Novo protocolo da cloroquina contraria nota técnica da Anvisa; agência diz que estudos não são conclusivos

Leandro Prazeres
Ministério da Saúde liberou prescrição de cloroquina para todos os estágios de Covid-19.

BRASÍLIA - O protocolo do Ministério da Saúde que ampliou o uso de medicamentos à base de cloroquina para pacientes com sintomas leves da Covid-19 divulgado nesta quarta-feira contraria uma nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que dizia ser necessária a realização de estudos sobre a "segurança e a eficácia" do medicamento. Procurada, a Anvisa disse que os estudos clínicos sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19 ainda não são "conclusivos"

O protocolo divulgado nesta quarta-feira ampliou a orientação do governo federal sobre o uso da cloroquina em pacientes com Covid-19. Até então, a recomendação era para que tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina só fosse utilizadas em pacientes graves ou críticos. Agora, a recomendação é para que pacientes que apresentam sintomas leves da doença já possam receber doses dos medicamentos.

A edição do protocolo, no entanto, vai na contramão da nota técnica divulgada pela Anvisa no dia 20 de março deste ano.

Na ocasião, o órgão reconheceu que o medicamento já era usado no Brasil para doenças como malária e lúpus e que alguns estudos iniciais indicavam eventuais resultados positivos no uso da droga em pacientes com a Covid-19. A nota disse que a Anvisa havia feito uma revisão sistemática sobre a literatura científica em relação à droga, mas, ao final, ressaltava que a indicação da cloroquina ou da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 só poderia vir depois da realização de estudos mais aprofundados sobre o assunto."A conclusão dessa revisão foi que dados de segurança e dados de ensaios clínicos de maior qualidade são urgentemente necessários. A Anvisa reforça que, para a inclusão de indicações terapêuticas novas em medicamentos, é necessário conduzir estudos clíncos em uma amostra representativa de seres humanos, demonstrando a segurança e a eficácia para o uso pretendido", diz a nota.

A reportagem procurou a Anvisa para saber se, após alguma outra nota técnica em relação à inclusão de outros usos terapêuticos para a cloroquina havia sido publicada desde março. A agência disse que nenhuma outra nota sobre o assunto havia sido editada desde então.Em nota, a Anvisa disse ainda que os estudos sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19 não são conclusivos e que, por isso, tem acompanhado pesquisas sobre o tema."Uma vez que os estudos disponíveis acerca da eficácia e segurança desses medicamentos no tratamento da Covid-19 ainda não são conclusivos, a Agência tem trabalhado, em conjunto com os principais pesquisadores do país, para discutir, anuir e acompanhar os próximos estudos que trarão mais resultados sobre o uso adequado e seguro dessas e de outras possíveis terapias para o tratamento da Covid-19", diz a nota.

Durante a entrevista coletiva, os técnicos do Ministério da Saúde negaram que a ampliação do uso da cloroquina estaria contrariando evidências científicas.

- Nós não estmaos nos afastando da ciência. Estamos nos aproximando da necessidade de garantir a vida em tempos de guerra -afirmou a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro.

A reportagem enviou questionamentos ao Ministério da Saúde sobre o fato de o protocolo contrariar a nota técnica da Anvisa. Em nota, o ministério ignorou as perguntas feitas sobre a nota da agência e defendeu o novo protocolo.

"Cabe destacar que as medicações são utilizadas em diversos protocolos e possuem atividade in vitro demonstrada contra o coronavírus, apesar da necessidade de se avançar em meta-análises de ensaios clínicos que comprovem o benefício inequívoco. A segurança destes fármacos já foi analisada e validada pela Anvisa, uma vez que são usadas para tratar outras doenças", disse.