O adeus de Afonsinho a Pelé: barca, ônibus e saudade do amigo de lutas

Sancionada em março de 1998, a Lei Pelé (9615/98), costurada pelo Rei durante seu período no recém-criado Ministério dos Esportes, estabeleceu diretrizes adotadas até hoje no esporte profissional brasileiro. No futebol, a principal conquista foi a extinção do passe, o sistema que ligava obrigatoriamente os atletas aos clubes mesmo após o fim de seus contratos. Décadas antes, em 1971, Afonsinho fazia história ao conseguir, na Justiça, o desligamento do Botafogo, que detinha seu passe. As histórias do pioneiro meia-atacante e de Pelé se cruzaram na luta pelos direitos dos jogadores, no que virou uma amizade e terminou numa emocionante despedida no velório do Rei, na terça-feira.

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— Eu relutei muito em em ir ver o Pelé (no hospital). Mesmo um pouco antes, com a doença, as cirurgias que obrigaram a ele a andar em cadeira de rodas. Com com a história do câncer, fiquei muitas vezes querendo visitar, procurar, mas fui talvez enganando a mim mesmo. Fui adiando, aí passei esse esse período crítico em que o mundo todo, praticamente, ficou suspenso com o avanço da doença dele — lamenta o ex-jogador, que que esteve presente na despedida de Pelé do Santos , no jogo de seu milésimo gol no Maracanã... e no velório no começo da semana, na Vila Belmiro.

Afonsinho, de 75 anos, recebeu a reportagem do GLOBO após encarar duas longas viagens de barca e ônibus da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, onde mora, a Santos-SP, onde o Rei era velado. Perguntado, tergiversou sobre os campeões do mundo que não foram ao velório do Rei.

— Até a última hora eu também fiquei só matutando, com aquilo sem sair da cabeça. Não resisti. Pensei: “poxa, é uma coisa tão grande a influência do Pelé na gente”. Não só para mim, como para essas gerações periféricas. Por sorte até, o sepultamento ficou pra quarta, aí eu peguei um ônibus, amanheci em Santos.

Tudo para se despedir daquele que foi, além de um amigo, um companheiro de lutas num momento em que as discussões sobre os direitos dos atletas de futebol ainda engatinhavam e imperava a informalidade entre jogadores e dirigentes. Afonsinho chegou a ser afastado do alvinegro carioca sob, entre outras justificativas, o uso de barba.

— Cheguei até a a família ao lado lá do caixão, fiz minha homenagem e vim embora— contou, antes de dizer que se arrependeria se não fosse. — Talvez eu fosse ficar com aquela coisa "deveria, poderia". É uma coisa que é grande dentro da gente, né? Até eu mesmo me surpreendi de ter ficado tão emocionado quando me pediram para falar alguma coisa. É muito forte, é muito grande né? Como memória. E ainda vai custar os dias para abaixar a poeira.

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O ex-meia, que se formou em medicina e se destacava na época pela articulação, a politização e a postura combativa, lembra com carinho de um encontro histórico com Pelé promovido pela revista “Placar” em 1971, quando debateram problemas inerentes à profissão, incluindo a questão do passe. Na época, um encontro de gerações: Afonsinho era um jovem nos seus 24 anos e Pelé já tinha 31.

— Nós conversamos muito naquele dia e depois ele comprou essa briga, ele encampou a oficialização. Foi passando muito tempo, o passe foi se diluindo e ele bancou a abolição oficial.

Por um novo líder

Para além da atuação política, o ex-jogador relembra o simbolismo de Pelé como figura midiática. Para ele, ficou a dúvida, nunca questionada ao Rei, se houve algum conselho dado por Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira nas Copas do Mundo de 1958 e 1962 e fundador da TV Record, num momento em que a televisão se expandia pelo Brasil tal qual a figura de Pelé.

— Com a genialidade dele, não vi ninguém (fazer algo como) separar o Pelé do Edson — reflete Afonsinho. — Isso foi um uma marca dele em relação aos demais jogadores, de aperfeiçoar o seu relacionamento profissional, de se valorizar, essa coisa de entrar em propagandas e de disputar o contrato, mesmo porque, com a evolução, o cartola tinha tinha domínio completo sobre isso.

Com a história marcada no futebol, dentro e fora dos gramados, Afonsinho celebra os progressos que permitiram que os jogadores tenham direitos estabelecidos e mais liberdade. Na esteira de sua luta com Pelé, cita movimentos com a Democracia Corinthiana e o Bom Senso Futebol Clube. Agora, enxerga individualização, mas tem confiança no surgimento de um novo “líder” entre os jogadores brasileiros — aposta em Richarlison para esse papel.

— Vai surgir com certeza em algum momento, quem sabe o Pombo, que tem uma uma visão boa em relação às questões que envolvem a profissão de jogador e a sociedade de uma maneira geral. Tem um samba (“Zé do Caroço”, de Leci Brandão) que fala que apareceu um novo líder no no morro. Então a gente aguarda, com o tempo aparece um líder adaptado ao momento.