Novo ministro quer focar na vacinação para evitar desgastes, mas governadores insistem que coordene medidas de restrição

Paula Ferreira e Renata Mariz
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BRASÍLIA— Em meio à crise na Saúde, o novo ministro da pasta, Marcelo Queiroga, deve investir na ampliação e celeridade da vacinação — chance mais palpável de levantar novamente a popularidade do governo. Com posição firme e pública em defesa da imunização, o médico chega à pasta sem o desgaste proporcionado pelas negociações frustradas entre o Executivo e as farmacêuticas fornecedoras das vacinas. Outro tema sensível, no entanto, pode acabar minando seus planos: Queiroga já recebeu pedido de governadores para que coordene orientações de restrição a nível nacional. Os gestores estaduais solicitaram uma agenda para debater o tema com o ministro, que já sinalizou ser contrário à diretrizes de endurecimento do isolamento social em todo país.

Queiroga chega com a segurança de contar com 562 milhões de doses de vacinas já contratadas para 2021, segundo cronograma apresentado nesta segunda-feira por Eduardo Pazuello, numa espécie de balanço que fez já prestes a ter sua saída anunciada como titular do ministério. A missão será garantir as entregas, que não raro atrasam, e saber comunicar os esforços da pasta, avaliam interlocutores.

O primeiro evento público do qual o novo ministro participou indica que o tema estará na linha de frente de sua estratégia para a pasta. Queiroga recebeu, nesta quarta-feira no Rio, ao lado de Pazuello, as doses da vacina de Oxford produzidas pela Fiocruz. O evento é visto internamente como uma ocasião "simbólica" para tentar fortalecer a imagem da vacinação no país.

Outra frente que concentrará a atenção do novo ministro é a melhoria da rede hospitalar, diante da situação de esgotamento dos hospitais. Ontem, em seu primeiro pronunciamento após ser confirmado no cargo, Queiroga ressaltou a atenção que principalmente as unidades de terapia intensiva demandam com a atual "onda" da doença.

Fontes que acompanham a pasta acreditam que focando nos dois temas, abertura de UTIs e vacinação, o novo ministro tentará ficar à margem de polêmicas sobre temas caros ao presidente, como adoção de medidas de restrição de locomoção e uso da cloroquina. Nas poucas declarações que deu desde que foi confirmado ao cargo, Queiroga já demonstrou que não baterá de frente com Bolsonaro.

Sobre cloroquina, o ministro disse à CNN que o médico em autonomia para usar, embora ele tenha posição pública contra a prescrição do medicamento defendido por Bolsonaro. Numa referência a medidas de fechamento de comércios, Queiroga defendeu, ao falar com a imprensa, protocolos como uso de máscara e de álcool em gel para não "parar" a economia.

Em seu primeiro dia frequentando a pasta, porém, o ministro já foi demandado por governadores para resolver outras questões relacionadas ao tema, como alinhar os termos da negociação do Ministério da Saúde com os estados para pagamento das 37 milhões de doses da vacina Sputnik V, adquirida pelas unidades da federação junto ao Fundo Russo.

— Uma das urgências é a regulamentação da lei que facultou compra de vacinas por Estados e Municípios— relatou o governador do Piauí e representante do Fórum dos Governadores, Wellington Dias (PT), que citou as pautas prioritárias em conversa por telefone com o novo ministro na terça-feira.

Gestores também insistirão em uma coordenação central que inclua restrições a nível nacional. Segundo Dias, governadores esperam que o novo ministro se posicione favoravelmente em relação ao pedido de coordenação central que inclua restrições a nível nacional, além de promover a agenda óbvia da vacinação.

— É um passo importante (a vacinação). Mas o principal é a Coordenação Plena da Estratégia Nacional para Enfrentamento da Pandemia. Neste trabalho temos que juntos adotar e implementar medidas preventivas e restritivas para conter o coronavírus, a nível nacional. Assumindo a coordenação, vamos salvar mais vidas, com certeza, como aconteceu em vários países, e vamos controlar internações, tirando o colapso da rede hospitalar no Brasil inteiro — disse Dias, concluindo:

— Ainda aguardamos posição (do novo ministro quanto a isso), mas cheios de esperança que sim: (a imposição de medidas coordenadas nacionalmente) não é mais só um desejo, é uma necessidade do povo brasileiro para salvar vidas.

O deputado Efraim Filho (DEM-PB), que já conhecia Queiroga, também da Paraíba, afirma que a chegada do ministro, que é médico, reposiciona simbolicamente o Ministério da Saúde. Para ele, ao passar rapidamente por temas mais espinhosos para se concentrar na vacinação, o novo titular da pasta conseguirá desempenhar suas funções.

— Ele é um cardiologista, com respeito da categoria médica, da academia, consegue devolver essa referência científica ao ministério. A população espera ver a palavra de um especialista no ministro — diz o deputado.