Nunca será tarde para descobrir o som genial de David Axelrod

Ele morreu no domingo passado, vitimado por um aneurisma cerebral. Quase ninguém noticiou. Um reflexo de como a falta de memória parece ser um fenômeno mundial. Sim, eu sei que você também nunca tinha ouvido falar dele. É por isso que torço para que este texto sirva para sanar tal falha terrível na realidade musical de sua vida…

Músico, produtor e compositor de primeiríssima grandeza, Davis Axelrod foi um dos mais brilhantes “misturadores” de sons de gêneros diferentes. Atrevo a escrever que não haveria o hip hop da maneira como o conhecemos de o gênero não tivesse bebido no espetacular amálgama de jazz/soul/rock que ele criou de maneira engenhosa e brilhante. Se você ouvir os álbuns de gente tão diferente dentro desse universo como Wu-Tang Clan, Cypress Hill, DJ Shadow, De La Soul e Dr. Dre, só para citar os exemplos mais famosos, vai sacar que todos eles “pagaram um pau” para o maestro.

A conexão com a música negra veio muito antes do que todo mundo imagina. A partir de 1962, foi ele quem convenceu a já então renomada gravadora Capitol a investir em artistas e músicos negros, contrariando a política vigente dentro da companhia. Por sugestão dele, um cantor chamado Lou Rawls foi contratado e o próprio Axelrod fez questão de questão de compor e produzir um de seus álbuns em 1966, selecionando as melhores gravações ao vivo de seu artista e dando a ele algumas de suas próprias composições. O resultado foi Live, um sucesso estrondoso na época. Sua mão era tão certeira que se meteu a produzir no ano seguinte um álbum de jazz para o grande saxofonista Cannonball Adderley – Mercy, Mercy, Mercy! Live at the Club – e conseguiu outro sucesso avassalador.

Continuando a compor, arranjar e produzir discos para seus artistas, conseguiu a proeza de dizimar um grupo inteiro por conta de sua complexidade: incapaz de reproduzir o material mostrado por Axelrod, a banda Electric Prunes simplesmente acabou depois de seus integrantes brigarem entre si e com todo mundo da gravadora por não conseguirem gravar seu segundo álbum, Release of an Oath. Axelrod não se apertou: chamou alguns músicos de estúdio de sua confiança e tratou ele mesmo de tocar e gravar as canções, lançando tudo como se fosse um disco da banda extinta. Foi então que pensou “Por que não gravo meus próprios discos?”. Fez bem em botar seus pensamentos em prática…

Seus dois primeiros álbuns, Songs of Innocence e Song of Experience, ambos lançados em 1968, são itens obrigatórios na coleção de qualquer músico ou ouvinte amador que se preze. Os instrumentos de percussão soavam retumbantes, as orquestrações frequentemente lembravam as sonoridades barrocas dos compositores eruditos do passado e a palavra “vanguarda” nunca soava chata e pedante quando aplicada ao som que sempre fez durante toda a sua vida.

Sem largar seu trabalho de produtor, compositor e arranjador, continuou a trabalhar com Adderley e Rawls por anos, enquanto gravava seus próprios discos, um mais estranho e cativante que o outro: Earth Rot (1970), Rock Messiah (1971), The Auction (1972), Heavy Axe (1974), Seriously Deep (1975), Strange Ladies (1977)…

A partir dos anos 80, seus lançamentos se tornaram cada vez mais raros – soltou apenas cinco álbuns de lá para cá -, assim como as menções ao seu nome, que só apareciam nos créditos dos discos de um monte de gente do hip hop, que samplearam suas composições a rodo.

Sinta-se aliviado: nunca pé tarde para tomar contato com a obra de Axel Rod. Espero que a partir de hoje ele não seja apenas mais um nome curioso que você leu por aí…