Novo delegado-geral de SP é policial midiático que não gosta de redes sociais

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 11.10.2019 - O novo delegado-geral da policia de São Paulo, Osvaldo Gonçalves. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 11.10.2019 - O novo delegado-geral da policia de São Paulo, Osvaldo Gonçalves. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O então investigador Osvaldo Gonçalves estava na polícia havia apenas quatro dias quando, em meado de 1979, deu sua primeira entrevista. Fora convidado para falar de um crime que ajudara a solucionar. "Meu sonho sempre foi falar no Gil Gomes. E logo de cara, me chamaram para falar com o Gil Gomes."

Tomou gosto e nunca mais parou. Quarenta três anos depois, Gonçalves tornou-se um dos policiais mais famosos do país e, desde terça (26), essa fama cresceu após ser indicado como o novo delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo --o que também fez disparar o número de pedidos de entrevistas.

"Eu procuro dar uma resposta à sociedade do que a polícia faz de bom. Sou reconhecido na rua como policial que tenta ajudar e procuro ajudar mesmo, me interesso pelo que está acontecendo", disse à reportagem.

O número de entrevistas concedidas pelo policial aumentou quando se tornou delegado em 1992 e passou a integrar unidades de elite da Polícia Civil, como Garra e Goe. Também passou a ser reconhecido pelo apelido de criança: Nico. Ficou tão forte que foi à Justiça para incluir a alcunha ao próprio nome de batismo. Não teve problemas.

"Eu estava sentado lá, esperando para participar da audiência, quando passou um juiz conhecido e perguntou: 'Ô Nico, o que está fazendo aqui?'. 'Vim colocar meu nome de Nico'", conta, aos risos.

Apesar da fama, o policial é avesso às redes sociais. Não tem nenhuma. "Não gosto de fofocas, não tenho redes sociais. Se eu tivesse redes sociais, estaria bombando. Eu não quero nada disso. Não tenho redes sociais, não entro para ver a vida de ninguém. Se tivesse, estava bonito. Ganharia dinheiro", disse.

Não que dinheiro seja problema para o delegado-geral. A família é dona de uma rede de pizzarias que, conforme conta para os amigos, deu uma fortuna que garantiria o sustento até dos netos.

Na política, segundo diz, já recebeu inúmeros convites para ser candidato, mas nunca quis, embora tenha certeza de que seria eleito. Brinca que o deputado estadual Delegado Olim (PP-SP) se elege porque os eleitores o confundem com ele.

Newsletter FolhaJus Dia Receba no seu email a seleção diária das principais notícias jurídicas; aberta para não assinantes. *** "Muita gente me chama de Olim. Tem muita gente que chama ele de Nico também. Talvez pelo fato de ambos aparecermos muito, mas eu sou mais bonito [risos]. Fui convidado inúmeras vezes, mas eu gosto é de servir a polícia."

Diz o policial que o maior número de convites que recebeu foi em 2005, quando efetuou a prisão do zagueiro argentino Desábato após uma partida no Morumbi, em caso de racismo contra o jogador Grafite, do São Paulo.

De acordo com colegas, Nico tem uma boa relação com empresários, artistas, jogadores de futebol e médicos. "Conheço todo mundo", diz. Quando governadores ou secretários recebiam pedidos de autoridades em casos particulares, era o delegado que era mandado para atendê-los.

Experiente com as palavras, o novo delegado-geral diz que aproveita-se da oportunidade do contato com pessoas importantes, principalmente médicos, para ajudar os colegas.

"Eu tenho grandes amigos médicos. Eles sempre me chamam para um problema particular, sempre procuro ajudar, e fico com ele na minha gaveta. O dia que um policial precisa, eu ligo, eu procuro colocar o policial com um médico amigo, que já ajudei. Eu tenho uma caderneta só com médico que já ajudei. Se tem policial não tem condições de pagar pelo tratamento, vou atrás deles."

Nico também não esconde sua atenção a casos rumorosos, que envolvem pessoas famosas. Mais uma vez, tenta dar um ar positivo a essa característica, dizendo que há um objetivo maior: promover a polícia. "Se tem crime envolvendo gente famosa, a mídia vai bater dez dias. Se eu conseguir esclarecer, vão falar bem da polícia por dez dias. Não é que dou prioridade para famosos..."

Nos grupos de policiais civis e militares, a nomeação de Nico causou reações que variaram entre surpresa e perplexidade. Um dos motivos do estranhamento é o fato de ele não ter perfil administrativo e, assim, poderá ter dificuldades para gerir a parte burocrática da instituição. Nico admite deficiência, mas diz que será superada.

"Estou cercado de gente boa. Do doutor Júlio [Guebert], Elisabete [Sato]. Então, tem parte que tenho deficiência, mas vou me sentar na primeira carteira, porque sempre fui operacional. Essa era uma parte mesmo que eu não era atento, que vou ter que ficar, mas vou dar prioridade a combater quadrilhas de Pix e falsos entregadores, falsos fretes", afirma.

O novo delegado-geral afirma que conhecia o governador Rodrigo Garcia (PSDB) desde os tempos de deputado e já nutria certa admiração por terem uma ligação: o Santos.

Em um aceno ao antecessor, diz achar que o ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes deveria permanecer no cargo, embora entenda o desejo do tucano de colocar a marca dele.

"Até os 45 minutos do segundo tempo eu pedi para o Ruy ficar. Mas ele [governador] quer dar a cara dele. Ninguém que quis derrubá-lo."

Sobre as entrevistas que gosta de conceder, principalmente para o apresentador Datena, da Band, Nico disse que Garcia não faz qualquer objeção. "Continue falando errado, continuem falando com o Datena, continue sendo mesmo jeito", teria sido a orientação do governador, segundo o próprio delegado.

Dentro da polícia, há uma lenda de que Nico não usa armas. Brincam os colegas mais próximos que ele prende as pessoas apontando o dedo. Ele confirma a aversão de andar com armas em locais internos, mas garante que as usa nas operações e em deslocamentos com viaturas.

"Aqui dentro eu ando desarmado mesmo. E quando estou na viatura, uso debaixo da perna. Quando vou para operação, uso duas armas."

Por fim, Nico faz uma correção ao próprio currículo distribuído pela assessoria da delegacia-geral. Diz que, para ele, não começou na polícia em 1979.

"Eu comecei propriamente dito aos 12 anos, engraxando sapatos no 17º Distrito, do pai do doutor Aldo Galiano Jr., que me comprou uma lata de graxa e uma caixa. Eu ficava lá dentro da delegacia. Depois, eu lavava as viaturas para ganhar um trocado. Sempre fui apaixonado pela polícia. Nunca quis ser médico, advogado, nada. Sempre quis ser policial", disse.

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