Novo estudo da Nasa revela que Amazônia está mais seca e mais vulnerável

Paulo Whitaker/Reuters

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Novo estudo da Nasa revela que aumento das queimadas na Amazônia, aliado à alta concentração de gases de efeito estufa, tem tornado atmosfera sobre a floresta tropical mais seca.

  • Estudo aponta ainda que a situação tem feito crescer a demanda por água, o que tem deixado os ecossistemas mais vulneráveis aos incêndios e à própria seca.

Um novo estudo feito pela agência espacial americana, a Nasa, revela que o aumento das queimadas na Amazônia, aliado à alta concentração de gases de efeito estufa, está tornando a atmosfera sobre a floresta tropical mais seca, fazendo crescer a demanda por água e deixando os ecossistemas mais vulneráveis aos incêndios e à própria seca. Prevista por cientistas para acontecer talvez em algumas décadas, situação do tipo já está ocorrendo.

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o trabalho da Nasa tomou por base dados coletados em solo e análise de imagens de satélite para determinar o chamado déficit de pressão de vapor (VPD). Dessa forma, os cientistas conseguiram rastrear a quantidade de umidade na atmosfera e quanto dela é necessário para manter os ciclos da floresta.

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Em comunicado à imprensa, Armineh Barkhordarian, pesquisadora do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, informou: “Nós observamos que nas últimas duas décadas houve um aumento significativo na secura na atmosfera, bem como na demanda atmosférica por água acima da floresta”.

“Ao comparar essa tendência com dados de modelos que estimam a variabilidade climática ao longo de milhares de anos, determinamos que a mudança na aridez atmosférica está muito além do que seria esperado com a variabilidade climática natural”, completou a autora principal do trabalho publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

A elevada concentração de gases de efeito estufa (responsáveis pelo aquecimento global) na atmosfera, no entendimento dos pesquisadores, responde por cerca de metade dessa aridez. A outra parte estaria ligada às queimadas para limpeza do terreno para pecuária e agricultura. A combinação de tudo isso estaria aquecendo a Amazônia.

O estudo da agência espacial apontou ainda que o processo mais significativo e sistemático de ressecamento da atmosfera acontece na região sudeste da Amazônia, por onde se espalha o chamado Arco do Desmatamento – justamente onde ocorre a maior parte do desmate e da expansão agrícola.

Além disso, foram observadas secagens episódicas no noroeste da Amazônia. A área, que normalmente não tem uma estação seca, experimentou secas severas nas últimas duas décadas. Para os autores, isso traz uma indicação adicional da vulnerabilidade de toda a floresta ao aumento de temperatura e ar seco.

 “É uma questão de oferta e demanda. Com o aumento da temperatura e a secagem do ar acima das árvores, elas precisam transpirar para se resfriar e adicionar mais vapor de água na atmosfera. Mas o solo não tem água extra para as árvores puxarem”, definiu Sassan Saatchi, também pesquisador do JPL e autor do trabalho. “Nosso estudo mostra que a demanda está aumentando, a oferta está diminuindo e, se isso continuar, a floresta poderá não ser mais capaz de se sustentar.”

As condições mais áridas tornam os incêndios mais prováveis, o que deixa a floresta ainda mais seca. Caso essa tendência prossiga a longo prazo e a floresta deixe de funcionar adequadamente, muitas outras árvores vão morrer. Quanto maiores e mais antigas, mais elas vão liberar CO2 na atmosfera ao morreram, ao mesmo tempo em que, com menos árvores, a floresta vai absorver menos CO2 da atmosfera, piorando o cenário de mudanças climáticas.

Ao Estadaão, o climatologista brasileiro Carlos Nobre, um dos primeiros pesquisadores a estimarem o risco de savanização da Amazônia a partir de um determinado nível de desmatamento da floresta, explicou que o trabalho da Nasa confirma o que vários estudos já vinham apontando.

“Uma grande faixa da Amazônia no sul e leste está ficando mais quente e mais seca, principalmente durante a estação seca, que já ficou entre 3 e 4 semanas mais longa naquela área de cerca de 2 milhões de km²”, disse, ele que é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Caso a estação seca se torne mais longa do que quatro meses (hoje ela dura, em média, três meses), por seus cálculos, a floresta se converterá em savana tropical – “que é o bioma de equilíbrio com uma longa estação seca e fogo”, diz. “De fato, nesta região, o ponto de não retorno está bem próximo. Eu estimo não mais do que 15 a 30 anos com o ritmo crescente de desmatamento somado à continuidade do aquecimento global, e também com a maior vulnerabilidade da floresta Amazônica ao fogo.