Novo presidente da Capes defende criacionismo em 'contraponto à teoria da evolução'

PAULO SALDAÑA
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 05.06.2019 - Benedito Guimarães Aguiar Neto, reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, durante seminário para discutir o futuro da pós graduação no Brasil. (Foto: Reinaldo Canato/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O novo presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão ligado ao Ministério da Educação, defende a abordagem educacional do criacionismo em "contraponto à teoria da evolução". 

Evangélico, Benedito Guimarães Aguiar Neto era reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 2011 e foi nomeado nesta sexta-feira (24) para compor o governo Jair Bolsonaro.

No ano passado, Aguiar Neto anunciou que o Mackenzie, de São Paulo, ampliaria os estudos do chamado design inteligente - uma roupagem contemporânea do criacionismo, que advoga uma natureza teológica da origem do universo.  

Desde 2017 o Mackenzie tem um núcleo de estudos sobre isso. O termo design inteligente tem sido usado exatamente nas discussões que advogam a abordagem do tema na educação. Para seus defensores, a teoria darwinista seria insuficiente para explicar a origem da vida.

Há um consenso científico de que design inteligente ou criacionismo não são ciência. Em 2014, o governo do Reino Unido proibiu o ensino do criacionismo, ou design inteligente, como teoria científica em escolas e universidades públicas. 

Em outubro passado, o Mackenzie realizou um congresso sobre design inteligente. Na ocasião, Aguiar Neto disse ao site da universidade que quer disseminar esse entendimento na educação básica: "Queremos colocar um contraponto à teoria da evolução e disseminar que a ideia da existência de um design inteligente pode estar presente a partir da educação básica, de uma maneira que podemos, com argumentos científicos, discutir o criacionismo".

A Folha questionou o MEC e a Capes, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Aguiar Neto substitui Anderson Correia, que decidiu deixar o governo Bolsonaro.

Responsável pela pós-graduação no país, o órgão é ligado ao MEC (Ministério da Educação). A Capes também financia pesquisadores e, no passado, teve 8% das bolsas cortadas.

Sua nomeação, publicada nesta sexta-feira (24) no Diário Oficial da União, reforça a relação do MEC com o setor privado de ensino superior e também faz um aceno a lideranças evangélicas.

Com a saída de Anderson, o governo Bolsonaro consolida uma marca: todos os cargos importantes do MEC tiveram alterações em pouco mais de um ano de governo. Da equipe montada pelo ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez, o MEC só manteve o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, apadrinhado pelo escritor Olavo de Carvalho.

Aguiar Neto é graduado e mestre em engenharia elétrica pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), doutor na área pela Technische Universität Berlin, na Alemanha, e pós-doutorado pela Universidade de Washington, nos EUA. 

Ele também teve atuação em entidades representativas do setor privado de ensino superior. Foi presidente do CRUB (Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras) e da Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas.

O nome de Aguiar Neto já era dado como certo desde o fim do ano passado. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, havia recebido o professor no dia 11 de dezembro.

A troca no comando da Capes era esperada desde outubro de 2019. Na época, a Folha de S.Paulo revelou que Anderson Correia havia se candidato para o cargo de reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), cargo que ocupou antes de integrar o governo Jair Bolsonaro. 

A nomeação dele saiu em dezembro e Correia assume o cargo na segunda-feira (27). Superado um distanciamento inicial, Correia, que é evangélico, e Weintraub se aproximaram. Na Capes, porém, a imagem de Correia foi abalada pelos cortes de bolsas, o que culminou em protestos de servidores, e também por seu apoio aos planos de fusão do órgão com o CNPq.

A Folha de S.Paulo revelou no ano passado que uma decisão atípica da Capes liberou um doutorado na Unisa, de São Paulo. A instituição é controlada por Antônio Veronezi, empresário com estreita relação com Weintraub e com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Veronezi, da Unisa, diz que não tentou interferir no processo e que esteve na Capes, durante o período de análise, apenas para expor o novo bom momento da universidade -isso estaria sendo ignorado pelos avaliadores.

"Eu aproveitei que conhecia o Anderson [presidente da Capes], não tenho nenhuma outra relação com ele, disse para ele da dificuldade que estava havendo no curso de pós-graduação, que a reitora me disse que ia e voltava, ia e voltava. Falei: 'Olha, Anderson, vai, passa lá e vê a realidade da instituição'", disse o empresário.

Na Universidade Mackenzie, além de reitor, Benedito Aguiar Neto foi membro dos conselhos Deliberativo e Universitário. Ele também é membro Honorário da Força Aérea Brasileira, com as medalhas Amigos da Marinha e Exército Brasileiro.