Novo presidente da Embratur, Freixo diz não estar constrangido com elo de ministra com miliciano: 'Cabe a ela falar sobre'

O novo presidente da Embratur, Marcelo Freixo, minimizou as denúncias contra a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, a Daniela do Waguinho, que teria feito campanha ao lado de um miliciano, o ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, o Jura, condenado por homicídio. Atualmente deputado federal, Freixo produziu o relatório da CPI das Milícias quando era deputado estadual, em 2008, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). À época, a CPI propôs o indiciamento do ex-militar.

Em entrevista ao GLOBO, Freixo afirmou que cabe à parlamentar comentar sobre o assunto. O agora presidente da Embratur, agência que é vinculada à pasta do Turismo, disse ter a percepção de que o caso tem mais relação com a prefeitura de Belfort Roxo:

— Eu acho que cabe a ela falar sobre isso. Minha relação com ela é muito recente, mas muito boa e de muito diálogo. Não muda em nada e pelo que eu li da defesa, isso tinha mais a ver com a prefeitura (de Belford Roxo) do que com ela — justifica, negando que isso represente algum constrangimento na relação com a ministra.

Em 2008, Jura foi candidato a vereador de Nova Iguaçu pelo Partido Republicano Progressista (PRP). Durante a campanha, ele entregou santinhos ao lado da atual ministra numa passeata na Baixada Fluminense. Na época, Jura estava preso em regime semiaberto, mas conseguiu autorização da Justiça para sair da cadeia para trabalhar e ganhou o cargo de Diretor do Departamento de Ordem Urbana na Prefeitura de Belford Roxo, comandada pelo marido de Daniela, Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho. Daniela conseguiu ser eleita deputada federal. Com 9.335 votos, ele não conseguiu se eleger. De acordo com a investigação, o ex-PM usou a estrutura da milícia para fazer sua campanha.

Daniela, o marido e o miliciano também posaram juntos para fotos feitas em outros momentos, como uma festa infantil. Segundo as sentenças que condenaram o ex-sargento da PM entre 2010 e 2014, Prudêncio era chefe do Bonde do Jura, uma milícia acusada de uma série de homicídios na Baixada Fluminense.

Freixo presidiu a CPI das Milícias, que investigou a atuação de grupos paramilitares no estado do Rio. Concluído em 2008, o relatório final pediu o indiciamento de 225 pessoas, incluindo políticos, policiais, agentes penitenciários e bombeiros. Na ocasião, foram apresentadas 58 propostas para enfrentamento do crime organizado.

De acordo com o documento, o miliciano Jura — condenado a 22 anos de prisão por homicídio — chefiava um bando "formado por 70 pessoas, incluindo policiais militares” que atuava nos bairros Comendador Soares, Jardim Nova Era, Jardim Pernambuco, Palhada e Rosa dos Ventos, todos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Ainda segundo o documento, a milícia de Jura cobrava taxas de segurança R$ 20 a R$ 30 dos moradores, e de R$ 20 a R$ 40 de comerciantes. A quadrilha também tinha o monopólio da venda de gás, do sinal clandestino de TV a cabo e do "gatonet". Denúncias compiladas pela CPI apontavam que o ex-PM "estaria ameaçando os moradores a votarem nele dizendo que 'cabeças vão rolar' se ele não se eleger" e que homens armados de sua quadrilha obrigavam "moradores a colocar cartazes do candidato Jura nos postes, dizendo que os moradores têm que votar nele".

Jura está preso desde 2009, quando foi o principal alvo da Operação Descarrilamento, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que levou para trás das grades nove PMs acusados de integrar a milícia que ele chefiava.Prudêncio é condenado pelo homicídio de um desafeto da milícia. O crime aconteceu no dia 27 de maio de 2007. A vítima, Paulo Ricardo Soares da Silva, de 16 anos, foi executada a tiros dentro de um bar em Nova Iguaçu.

Em nota, a ministra afirmou que "apoio político não significa que ela compactue com qualquer apoiador que porventura tenha cometido algum ato ilícito".