Nova fala de Queiroga reforça que Bolsonaro é o ministro da Saúde

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Brazil's Health Minister Marcelo Queiroga speaks during a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil June 8, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Ministro Marcelo Queiroga durante depoimento à CPI da Pandemia. Foto: Adriano Machado/Reuters

Um antigo chefe dizia para tomar cuidado com os erros bobos, desses que fazemos no piloto automático e que qualquer pessoa poderia checar e contestar facilmente. Como datas e nomes.

O argumento era que se a gente se confundia com as informações que todo mundo conhecia (por exemplo, que Natal é dia 24 de dezembro), como fazer as pessoas confiarem naquilo que a gente escrevia e que elas não conheciam nem poderiam conferir?

Complexos, temas como imunização em massa e políticas de saúde pública dependem de um nível de atenção e conhecimento para além de qualquer suspeita. O risco é, num deslize, enviar para o Amapá doses de vacina que deveriam chegar ao Amazonas e vice-versa.

Marcelo Queiroga assumiu o Ministério da Saúde em março deste ano em um cenário de terra arrasada.

Em seu segundo depoimento à CPI da Pandemia, ele deu razão para desconfiança ao afirmar que o Campeonato Brasileiro de futebol acontece com mais de cem partidas, dentro de um ambiente controlado, sem público nos estádios, e com apenas um caso positivo registrado. O erro crasso não chama só a atenção de especialistas, mas das torcidas do Flamengo, do Corinthians e de outras 18 equipes só na Série A.

Se não foi ato falho, o ministro já aposta alto, como seu chefe, no chamado “vai que cola”. Não colou. Só o Grêmio teve recentemente 11 casos registrados nos últimos 15 dias.

O titular da Saúde provavelmente queria convencer os senadores de que a realização da Copa América no Brasil era segura. Conseguiu apenas transmitir insegurança.

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Futebol e covid são temas que dividem os mesmos cadernos desde a volta do futebol. No último Brasileirão, um estudo das universidades federais da Paraíba (UFPB) e do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou que quase metade (48%) dos jogadores da série A foi infectada pela covid-19. Ao todo, 302 entre 625 atletas testaram positivo.

Mas não é o (só) o preparo do ministro que está em análise na comissão.

Está também a autonomia que ele tem para realizar um trabalho isento, baseado na observação de dados científicos, e na obediência aos delírios ideológicos de quem o contratou.

Neste ponto, um dos momentos-chave deste segundo depoimento foi quando explicou por que desfez o convite à infectologista Luana Araújo para atuar como secretária de enfrentamento à covid. Contrária ao chamado “tratamento precoce”, Luana Araújo disse em sua fala à CPI que foi vetada pelo governo (leia-se Bolsonaro).

Diante dos senadores, Queiroga bateu no peito e disse que partiu dele a decisão de rifá-la da equipe após dez dias de trabalho. Isso porque sua presença “não seria importante” para a “harmonização” da equipe. Contrariou o próprio depoimento anterior, quando disse que ela não passara pelos crivos “técnicos” e “políticos”.

Como num filme repetido, o ministro teve de novo de defender a postura do presidente ao longo da pandemia. Sobre as práticas do chefe de promover aglomeração e andar sem máscara, ele se limitou a dizer que não é “censor”. Disse também que o ministro não tem papel de polícia.

Em outro momentos, o titular da Saúde admitiu que não contava com nenhum especialista em infectologia em sua equipe. A informação causou estranheza até mesmo entre os parlamentares governistas. Pra que especialista na área, em plena pandemia, se quem decide os rumos sanitários do país tem PhD em medicina das redes sociais, não é mesmo?

Novamente, ficou evidente apenas que quem é o ministro da Saúde de fato é Bolsonaro.

Para chegar a essa conclusão não era preciso nem de primeiro nem de segundo depoimento.

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