Número de mortes por Covid no Brasil 'ultrapassou o limite do bom senso', diz Mourão

João de Mari
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BRASILIA, BRAZIL - NOVEMBER 19: Brazilian Vice President Hamilton Mourão, looks after Commemorates Brazilian Flag Day amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on November 19, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.945,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 167,455 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Mourão comentou o número de mortos no Brasil ao tratar da criação de um comitê junto ao Congresso, anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), nesta quarta-feira (24), para definir medidas contra a Covid-19 (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)
  • Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil, disse que número de mortes por Covid "ultrapassou o limite do bom senso"

  • Vice disse ser contra 'lockdown' nacional, mas afirmou apoiar decisões individuais de prefeitos e governadores

  • O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criou comitê 'anti-Covid', porém, entrou no STF para derrubar restrições em 3 estados

O vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta quinta-feira (25), em entrevista no Palácio do Planalto, que o número de mortes por Covid-19 no Brasil “ultrapassou o limite do bom senso".

“Agora vamos enfrentar o que está aí e tentar de todas as formas diminuir a quantidade de gente contaminada e, obviamente, o número de óbitos que, pô, já ultrapassou o limite do bom senso", disse Mourão.

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Mourão comentou o número de mortos no Brasil ao tratar da criação de um comitê junto ao Congresso, anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), nesta quarta-feira (24), para definir medidas contra a Covid-19.

A declaração do vice-presidente acontece um dia depois de o Brasil passar da marca de 300 mil óbitos, com média móvel acima de 2 mil mortos por dia. 

Para se ter ideia, só 95 cidades brasileiras têm mais habitantes do que o número de mortes pela Covid-19 no país. É como se morresse toda a população toda de Mossoró, no Grio Grande do Norte, ou de Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo.

O país ainda enfrenta falta de leitos de UTI e de medicamentos para intubação. Além da lentidão na vacinação, que, segundo especialista, é a única forma de se imunizar contra o vírus. Até a noite desta quarta-feira (24), apenas 6,32% da população recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19.

Nesta quinta, Mourão também citou o trabalho do Ministério da Saúde, agora comandado pelo médico Marcelo Queiroga, para habilitar leitos de UTI, comprar insumos e aumentar o ritmo da vacinação, esforços para tentar controlar a pandemia.

Contra 'lockdown' nacional, mas apoio aos prefeitos e governadores

Além disso, Mourão se manifestou contra medidas para restringir a circulação de pessoas e tentar reduzir o ritmo de infecções, internações e mortes por Covid-19. 

Para ele, seria difícil fazer cumprir uma restrição generalizada porque o país tem desigualdades regionais. No entanto, o vice defendeu que governadores e prefeitos adotem esse tipo de medida individualmente.

BRASILIA, BRAZIL - OCTOBER 28: Jair Bolsonaro, President of Brazil, talks with Brazilian Vice President Hamilton Mourão during Civil Servant Day Ceremony amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on October 28, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.439,000 confirmed positive cases of Coronavirus and more than 157,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Para ele, seria difícil fazer cumprir uma restrição generalizada porque o país tem desigualdades regionais. No entanto, o vice defendeu que governadores e prefeitos adotem esse tipo de medida individualmente (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

"Não vejo condições de 'lockdown' nacional, que é algo que está sendo discutido. Um país desigual como o nosso, isso é impossível de ser implementado. Vai ficar só no papel. Eu julgo que essas medidas restritivas têm que ficar a cargo dos governadores e prefeitos, porque cada um sabe como que está a situação na sua área", declarou Mourão.

Bolsonaro vai ao STF para derrubar 'lockdown' em 3 estados

A fala de Mourão destoa do comportamento do presidente Bolsonaro. Na semana passada, mesmo com a saúde de todo o país em colapso por causa da escalada da Covid-19, o presidente acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) na tentativa de derrubar as medidas contra o vírus adotadas no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul e na Bahia.

Com a elevação nos números de casos e mortes pelo coronavírus e com os leitos de UTIs se esgotando, esses três estados anunciaram nos últimos dias maiores restrições de serviços e circulação de pessoas, indo de encontro à postura adotada por Bolsonaro, que já manifestou-se contra o lockdown em diversas oportunidades.

