O Amor é muito maior que todas as coisas, diz escritora

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**ARQUIVO** SAO PAULO, SP, BRASIL - Rita Carelli (atriz). Pre-estreia do filme Pastor Claudio, de Beth Formaggini. (Foto: Marcus Leoni / Folhapress)
**ARQUIVO** SAO PAULO, SP, BRASIL - Rita Carelli (atriz). Pre-estreia do filme Pastor Claudio, de Beth Formaggini. (Foto: Marcus Leoni / Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Rita Carelli é atriz, diretora, ilustradora, escritora. E, mesmo com um dia a dia assim corrido, ela nunca descuida do amor. Do amor pela filha, do amor pela casa e pelo trabalho, do amor pela família e pelos amigos.

E Rita também nunca descuidou do Amor, assim, com letra maiúscula mesmo, que é como a gente usa quando vai falar do nome de alguém.

O Amor é um coelho. Por um mês inteirinho, ele morou na casa de Rita, e encheu o espaço com seus pulinhos, travessuras, e, especialmente, com seu apetite insuperável. Nada passava despercebido pelo Amor: ele comia tudo o que via pela frente.

Na dieta do Amor, que Rita preparava com carinho, estavam cenouras, claro, mas também couves e outras verduras. Só que o Amor nunca ficava satisfeito só com isso -ele precisava de mais.

Assim, o Amor comeu chinelos e pés das cadeiras de Rita, e comeu até mesmo a paciência da escritora. E tinha noites em que o Amor a assustava, escondido no escuro.

Por outro lado, sempre que alguém ficava triste, o amor olhava bem fundo nos olhos da pessoa, piscava três vezes, e todo sentimento esquisito ia embora na mesma hora.

Para contar essa história, Rita escreveu o livro "Amor, o Coelho" (selo o.Tal, editora Caixote, 40 páginas, R$ 48 em pré-venda no site oficial).

E, para falar deste coelho, e de como o amor (agora com letra minúscula mesmo) pode se parecer com esse bicho fofo e arredio, a escritora deu uma entrevista exclusiva para a reportagem. Leia a seguir.

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Pergunta - Quando o amor não está vestido de coelho, qual aparência você acha que ele tem?

Rita Carelli - Acho que o Amor é meio mago, meio bruxo, então ele vive mudando de aparência e, por isso, nunca sabemos direito quando e onde vamos encontrá-lo. Às vezes a gente tá de bobeira, meio parado e, quando se dá conta, quem estava ali o tempo todo, bem do nosso lado, era o Amor e a gente não tinha nem notado! Outras vezes, não sei se ele sai atrasado e se esquece de vestir a fantasia, trombamos com ele e já tá na cara: é o Amor.

O que é o amor, no geral, na sua opinião?

RC - O Amor é o sal da vida, né? E o açúcar também, a pimenta... (eu adoro pimenta!). É o que dá gosto nas coisas e deixa a gente com vontade de levantar de manhã. Pode ser até um amorzinho tipo: amo tomar café quando acordo. Amor é o que faz cosquinhas na sola do pé da gente quando encontramos alguém de quem gostamos muito. Que faz a gente querer rodar o mundo, mas também que dá aquela vontade de chegar logo em casa quando estamos voltando.

Por que você acha que o coelho Amor gostava de comer as coisas?

RC - Bem, todos os coelhos que eu conheci eram gulosos. O Amor inclusive. Mas, na verdade, quem primeiro me contou dessa mania do Amor de comer as coisas foi João Cabral de Melo Neto em um poema seu. Se bem que o Amor dele era mais guloso que o meu. João Cabral escreveu: 'O amor comeu meu nome/ Minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade/ Minha genealogia, meu endereço'.

Você acha que quem tem suas coisas comidas pelo Amor fica chateado?

RC - Ah, às vezes é chato, né? Quem gosta de ver um buraco na sua roupa preferida? Ou umas dentadas num livro que ainda não leu? Mas o Amor é assim mesmo, não poupa nada.

RC - Mesmo comendo coisas, o Amor é legal?

RC - Muito! Afinal, as coisas são só coisas ,e o Amor é muito maior do que camisas e jornais. É maior do que a casa inteira e, talvez, até maior que a gente. E, como contamos no livro, quando está contente o amor dá cambalhotas e faz piruetas que alegram todo mundo.

As peraltices do Amor fazem todos rir. Quais são as melhores coisas que o Amor faz?

RC - Tem melhor coisa no mundo do que rir? Eu acho que não. Então diria que fazer rir é a especialidade especialíssima do Amor! Mas ele também tem outros poderes especiais muito legais, tipo enxergar no escuro.

Por falar nisso, como você fez para se acostumar com os olhos vermelhos do Amor? Ensina para a gente fazer também e não ficar assustado quando ele se esconder?

RC - Isso nem é mérito meu, sabe? É só uma questão de hábito, experiência, treino. Se o Amor morar na sua casa, você também vai acabar se acostumando, pode apostar.

E essa liberdade que o Amor pede: às vezes pode ser difícil, né? Porque a gente é apegado, não quer dividir. Como fazer para entender essa necessidade e se habituar a ela?

RC - Hummm, essa é uma pergunta difícil, mas eu diria que é também uma questão de treino. Lá em casa mora uma meninota de quase dois anos. É minha filha. Ela tá naquela fase terrível de dizer que tudo é dela, então a gente fica repetindo assim: 'filha, é seu, mas também é nosso e de quem mais quiser brincar'. De qualquer forma, sempre achei que o Amor era melhor de multiplicação do que de contas de divisão.

Uma casa é melhor ou pior com o Amor?

RC - Não precisa nem dizer, né? Uma casa sem Amor é uma toca, nem casa é.... Eita, se bem que pode muito bem ter Amor escondido na toca e a gente nem saber, a gente pode achar que tá sozinho, e o Amor tá bem ali, junto de nós.

E, agora, falando do coelho que inspirou seu novo livro: ele morou só um mês com você? Qual era a cor dele? Você sente saudade dele?

RC - O Amor era preto, lindíssimo. Durante um mês eu tentei desenhar o Amor: dava uma cenoura ou uma couve pra ele e ia buscar o caderno na esperança de que ele ficasse ali, paradinho. Não tive sucesso: era só eu pegar o lápis (que também era uma forma de tentar capturá-lo) que ele escapava. Foi quando eu descobri: o Amor, mesmo morando na nossa casa, é indomesticável. Sinto saudades dele, mas escrever essa história foi o jeito que eu dei de fazer esse mês durar pra sempre.

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