O alto custo da pandemia para a saúde mental dos jovens nos EUA

Laura BONILLA
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Ansiedade, depressão, automutilação e até suicídio: desde o início da pandemia de coronavírus, um número crescente de jovens e crianças nos Estados Unidos sofre de transtornos mentais, alertam médicos, educadores, pais e governo.

Milhões de alunos assistem aulas 100% virtuais e passam horas na frente de seus computadores, sem brincar ou conversar pessoalmente com amigos e professores, sem aulas presenciais de educação física, artes ou música.

"Há muita solidão para mim e para os outros adolescentes (...) Há dias em que me sinto muito triste e sem esperança. É como um pesadelo que nunca acaba", disse à AFP Sarah Frank, uma jovem de 18 anos de Tampa, Flórida, que não sai de casa desde março porque mora com parentes do grupo de risco.

"Sinto falta de coisas que desejava fazer no último ano do Ensino Médio. Nunca fui a uma partida de futebol americano, não tive um baile de formatura", lamenta Frank, que co-fundou em julho o State of Mind Project, site com dicas sobre saúde física e mental feito por adolescentes para adolescentes.

- Ansiedade e depressão "enormes" -

"Os alunos sofrem, estão trancados sem escola há quase um ano", diz Deanna Caputo, psicóloga e mãe de dois filhos que desde março têm aulas virtuais em uma escola pública em Arlington, Virgínia.

Caputo, que é membro de uma associação de pais que faz lobby para que as escolas reabram no condado de Arlington, detectou sinais de depressão em seu filho de 10 anos.

"Dormia até meio-dia (...) Começava a dizer coisas como 'não sou inteligente', 'não sei nada', 'não sou bom em nada'", lembra Caputo. "Ele chora o tempo todo e todos os dias diz que sente falta dos amigos".

"Outras crianças estão em situação pior. Ouço falar de crianças sendo medicadas", afirma Caputo, que não conseguiu encontrar um terapeuta infantil em Arlington devido à grande demanda.

Os suicídios de adolescentes estão aumentando nos Estados Unidos há uma década e não há dados para 2020 ainda.

Mas no condado de Clark, em Nevada, que inclui Las Vegas, 19 estudantes cometeram suicídio desde março, mais do que o dobro do número no mesmo período de 2019.

Embora as mortes não possam ser diretamente relacionadas à pandemia, as autoridades foram rápidas em anunciar a reabertura das escolas.

Carlos Arballo, terapeuta do colégio de Ensino Médio Lawrence, em um subúrbio de Los Angeles, com aulas à distância desde março, diz que "a ansiedade e a depressão são enormes".

"Quase não tenho motivação para as aulas online", confessa Brandon, um estudante de 13 anos de uma escola pública de Arlington que tem aulas remotas há mais de 300 dias. "Sinto falta do contato social" nas salas de aula, nos corredores, no refeitório, afirma.

- "Crise de saúde mental" -

"Enquanto a covid é uma crise médica para adultos, é uma crise de saúde mental para as crianças", diz Susan Duffy, professora de Pediatria e Medicina de Emergência da Brown University.

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), de março a outubro, as visitas a hospitais para emergências de saúde mental de jovens de 12 a 17 anos aumentaram 31% em relação a 2019, e de crianças de 5 a 11 anos, 24%.

Duffy confirmou isso no grande hospital de Rhode Island onde trabalha. E depois de falar com colegas em todo o país, diz que notaram "um número maior de tentativas de suicídio".

"Estamos vendo mais crianças com a intenção de se machucar (...) algo mais associado a tentativas de suicídio, o que é muito, muito preocupante", ressalta.

A reabertura de escolas varia de um distrito escolar para outro. Atualmente, 38% das escolas oferecem apenas aulas online, ante 62% em setembro, de acordo com o site Burbio, que analisa calendários escolares.

Os alunos "ficaram sem professores e adultos compreensivos fora de seu círculo familiar, que muitas vezes detectam sinais sutis de crise, de depressão, de ansiedade", explica Duffy.

Sem falar do medo do vírus, da dor da morte de um familiar - a pandemia já deixou quase 450 mil mortos no país - e da insegurança econômica, alimentar e habitacional gerada pela pandemia, acrescenta.

Um relatório recente do CDC garante que as escolas são seguras se forem tomadas as precauções adequadas.

Mas muitos sindicatos se opõem ao retorno à escola, como em Chicago, onde o prefeito ordenou a reabertura das escolas do ensino básico e o sindicato se recusa a fazê-lo, exigindo vacinas para todos os professores e ameaçando greve.

As crianças "são feitas reféns dos sindicatos", opina Caputo.

A pandemia também aumentou o risco de abuso infantil, alertou os CDC.

"Quem denuncia muitas vezes são professores e escolas (...) Quando os pais perdem a esperança, há uma tendência ao comportamento abusivo, e há o alcoolismo, o abuso físico e emocional das crianças", diz Caputo.

Algumas crianças, no entanto, preferem aulas online porque evitam enfrentar a pressão social ou provocações e insultos de colegas na escola.

Mas a pediatra Duffy diz que ficar em casa "atenua o problema", mas não corrige a causa subjacente e pode levar a um isolamento cada vez maior.

lbc/gma/mr