Bolsonaro ainda comparou as medidas de restrição a um possível estado de sítio. Após a declaração, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, procurou Bolsonaro pedindo explicações.

Na terça, porém, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, rejeitou o pedido do presidente Bolsonaro para derrubar os decretos dos governos dos três estados, que instituíram medidas de isolamento social para conter a pandemia de Covid-19.

Governo federal cria comitê 'anti-Covid'

Pressionado pelo agravamento da pandemia, Bolsonaro anunciou nesta quarta-feira (24) a criação de um comitê de crise, delineando uma mudança de rumo diante de uma tragédia que muitas vezes buscou minimizar.

“Resolvemos que será criado uma coordenação junto com os governadores, que presidirá o presidente do Senado”, e “um comitê que se reunirá semanalmente com autoridades para decidirmos o rumo do combate ao coronavírus”, disse Bolsonaro.

BRASILIA, BRAZIL - NOVEMBER 09: Brazilian Vice President Hamilton Mourão and President of Brazil Jair Bolsonaro react during Volunteering Alliance launch amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on November 09, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.064,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 162,397 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
No memo dia, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), rival político de Bolsonaro, afirmou que o grupo "não representa" o estado de São Paulo e adiantou que o governo estadual não fará parte do comitê (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

No memo dia, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), rival político de Bolsonaro, afirmou que o grupo "não representa" o estado de São Paulo e adiantou que o governo estadual não fará parte do comitê.

"Este comitê não nos representa, nós não fomos convidados e aquilo que representa a saúde, a necessidade de proteção da vida dos brasileiros de São Paulo deve ser tratado com o governador do estado de São Paulo. Não com um representando do governador do estado de São Paulo", disse.

"O Brasil quer vacinação. O Brasil não quer comitê de adulação, e comitê de adulação eu não participo", completou Doria.

"Exemplo de civilidade e boa relação"

Para a criação do comitê, Bolsonaro se reunidou com um grupo de governadores, os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, em uma suposta tentativa de união nacional para o combate ao coronavírus.

O novo ministro da Saude, Marcelo Queiroga, defendeu também a campanha de vacinação como medida para enfrentamento da Covid.

Unconscious and intubated Covid-19 patients are treated in Vila Penteado Hospital's ICU, in the Brasilandia neighborhood of Sao Paulo, on June 21, 2020. According ta a study published in June 21st, Brazil's public hospitals, like Vila Penteado, had almost 40% death rates from the new coronavirus, the double from private hospitals. Brasilandia is one of the neighborhhods in Sao Paulo with highest number of deaths from Covid-19 (Photo by Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
O país ainda enfrenta falta de leitos de UTI e de medicamentos para intubação. Além da lentidão na vacinação, que, segundo especialista, é a única forma de se imunizar contra o vírus. Até a noite desta quarta-feira (24), apenas 6,32% da população recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 (Foto: Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)

"Participamos de uma reunião de alto nível, caracterizada pela união entre os poderes. Para prover à população brasileira, com agilidade, uma campanha de vacinação capaz de diminuir a circulação do vírus. O sistema de saúde do Brasil dará as respostas que o povo brasileiro quer, sobretudo depois de uma reunião como essa", afirmou Queiroga.

Em sua fala, o presidente do Senado adiantou como vai funcionar o comitê.

"Eu fiquei incumbido de tratar com governadores de estados e do Distrito Federal para ouvir demandas e trazer para esse comitê. O STF não pode participar de um comitê desta natureza, mas deve estar em consonância, com pautas como aquisição de oxigênio e campanha de vacinação coordenada pelo ministério da saúde. Hoje, é um exemplo de civilidade, boa relação e harmonia entre os Poderes em um momento em que a sociedade exige isso de nós".

Entre os governadores presentes, estavam apenas os aliados ao governo: Romeu Zema (Minas Gerais), Ronaldo Caiado (Goiás), Renan Filho (Alagoas), Wilson Lima (Amazonas), Ratinho Jr. (Paraná) e Marcos Rocha (Rondônia).