Novo depoimento envolve mais policiais em caso de tortura com prancha de cabelo

Rafael Soares
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Um ano depois de quatro moradores de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, procurarem a Corregedoria da PM para denunciar uma sessão de tortura dentro de um condomínio do programa federal Minha Casa Minha Vida, o número de policiais que são alvo da investigação dobrou. O depoimento de um cabo a promotores do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), em setembro deste ano, levou o inquérito a uma nova equipe do Batalhão de Choque, que também participou da operação no bairro Santa Tereza no dia 26 de outubro do ano passado. Durante a sessão de tortura, um dos jovens teve o pênis queimado pelos policiais com uma prancha para fazer chapinha no cabelo.

Na época em que a denúncia foi feita, somente uma equipe do batalhão — composta por oito policiais — estava na mira da investigação. Esses agentes foram identificados porque a mãe de uma das vítimas anotou o número de duas viaturas usadas pelos agentes e entregou aos investigadores. Fotografias dos policiais, então, foram mostradas às vítimas. Os quatro jovens — todos barbeiros, com idades de 18 a 30 anos, que trabalhavam num mesmo salão — reconheceram somente um dos agentes. No entanto, em depoimento, as vítimas relataram que mais de dez policiais haviam participado da tortura, dentro de um apartamento do conjunto habitacional. Segundo os relatos, alguns agentes usavam toucas ninja.

 

Dez meses após o  caso, a partir do depoimento do agente identificado, o MP abriu o leque da investigação. O cabo contou aos promotores que, no dia da operação, duas equipes do Batalhão de Choque estavam no local para combater o tráfico na Favela da Guacha, vizinha ao condomínio. Segundo o policial, as equipes foram recebidas a tiros antes de entrarem no conjunto habitacional e precisaram se proteger. O cabo, então, se separou de sua equipe e buscou abrigo junto a outros policiais, de outra equipe, com quem permaneceu até sair do condomínio.

O agente admitiu ter entrado em apartamentos para fazer buscas junto com esses agentes, que até então não haviam sido mencionados na investigação. Após o relato, os promotores já requisitaram à PM todos os nomes e patentes dos policiais que integraram a outra equipe. Eles serão ouvidos no MP e suas fotografias serão mostradas às vítimas.

O caso foi revelado pelo EXTRA quatro dias após a Corregedoria ser acionada. As vítimas procuraram a 3ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) horas depois da operação. De acordo com os depoimentos dos jovens, a sessão de tortura envolveu, além das queimaduras, tapas no rosto, chutes, choques elétricos, sufocamento com saco plástico e a introdução de um cabo de vassoura no ânus das vítimas.



PMs acharam foto com arma de paintball

Em seus depoimentos, as vítimas esclarecem como as agressões começaram. No celular do dono do apartamento, os PMs encontraram uma foto de dois dos jovens posando com armas de paintball. A imagem havia sido feita num dos maiores shoppings da Baixada. Um dos agentes perguntou para o dono da casa onde estavam as drogas. Ele disse que não havia nada no local. Nesse momento, a sessão de tortura começou. As agressões seguiram das 5h às 9h.

Exames realizados pelo Núcleo de Perícia da Corregedoria constataram lesões em três das quatro vítimas — incluindo a queimadura no pênis de um dos jovens. Durante a perícia, foi detectada uma lesão com sangramento no pescoço de um dos jovens. Em outra vítima, os peritos coletaram um pedaço de látex próximo ao ânus.