"O ódio é tangível", diz autor de "Gomorra" ao cancelar eventos em Itália

O escritor Roberto Saviano, conhecido pela sua obra contra o crime organizado em Itália, cancelou a participação em dois eventos públicos no país por não se sentir protegido.

Saviano vive sob proteção policial desde 2006, ano em que publicou "Gomorra", um livro sobre a máfia italiana que viria a dar origem à conhecida série televisiva de ficção.

Agora, o autor alega que "após semanas de ataques contínuos" decidiu afastar-se por receio de se colocar em risco e à família.

"Sinto-o ainda mais, porque vejo que aqueles que poderiam tomar partido com posições de força, expressando uma opinião, estão a anos-luz de distância e, em vez disso, permanecem em silêncio", acrescentou.

Numa carta enviada aos organizadores do evento, Saviano revela ainda estar a passar por "uma fase difícil", em que se considera atacado pelo poder político e "os jornais de extrema-direita".

Três ministros do atual governo italiano, entre eles a primeira-ministra Giorgia Meloni, estão a levar o escritor a tribunal. No total, Saviano tem cinco ações judiciais pendentes.

O caso que envolve Meloni, que agora o acusa de difamação, remonta a dezembro de 2020, quando Saviano, pronunciando-se sobre a crise migratória e humanitária em Itália, usou o termo "bastarda" para se referir à então líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália

O mesmo termo foi usado pelo escritor em relação ao líder da Liga e atual vice-primeiro-ministro e ministro das infra-estruturas, Matteo Salvini, que pediu para ser queixoso civil no julgamento. Saviano enfrenta também um julgamento à parte por, noutra ocasião, ter chamado Salvini o "ministro do submundo".

O terceiro e último ministro a intentar uma ação judicial contra o escritor é o ministro da Cultura, Gennaro Sangiuliano, por críticas recentes de que foi alvo.