Novos cardeais reafirmam legado de reformas sob rumores de renúncia do papa

*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-07-2013, 11h30: O papa Francisco no caminho para o Palacio na Gloria, onde fala aos fieis na oracao do Angelus Domini, feita do balcao central do Palacio Sao Joaquim, na Gloria, Rio de Janeiro, na manha desta sexta-feira. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-07-2013, 11h30: O papa Francisco no caminho para o Palacio na Gloria, onde fala aos fieis na oracao do Angelus Domini, feita do balcao central do Palacio Sao Joaquim, na Gloria, Rio de Janeiro, na manha desta sexta-feira. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - O consistório que, neste sábado (27), oficializa a posse de 20 novos cardeais era para ser um evento corriqueiro do Vaticano ou, como o próprio nome diz, ordinário. Tem sido realizado mais ou menos anualmente com o objetivo principal de preencher vagas livres, quase sempre deixadas por quem morre.

Mas a oitava edição coordenada pelo papa Francisco está longe de ser banal. A cerimônia e os eventos que a sucedem até terça-feira (30), estão envoltos em ineditismos, pontos de interrogação e burburinhos.

Os ritos tradicionais acontecem durante a tarde (11h em Brasília) na Basílica de São Pedro, onde o papa fará a entrega do chapéu vermelho aos novatos do colégio cardinalício, que passa a ter 226 integrantes. Desse total, 132 são chamados também de eleitores, ou seja, têm direito a voto no conclave para a escolha do próximo papa.

Dos 20 novos cardeais, 16 têm menos de 80 anos e, por isso, podem ser eleitores. Desses, cinco --a maioria-- vem da Ásia, além de três sul-americanos, dos quais dois brasileiros, e dois africanos.

A internacionalização do colégio cardinalício -cada vez menos eurocêntrico, ainda que o continente continue a concentrar 41% dos eleitores- é ilustrada pela inauguração do título em países como Timor Leste, Singapura e Paraguai, que passam a ser representados pela primeira vez.

"Com Francisco, há uma mudança de paradigma. Ele quer pôr fim à imagem de que algumas sedes são cardinalícias pelo fato de serem importantes do ponto de vista econômico ou político", afirma o padre Adelson Araújo dos Santos, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. "Os novos cardeais confirmam toda a linha do seu pontificado, de abertura da Igreja para horizontes mais distantes."

O mesmo pode ser dito sobre a escolha de dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, considerado o primeiro "cardeal da Amazônia", como vem sendo chamado. Ex-secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sua nomeação é considerada uma continuidade da atenção que o papa tem dedicado aos temas ecológicos.

"Ele representa muito bem aquilo que o Sínodo da Amazônia [2019] quis refletir, tanto do ponto de vista da evangelização, quanto da defesa do ecossistema e das populações mais vulneráveis por consequência de políticas predatórias", diz o padre Adelson, nascido em Manaus e jesuíta como Francisco.

O outro brasileiro que chega para o colégio cardinalício é dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília desde 2020, mesmo ano em que passou a integrar, no Vaticano, a Pontifícia Comissão para a América Latina, cargo que o aproximou do papa. No total, o Brasil passa a ter oito cardeais, sendo seis eleitores.

Além de considerar a origem geográfica, o papa argentino tem preferido indicar religiosos para o cardinalato não como uma espécie de passo natural da carreira eclesiástica, mas como forma de prestigiar e ampliar a atuação pastoral, de proximidade com os fiéis.

Além de alterar o perfil da Cúria Romana, as nomeações de Francisco, desde 2014, somam uma maioria suficiente que induz a pensar que o resultado do próximo conclave possa refletir a sua linha de atuação, prolongando os efeitos do seu papado. Dos 132 eleitores, 83 foram escolhidos pelo atual pontífice.

É justamente a iminência desse conclave, sobre o qual Francisco tem falado abertamente, que alimenta rumores em torno dos eventos dos próximos dias. Depois da cerimônia de posse, o argentino viaja à cidade italiana de Áquila. Lá, visitará o túmulo do papa Celestino 5º, o primeiro a renunciar espontaneamente, em 1294, depois de menos de quatro meses de pontificado. De volta ao Vaticano, o líder católico vai acompanhar uma assembleia a portas fechadas com todos os cardeais, convocados de forma extraordinária.

Oficialmente, o motivo é para que os cardeais reflitam sobre a nova constituição da Santa Sé, o que é visto com estranheza por parte dos analistas do Vaticano. "Essa convocação foi uma surpresa. Pode ser que o papa queira mesmo tornar mais conhecido o documento que organiza a vida cotidiana da Santa Sé, mas fazer isso depois de seis meses e fechados, sem a participação de outros religiosos...", analisa, com suspeitas, a vaticanista espanhola Ángeles Conde.

Há quem diga que uma das suas intenções é promover o encontro de todos os cardeais eleitores, muitos dos quais nunca estiveram juntos. "Em vista de um futuro conclave, os cardeais que vão escolher o papa precisam se conhecer e entender quem são os melhores candidatos, até porque o próximo será um deles", afirma Agostino Giovagnoli, professor da Universidade Católica do Sacro Cuore, em Milão. "É um encontro fora do comum. Tem muita curiosidade porque não estão claros nem o programa nem a intenção do papa."

Há também quem cogite a apresentação de um pedido de renúncia, cenário que passou a rondar o Vaticano devido ao estado de saúde de Francisco, com problemas no joelho que o fizeram circular em cadeira de rodas recentemente.

No fim de julho, ao retornar do Canadá, o argentino, em conversa com jornalistas, afirmou que a denúncia é "uma escolha normal", mas que ainda não faz parte de seus planos. "A porta está aberta! Mas ainda não bati nessa porta. Porém não significa que eu não possa começar a pensar nisso depois de amanhã", afirmou o líder católico, em tom enigmático.

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COMPOSIÇÃO DO COLÉGIO DE CARDEAIS

Papa - Eleitores - Não eleitores - Total

João Paulo 2º (1978 - 2005) - 11 - 39 - 50

Bento 16 (2005 - 2013) - 38 - 26 - 64

Francisco (desde 2013) - 83 - 29 - 112

Total - 132 - 94 - 226

QUEM SÃO OS CARDEAIS BRASILEIROS*

1. Dom Geraldo Majella Agnelo, 88

Arcebispo emérito de Salvador // Nomeado em 2001// Não eleitor

2. Dom Odilo Scherer, 72

Arcebispo de São Paulo // Nomeado em 2007 // Eleitor

3. Dom Raymundo Damasceno Assis, 85

Arcebispo emérito de Aparecida // Nomeado em 2010 // Não eleitor

4. Dom João Braz de Aviz, 75

Prefeito da Vida Consagrada // Nomeado em 2012 // Eleitor

5. Dom Orani João Tempesta, 72

Arcebispo do Rio de Janeiro // Nomeado em 2014 // Eleitor

6. Dom Sérgio da Rocha, 62

Arcebispo de Salvador // Nomeado em 2016 // Eleitor

7. Dom Leonardo Steiner, 71

Arcebispo de Manaus // Nomeado em 2022 // Eleitor

8. Dom Paulo Cezar Costa, 55

Arcebispo de Brasília // Nomeado em 2022 // Eleitor

*inclui os nomeados em 27 de agosto

Fonte: Vaticano