Novo curador artístico da Berlinale, Carlo Chatrian fala sobre seus projetos para o festival

Carlos Helí de Almeida e Especial para O GLOBO

BERLIM — Novo diretor artístico do Festival de Berlim, Carlo Chatrian volta e meia repete um desejo que, ao longo da conversa, ganha ares de missão: estreitar a relação do público com as salas de cinema. O jornalista italiano de 47 anos, que assumiu em junho a parte curatorial do novo modelo de gestão da mostra alemã — a área executiva ficou com a produtora dinamarquesa Mariette Rissenbeek —, tomou para si o desafio de ampliar o caráter popular da Berlinale (em 2019 foram 330 mil ingressos vendidos) e, ao mesmo tempo, preservar a relevância e a influência dos festivais na era do streaming.

Ao mesmo tempo, tem pela frente a organização da edição de aniversário dos 70 anos da Berlinale, um dos três maiores festivais de cinema do planeta, ao lado de Cannes e Veneza, que em 2020 acontece entre os dias 20 de fevereiro e 1º de março. A festa vai ser grande, promete o ex-diretor do Festival de Locarno. Ele fala em “edição de transição”.

— É uma atitude respeitosa em relação a um festival que tem uma longa trajetória, e que prefere evoluir a promover grandes revoluções — explicou Chatrian durante o Festival de Pingyao, semana passada, onde esteve no júri da competição de filmes chineses.

O streaming é uma ameaça à relevância dos festivais de cinema?

Não vejo como um problema, porque os festivais oferecem uma experiência diferente. Tenho viajado pelo mundo e percebi que participar de um evento como este aqui em Pingyao, por exemplo, até ganhou um maior valor nos dias de hoje. Até as plataformas digitais precisam de um evento para lançar seus produtos. O que gosto no cinema é que você está sozinho e em grupo ao mesmo tempo. A combinação desses dois elementos é maravilhosa, e é por causa dela que os festivais existem. A questão não são os festivais, mas a vida dos filmes em uma sala física.

Qual a principal ameaça às mostras, hoje?

Uma questão que me preocupa bastante são os recursos para esse tipo de evento. Alguns países estão se saindo melhor do que outros, mas a verdade é que os fundos para a cultura não estão aumentando. Não estou falando do caso da Berlinale em particular, mas da situação dos festivais de cinema em geral. Isso me preocupa mais do que a disputa de espectadores com o streaming.

Você chega à Berlinale com a bagagem de Locarno, um festival que, até a sua saída, não havia se aberto totalmente ao streaming. Exigirá adaptação?

Locarno não era contra esse tipo de filme. Nossa seleção era baseada em critérios de qualidade. Não estou tentando evitar a pergunta, mas o fato é que a cinefilia da minha geração começou com a televisão, não com a sala de cinema. De repente, estamos discutindo a experiência do streaming como sendo algo totalmente nova, o que não é. Vi “A mãe e a puta” (1973, de Jean Eustache), por exemplo, primeiro na TV e só depois fui revê-lo em um cinema, e assim aconteceu com diversos do títulos que me formaram. O objetivo do programador de festival é apoiar a experiência do cinema.

E a Berlinale, cuja programação é aberta ao público, tem sido um grande apoiador dessa experiência...

Queremos ampliar ainda mais essa relação. Não em termos de ampliação do número de filmes ou de salas do circuito do festival, mas no sentido de usar essa grande e maravilhosa plataforma para aproximar ainda mais o público da experiência teatral. Queremos trabalhar mais próximos aos exibidores porque, diferentemente de Cannes e Veneza, Berlim é um festival para o público. Ele é frequentado por um grande número de jornalistas e representantes do mercado, mas o coração do festival é feito do espectador. Esse foi um dos desafios que mais me atraíram quando aceitei essa função.

Como pretende estreitar essa relação com o público?

Nosso maior desafio é fazer com que a programação da Berlinale seja atraente tanto para os profissionais da área quanto para os espectadores. Temos que encontrar esse equilíbrio, porque o público de Berlim é variado, interessado e participativo. Berlim é uma cidade cosmopolita, com uma população de bom nível de instrução, e que tem uma vida cultura muito intensa e diversificada, pois recebeu muitos imigrantes nos últimos 20 anos.

O que podemos esperar de sua primeira edição como diretor artístico?

Será uma edição de transição. Fizemos algumas alterações no programa mas, por enquanto, vamos manter a estrutura atual para entender melhor as necessidades e limitações do festival. Estou, inclusive, aprendendo alemão, para poder me comunicar melhor com a cidade e entender as expectativas do setor. Ainda não dá para promover mudanças drásticas na estrutura da Berlinale, porque estamos falando de um circuito de mais de 30 endereços, que já é complicado de administrar. Mas nosso desejo é incluir ainda mais a cidade no projeto do festival.

Consegue entender as críticas à gestão de Dieter Kosslick, de que a Berlinale estava perdendo relevância para Cannes e Veneza?

Berlim não é Cannes, não é Veneza, é um festival diferente, que tem características específicas, até mesmo em seu papel dentro do mercado de cinema. Para mim é fácil trazer algo diferente porque meu background é distinto daquele do meu antecessor. Sou de outra geração e tenho um título diferente: não sou diretor geral. Meu trabalho é compor a melhor seleção possível, focar nos filmes, nos convidados, no que podemos trazer para Berlim considerando a estrutura que temos.

Mas há competição com outros festivais?

É algo que existe, mas é em termos da pressão que faço para ter os filmes quero na competição. Porque se você olhar o quadro inteiro, os festivais, juntos, apoiam e promovem o cinema independente. Sem o sistema de festivais, o cinema independente não existiria, pelo menos do modo como o conhecemos. Meu papel é tentar explicar ao dono do filme o que tenho a oferecer. Se ele prefere outro festival, acho justo, porque no final das contas, existimos para apoiar filmes, e não o contrário.

O primeiro grande desafio seu e de Mariette Rissenbeek foi de ordem logística: evitar a concorrência com o Oscar, que empurrou cerimônia para o dia 9 de fevereiro.

Não faria sentido manter nossas datas originais, de 6 a 16 de fevereiro. Já imaginou com os filmes da noite do dia 9 sofreriam? A Berlinale também é um grande mercado. A relação entre o festival e os americanos é historicamente muito forte. Fazê-lo durante o Oscar significaria que não teríamos quase nenhuma grande companhia americana em Berlim. Não fiquei feliz com a ideia com a mudança, mas é só por uma edição, em 2021 voltaremos ao calendário.

O que podemos esperar da edição comemorativa do jubileu?

Ainda estamos no processo de composição do programa. A ideia é promover atividades também algumas semanas antes do dia da abertura oficial, como uma espécie de aquecimento, em busca de um envolvimento maior da cidade nas celebrações. Contaremos com a colaboração de algumas instituições de Berlim para isso. O conceito da festa é devolver algo para a cidade. O jubileu é uma data importante, a Berlinale terá um programa especial para celebrá-lo, mas ainda é cedo para falar sobre ele.