O ano em que todos riam com a política

Dilma Rousseff e José Serra (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)
Dilma Rousseff e José Serra (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

Os mais jovens não vão lembrar, mas depois da abertura democrática já fomos engraçados na política. Na eleição de 2010, Dilma Rousseff e José Serra protagonizavam o embate político. Como toda eleição, tivemos momentos tensos, mas a grande novidade da época era um perfil nas redes sociais chamado Dilma Bolada, inspirado, obviamente, em Dilma Rousseff. Um fenômeno das redes.

Na época, a sensação no mainstream era a série Game of Thrones, onde uma personagem se autodenominava “a mãe dos dragões” (você precisa de referência para entender esse texto). O perfil de Dilma Bolada não deixou passar: Dilma era a dilmãe. Mas também era a “soberana das Américas”, era “linda”, “competente” e “rainha da nação”. O perfil ironizava seus adversários e exaltava qualidades a Dilma. Não importava de que partido você era: era impossível não rir com as sacadas de Dilma Bolada. Obviamente o perfil foi um puxador de votos, mas esse é outro assunto.

Vale lembrar que quando Dilma foi a escolhida de Lula para lhe suceder, ela era a ministra da Casa Civil. Uma mulher dura, autoritária e de poucos amigos. O perfil lhe trouxe uma suavidade que caiu muito bem na campanha. Linguagens como “dilmais” e “rousselfie” foram incorporadas na política. A ironia, aquela ironia que faz você nem que seja sorrir, também.

José Serra era o vampiro, assim mesmo, descarado, Aécio Neves era Aécio Never, numa referência a qual Aécio nunca seria eleito, e Marina Silva era Marinárvore. Hastaghs como “êtapresidentamaravilhosa” eram utilizadas na internet sem economia. Os internautas entravam na brincadeira.

Eu escrevi um longo artigo explicando esse fenômeno e ele foi, inclusive, publicado na Espanha. Se chama “Dilma Bolada ou Dilma Rousseff, quem é a diva da nação?”. Até hoje nos meus cursos quando vou falar de ressignificar a imagem na política e apresento essa análise, todos riem. Em 2010, até quando Dilma Rousseff era questionada por atos de seu antecessor, Lula, nós ríamos. Outros perfis nas redes surgiram na esteira do Dilma Bolada. A política fazia rir, meus amigos.

Mas hoje todo esse cenário foi dominado pelo ódio. A internet nunca foi o problema. A tecnologia nunca foi o problema. O problema é o que fazemos com ela.

EM 2022, se você não pensa como eu você é meu inimigo. E eu preciso aniquilar você. Eu vou encontrar suas redes, vou xingar, vou cancelar e você não terá paz. Travestido de opinião, o ódio dominou a sociedade. Argumentos de que é “liberdade de expressão” incitam violência, discriminação e estigmas. Mas democracia é dissenso. Há equilíbrio no conflito. Pelo menos deveria.

Muitos autores da Ciência Política se debruçaram sobre o fato de como seria a vida se o homem não vivesse em sociedade. Viveríamos sob constante estado caótico, argumentam. Viveríamos? Fico imaginando se Thomas Hobbes, aquele que escreveu O Leviatã, em 1651, estivesse vivo hoje. O que pensaria do estado em que chegamos? Facadas em campanhas, escândalos sexuais, morais, financeiros... A sociedade corrompida quase em sua completude. Falar se tornou perigoso porque não existe mais uma base de fatos, mas uma verdade que cada um cria.

A dignidade do outro é atacada constantemente e isso parece tornar-se cada vez mais normal, cada vez mais justificável. Não existe liberdade de expressão. Existe liberdade de agressão. Nossa sociedade parece que estabeleceu um pacto de agressão onde o que importa somente é a dominação do outro. O outro tornou-se uma ameaça constante. Saudade de quando Dilma bolada mandava Marina plantar uma árvore e estava tudo bem.

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