'O abrigo é tudo na vida de quem quer viver', diz morador de rua; procura aumentou 27% no Rio

Cristiano Costa de Moura, de 50 anos, foi uma das pessoas em situação de rua que aceitou ser encaminhada para um abrigo municipal por causa das baixas temperaturas na cidade. Ele que costumava dormir na Avenida Presidente Vargas, perto da Candelária, no Centro, e na noite de segunda-feira deu entrada na Unidade de Reinserção Social Haroldo Costa, na Taquara. Segundo Cristiano, que há nove anos vive nas ruas, mesmo agasalhado, com as temperaturas no Rio chegando perto dos 10 graus é impossível se proteger do frio e não adoecer dormindo nas calçadas.

— Não tem como você se proteger do ar gelado que você respira, da umidade. Junta isso com o vento, com os carros passando, com a poluição, com a chuva…não tem como. Logo vem a irritação na garganta, a tosse. Sem contar que, o que a rua te oferece? Um papelão e uma coberta que você encontra ou recebe de doação. Mesmo assim, se for um edredom muito pesado você não consegue carregar e acaba sendo levado por outros ou para o lixo” — descreve Cristiano.

A onda de frio na cidade do Rio está levando a um aumento na procura por abrigos da Prefeitura. No último fim de semana, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) registrou um aumento de 27% no número diários de atendimentos em relação ao número de pessoas que vinham sendo atendidas diariamente desde o início da operação especial de acolhimento, em maio. A rede municipal conta com 53 unidades de acolhimento e aumentou o número de vagas para responder à demanda. Ao todo 90 novas vagas foram criadas e atualmente 2.213 pessoas estão acolhidas em abrigos municipais.

Gilson de Miranda Pedrosa, de 60 anos, está em situação de rua há 17 anos, sofre de alcoolismo e saiu de casa após a morte do pai que morreu em decorrência do mesmo vício. Depois de “perder tudo” e passar 22 anos preso, Gilson diz que conseguir uma vaga em um abrigo municipal é um presente.

— Após tudo o que eu vivi na rua, encontrar um espaço seguro é um presente de Natal. O abrigo hoje é tudo na vida de quem quer viver. E eu quero viver. Eu vim para cá na sexta-feira, porque suportar o frio na rua não é nada fácil, não há colchão que evite o frio de subir do chão. Na rua tudo é difícil, mas no fundo, no fundo, pior do que o frio é a saudade que bate do passado e das pessoas — contou emocionado.

Nos últimos meses, Gilson dormia pelas ruas de Madureira e foi recebido também na Unidade de Reinserção Social Haroldo Costa na Taquara. O local acolhe 150 homens adultos e 62 idosos. Segundo a administração do abrigo, com a onda de frio, as pessoas em situação de rua que aceitam ser acolhidas têm passado mais tempo na unidade, diminuindo a rotatividade do local.

De acordo com a Secretaria de Assistência Social existem três formas de acesso aos abrigos da prefeitura: Equipe de Abordagem, Central de Recepção de Adultos e Famílias e Creas. Com a antecipação do frio, a operação especial de acolhimento, que geralmente começa com a chegada do inverno, foi também antecipada e começou em maio. Por isso, o atendimento das equipes de abordagem está acontecendo 24 horas, inclusive durante a noite e madrugada, que é quando os termômetros costumam atingir as temperaturas mais baixas.

Em meados de maio, a Assistência Social decidiu também antecipar a campanha do agasalho. O Creas (Centros de Referência Especializados de Assistência Social) Zilda Arns Neumann, em Campo Grande, e o Centro POP Bárbara Calazans, no Centro, estão oferecendo também alimentação, água, roupas, calçados e cobertores. O Creas Maria Lina de Castro Lima, no Flamengo, e o Espaço de Acolhimento Provisório (EAP), em Botafogo, funcionam, alternadamente, das 8h às 19h, e das 19h às 8h, oferecendo 12 vagas de acolhimento.

Parceiros da sociedade civil também recebem doações: Rio Scenarium (Rua do Lavradio, 20, Centro), SindRio (Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio - Praça Olavo Bilac, 28, 17. andar), Maguje (Rua Jardim Botânico, 1003, Jockey Club) e Mercado São Sebastião (Rua do Arroz, 90, Penha Circular).

Segundo o Alerta Rio, apesar das temperaturas ficarem estáveis nos próximos dias, a mínima na quinta-feira (16/06) deve ficar em torno de 13 graus. Os ventos vão variar de fracos (até 18,5 km/h) a moderados (entre 18,5 km/ e 51,9 km/h), sem previsão de chuva até sexta-feira (17/06). Mas no sábado (18/06), a partir da tarde, deve chover em toda a cidade e uma nova frente fria deve se aproximar do Rio de Janeiro.

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