Novos relatórios sobre biodiversidade embasarão marco global de proteção da natureza

© Laetitia Bezain / RFI

Os dois mais recentes relatórios produzidos pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Ipbes), revelados em 8 e 11 de julho, estimulam reflexões sobre o valor que o homem dá à natureza, da qual depende para sobreviver. Os documentos, resultado na análise de mais de 13 mil estudos internacionais, servirão de base para um novo marco global para a proteção da biodiversidade do planeta, na conferência da ONU sobre o tema, no fim do ano.

Assim como os relatórios do IPCC são os pilares científicos das negociações sobre o clima e levaram ao Acordo de Paris para controlar o aquecimento global, as conclusões do Ipbes são “a Bíblia” dos especialistas em biodiversidade. No documento anterior, em 2019, os cientistas alertaram sobre o declínio do número de espécies vivas “a um ritmo sem precedentes na história da humanidade”. Dos oito milhões de espécies animais e vegetais que, estima-se, vivem sobre a Terra, um milhão podem simplesmente desaparecer.

“Tudo isso decorre das atividades humanas. Toda a capacidade da natureza de permitir a nossa existência na Terra está sendo ameaçada”, adverte a francesa Anne Laringauderie, secretária-executiva do órgão, em entrevista exclusiva à RFI.

Qual o valor da natureza?

Nestes dois novos relatórios, os cientistas esclarecem sobre todos os valores da natureza, além dos mercantis. Não são apenas os indicadores econômicos que devem prevalecer – por exemplo, o valor de rio vai além de quantas toneladas de peixes ele proporciona.

Os especialistas observam que as espécies são levadas ao esgotamento num mundo que busca o incessante crescimento econômico, sem considerar outros aspectos menos lucrativos como qualidade de vida e a preservação do patrimônio natural do planeta. A maneira como a humanidade persegue o aumento do PIB, ano após ano, está no foco da crise da biodiversidade, alertou o coautor do texto final Unai Pascual, economista da ecologia.

“Como o relatório deixa muito claro, o crescimento econômico é um dos imperativos e uma das principais razões das decisões-chave que estão levando a um impacto tremendo na natureza e nas pessoas”, disse Pascual, na coletiva de imprensa esta semana. “Mas também é um fato que, nestes dias, 139 países endossaram as informações e as evidências que esse relatório traz. Isso significa que precisamos saber de que maneira o crescimento deve acontecer, quando ele precisa acontecer, e onde.”

Os especialistas do Ipbes propõem uma série de pistas para o uso mais sustentável dos recursos naturais, incluindo a flora e a fauna selvagens – 50 mil espécies são utilizadas cotidianamente para a alimentação humana, ressalta o documento.

“Podemos melhorarmos a gestão dos rios, por exemplo, adotando um sistema de cogestão dos recursos de água, e estimular a justiça e a equidade entre os diferentes utilizadores dessa água”, frisa Anne Laringauderie. “Essa é uma das grandes conclusões do relatório: que é uma questão de justiça social, de compartilhamento dos recursos, e que devemos desenvolver soluções muito mais de longo prazo do que imediatas, em que ignoramos o conjunto de atores envolvidos. Isso não serve para resolver os conflitos que temos e ainda não será positivo para a própria biodiversidade”, comenta.

Marco global

A secretária-executiva do Ipbes observa que a tomada de consciência da perda da biodiversidade está crescendo, na esteira da crise da Covid-19 e na medida em que as mudanças do clima se mostram inexoráveis. A expectativa cresce em torno da COP15 da biodiversidade, a cúpula internacional da ONU sobre o assunto, que poderá resultar num inédito marco global para a reversão da perda de espécies.

O evento estava previsto para acontecer em 2020, na China, mas foi adiado diversas vezes por conta da pandemia. A reunião acabou transferida para Montreal, no Canadá, e deve ocorrer no início de dezembro.

“Nó esperamos que esse marco mundial seja baseado na ciência, nas conclusões do Ipbes, com objetivos concretos, em números, e prevendo medidas bem claras, com os meios financeiros para atingi-las, em especial nos países em desenvolvimento. Vamos realmente precisar de avanços consistentes, para aumentarmos o nível de ambição de um grande enquadramento que teremos neste pós-2020”, explica.

Se concluído com sucesso, este acordo deverá estabelecer objetivos que os países deverão perseguir até 2050 para combater a perda de biodiversidade.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos