta quinta-feira, mesmo após a renúncia do presidente, as ações do IRB caem 9,9% nesta quinta-feira. Desde o início de fevereiro, a desvalorização acumulada é de quase 62%, provocando uma perda de R$ 25,8 bilhões em valor de mercado para a companhia. O IRB vale agora R$ 16 bilhões na B3.

Süffert e Guimarães afirmaram não ver problemas com o balanço do IRB, mas não descartaram uma mudança nas projeções para 2020. Segundo Süffert, o balanço do IRB está “100% correto”, mas ponderou que a companhia pode melhorar a divulgação de alguns itens, com mais clareza nas informações.

De acordo com Guimarães, por sua vez, disse que as projeções de resultado da resseguradora estão mantidas “por ora”. Mas ele acrescentou que não podia garantir que não haverá mudanças, uma vez que os dados passarão por uma revisão do novo diretor financeiro. Süffert prometeu fazer essa revisão dos dados o quanto antes.