Novo primeiro-ministro do Reino Unido terá que reconstruir imagem de Partido Conservador

AFP - JUSTIN TALLIS

O partido conservador britânico tenta virar de uma vez por todas a página Boris Johnson. A lista de postulantes ao cargo de primeiro-ministro, em dez dias será reduzida a apenas dois nomes. Certamente nenhum deles é carismático como o atual ocupante da cadeira. Não há claros favoritos, o que existe é a necessidade, para a própria sobrevivência da legenda, de se escolher um nome que possa liderá-la nas eleições gerais — previstas, em princípio, para março de 2024.

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Os conservadores terão de se reinventar e reconstruir sua credibilidade em meio a uma grave crise econômica decorrente da pandemia de Covid-19 e do Brexit. O país saberá o nome do sucessor de Johnson em algumas semanas, mas o escolhido só assume em setembro. O novo primeiro-ministro, ou primeira-ministra, deverá ser forte o suficiente para conduzir o processo de reconstrução da imagem do partido, abalada por sucessivos escândalos politicos.

De puxador de votos, o controverso Johnson tornou-se um peso para a legenda. Diz ter liquidado a fatura do Brexit, mas deixa uma conta enorme que o próximo chefe do governo terá que enfrentar. Ainda há muitas questões a serem resolvidas para que o divórcio da União Europeia seja de fato concluído.

As consequências do Brexit começam a ficar mais evidentes depois de três anos de pandemia. Só agora os danos deste longo processo passam a ser contabilizados na ponta do lápis. A economia saiu do mercado do bloco, um dos mais dinâmicos do mundo, tem falta de mão-de-obra e riscos à integridade do Reino Unido (com o fortalecimento de movimentos separatistas nas três nações que compõem o país junto com a Inglaterra: Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales).

Estagflação

O novo ou nova premiê terá a tarefa de reconstruir as pontes com a União Europeia. Soma-se a isso a crise econômica na qual o Reino Unido mergulha e que se tornou o grande calcanhar de Aquiles do partido conservador e talvez o maior desafio do próximo primeiro-ministro. A perspectiva é de um longo período de “estagflação”. A previsão é que a economia britânia tenha o pior desempenho em termos de crescimento entre os países do G8 (o grupo das oito nações mais ricas do mundo).

Tudo isso deve ir para a conta de Johnson, que acabou renunciando à liderança do partido da mesma maneira estridente que o conduziu desde dezembro de 2019, quando foi eleito. Seu processo de fritura foi intenso e arrastado. Manteve-se na corda bamba por meses. Sem um nome para substitui-lo, o próprio partido foi se afundando com ele.

Mas tirar Johnson de cena não resolve os problemas da legenda, muito menos os da economia. O contexto internacional é desfavorável com a guerra da Ucrânia, a alta dos preços dos combustíveis e a inflação, que registra seus índices mais altos dos últimos 40 anos.

Ainda é cedo para dizer se os conservadores terão como recuperar o apreço do eleitor até as eleições gerais de 2024. Se o pleito fosse hoje, perderia. Os próprios integrantes do partido sabem que a crise econômica está apenas no começo. Com preços em alta em setembro, as contas de energia que devem sofrer novo reajuste expressivo, salários espremidos e pouco espaço para malabarismos fiscais, é dada como certa a insatisfação cada vez maior do eleitorado.

Favoritos

Tudo isso aponta para a necessidade de os conversadores buscarem um nome de reconhecida competência, já que o quesito carisma não será preenchido da mesma maneira. Neste contexto, há quem diga que o ex-secretário das Finanças, Rishi Sunak, que conduziu as medidas econômicas e pacotes de ajuda financeira à população e empresas durante a pandemia seja um candidato forte. O apoio ao nome da vice-ministra de Comércio, Penny Mordaunt, ex-secretária de Defesa, também tem crescido.

Até o momento, existe uma dezena de postulantes. Eles passarão por uma rodada de eliminação para ver quem tem apoio da bancada até que se chegue aos dois nomes que serão submetidos aos cerca de 100 mil filiados do partido.

Enquanto seu sucessor não é escolhido, Johnson se mantém como o “care taker”, ou o guardião do cargo. No entanto, diante das inimizades que criou e da quantidade de funcionários de primeiro e segundo escalão que se demitiram para pressionar por sua renúncia à liderança do partido, é possível que não haja clima para que siga no cargo pelos próximos meses.

Na semana passada, durante dois dias não houve viabilidade para que o governo continuasse funcionando normalmente após 30 integrantes da equipe de Johnson entregarem os cargos.

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