Novo premiê quer formar um governo de tecnocratas no Líbano

Por Hachem OSSEIRAN
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Manifestantes libaneses em Trípoli

O novo primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, garantiu nesta sexta-feira (20) sua intenção de formar um governo de "tecnocratas independentes" para enfrentar a grave crise econômica, em meio ao descontentamento da comunidade sunita que denuncia sua designação.

Aos 60 anos, Hassan Diab, um acadêmico e ex-ministro da Educação pouco conhecido do público em geral, foi nomeado na quinta-feira após consultas parlamentares conduzidas pelo chefe de Estado, Michel Aoun, conforme a Constituição.

Sua nomeação ocorre mais de dois meses após o início, em 17 de outubro, de um movimento de protesto sem precedentes contra toda classe dominante, acusada de corrupção e incompetência.

Enquanto o subsecretário de Estado americano para Assuntos Políticos, David Hale, em uma visita ao Líbano, pediu reformas, Diab prometeu "formar um governo de tecnocratas independentes", como exigem os manifestantes.

Mas o apoio dado à sua designação pelo movimento xiita Hezbollah e seus aliados - incluindo o partido do presidente Michel Aoun - alimentou a raiva das ruas, especialmente entre os sunitas. Eles a veem como uma marginalização de sua comunidade.

Embora ele próprio seja sunita, Diab recebeu o apoio de apenas seis deputados sunitas, dos 69 que votaram em sua nomeação durante as consultas.

E o ex-primeiro-ministro Saad Hariri não deu forte apoio a seu sucessor, enquanto a Corrente do Futuro, o partido que ele preside, "não participará do próximo governo", disse à AFP uma fonte próxima.

- "Dignidade sunita" -

Pela segunda tarde consecutiva, ocorreram confrontos em um bairro de maioria sunita do oeste de Beirute, onde as forças de segurança enfrentaram manifestantes, a maioria jovens e seguidores de Hariri, que tratavam de bloquear ruas, constatou a AFP.

Os manifestantes gritaram palavras de ordem contra Diab e lançaram pedras e rojões contra os militares que tentaram reabrir o trânsito, enquanto a polícia de choque utilizava bombas de gás lacrimogêneo.

Em Trípoli, uma cidade predominantemente sunita, os manifestantes bloquearam as estradas convocando uma greve geral, segundo um correspondente da AFP.

Os manifestantes também cortaram outras rodovias em várias regiões do norte, incluindo Akkar, e no leste, incendiando pneus e alinhando lixeiras, segundo o Serviço Nacional de Informação (ANI).

Em Corniche al-Mazraa, um bairro predominantemente sunita e pró-Hariri em Beirute, manifestantes entoaram palavras de ordem contra Diab, antes de lançar pedras e fogos de artifício nos soldados, ferindo quatro militares, segundo o ANI.

A tensão aumentou quando os manifestantes levaram um caminhão carregado de areia e pedras para despejá-las no meio da estrada e bloqueá-la.

"Basta de desprezo à dignidade dos sunitas", gritou um manifestante ao microfone de um canal de televisão local.

Diante dos riscos, Hariri pediu calma a seus apoiadores. "Quem realmente gosta de mim vai sair das ruas", escreveu no Twitter.

Considerado o líder da comunidade sunita do país e até recentemente apontado para liderar o próximo governo, o ex-primeiro ministro jogou a toalha na quarta-feira após semanas de negociações políticas.

Diab, citado pelo Deutsche Welle, disse que espera "o total apoio dos europeus e dos Estados Unidos".

"Todo mundo está pronto para cooperar para que o Líbano possa desfrutar de um governo excepcional que não se assemelhe aos antigos governos, seja em número de tecnocratas, ou o de mulheres", declarou.

Há meses, o Líbano vive uma de suas piores crises socioeconômicas desde o final da guerra civil (1975-1990).

Alguns observadores temem que o apoio do Hezbollah pró-iraniano ponha em risco a ajuda dos países ocidentais, incluindo dos Estados Unidos, que descrevem o Hezbollah como uma "organização terrorista".

Em abril de 2018, a comunidade internacional prometeu US$ 11,6 bilhões em ajuda ao Líbano. Essa ajuda nunca foi liberada, porém, devido à falta de reformas prometidas por Beirute.

Nesta sexta-feira, David Hale, que se reuniu com Hariri e com o presidente do Parlamento, Nabih Berri, pediu às autoridades libanesas para "agirem no interesse nacional, avançarem nas reformas e formarem um governo comprometido com essas reformas".