Nutrição contra a fome: profissionais trocam dicas de dieta por política nas redes

Profissionais da Nutrição usam seus perfis nas redes sociais para conscientizar sobre a fome e soberania alimentar. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
Profissionais da Nutrição usam seus perfis nas redes sociais para conscientizar sobre a fome e soberania alimentar. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
  • Fome cresceu no Brasil nos últimos anos

  • São cerca de 33 milhões de brasileiros com déficit alimentar

  • Nutrição tem como missão cuidar da alimentação coletiva, explicam especialistas

No começo de julho, a ONU (Organização das Nações Unidas) revelou que o número de pessoas que sofrem com insuficiência alimentar chegou a 828 milhões em 2021. Só no Brasil, são 125,2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e 33 milhões com fome.

Nas redes sociais, acostumadas com nutricionistas que falam apenas em dietas e dicas de refeições, algumas profissionais passaram a adotar um tom mais político e colocar sua profissão na trincheira do combate à fome. Elas criam postagens se utilizando de seu conhecimento para debater os caminhos para a superação da crise.

“É nosso dever enquanto nutricionista lutar no combate à fome e promover a soberania alimentar da população”, afirma a nutricionista Fernanda Imamura. “É impossível separar a nutrição dessas questões.”

A trincheira escolhida por Fernanda é o Instagram, onde já acumula mais de 39 mil seguidores.

“As redes sociais são um ambiente que possui muita desinformação sobre alimentação e nutrição, então acredito que estar nesses locais e falar sobre alimentação de uma forma ética e responsável é muito importante”, defende.

O caminho não é fácil, como aponta Camilla Estima, que fala sobre comportamento alimentar para seus mais de 30 mil seguidores no Instagram: “Os nossos posicionamentos são fundamentais, mas sabemos que não é fácil fazer isso, visto toda a polaridade que estamos vivendo.”

Ela não está sozinha. A professora e nutricionista Nathalia Camarço também precisou superar os estigmas da profissão para levar suas ideias às redes sociais.

"Eu recebi muitas críticas quando eu comecei a me posicionar, pois, assim como a maioria dos meus colegas, eu tinha muito medo do julgamento das pessoas e de perder pacientes, principalmente”, relembra. “Mas depois eu percebi que várias pessoas se identificam com a minha forma de trabalho, é muito gratificante.”

Mas não é tão fácil. Em meio às exigências do algoritmo, o conteúdo dessas profissionais, tão importante para todos, muitas vezes fica para trás.

“Infelizmente muitas pessoas preferem conteúdos mais neutros e esses são os que têm mais engajamento”, disse Fernanda. “Porém, na minha opinião, me posicionar e trazer uma visão mais crítica sobre alimentação é meu dever enquanto profissional e, mesmo recebendo muitas críticas, seguirei me posicionando.”

Nutrição também é para o coletivo

Em entrevista, as três nutricionistas lembraram que o Código de Ética da profissão estabelece que “a atuação do nutricionista deve ser pautada pela defesa do Direito à Saúde, do Direito Humano à Alimentação Adequada e da Segurança Alimentar e Nutricional de indivíduos e coletividades.”

“Quem fala que a nutrição não tem a ver com isso está ferindo o código de ética profissional e está ignorando todos os conhecimentos adquiridos na graduação do curso”, defende Fernanda. “Assim como tudo na vida, nutrição também é política.”

As profissionais explicam que a nutricionista deve, sim, promover uma saúde individual, mas que esta nunca está desvinculada de um contexto coletivo.

“O nutricionista não pode promover saúde apenas de forma individual, pois não tem como uma pessoa ter uma alimentação saudável se ela não consegue ter dinheiro e condições que permitam que ela tenha acesso a essa alimentação”, explica Fernanda.

Tudo, claro, com base em ciência. “O comer e a alimentação são atos políticos e sociais, não tem como nos distanciarmos disso. Sempre devemos fazer nossos posicionamentos pautados na ciência, em dados confiáveis, com ética e respeito”, coloca Camilla.

Nutricionista deve ser ‘ponte entre políticas públicas e população’

O trabalho coletivo dessas profissionais da nutrição nas redes está em explicar aos seguidores como a saúde e a fome precisam ser pautadas por políticas públicas.

“Por meio de políticas públicas o governo deve garantir o acesso à alimentação saudável da população e a atuação do nutricionista precisa estar presente na luta pela construção e promoção dessas políticas”, explica Fernanda.

Nathalia descreve seu papel e de suas colegas como uma “ponte” entre governo e população.

"Eu penso que a gente é ponte entre as políticas públicas e a população. A gente deveria estar informando mais a população e mostrando mais o caminho de quais são as políticas públicas, quais são os tipos de pressão social que nós deveríamos estar fazendo para fazer esse combate à fome, para promover soberania alimentar, porque é nítido que tem um afastamento da população desses temas”, aponta.

Entre os temas trabalhados por elas nas redes que devem ser prioridades na luta contra a fome está a promoção da Reforma Agrária, junto com a luta pelo aumento da produção agroecológica, pela diminuição dos agrotóxicos e por mais empregabilidade digna no campo.

"Não existe saúde em terra arrasada, em um país devastado pelos agrotóxicos, pela monocultura”, coloca Nathalia.

Outra preocupação, levantada por Fernanda, é a extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), em 2019.

“O Consea teve um papel essencial nas políticas de combate à fome promovidas pelo Brasil nos últimos anos e sua extinção impactou de maneira muito negativa a alimentação da população”, disse. “Nós, enquanto nutricionistas, devemos lutar para que os próximos governos coloquem a alimentação saudável como prioridade e não dá pra ficar atuando como nutricionista apenas dentro de um consultório e vivendo numa bolha, enquanto o país está de volta no mapa da fome.”

“A promoção do acesso à alimentação saudável e adequada em todas as esferas da sociedade, não só na atuação direta com nossos pacientes ou comunidades que atendemos, mas também em atuações políticas”, coloca Camilla.