'O barato de Iacanga': um sonho que virou um festival

Dias atrás, recomendei o documentário “Dunas do barato” (a crítica está no site). O leitor que tiver gostado da sugestão pode se interessar também por “O barato de Iacanga”, já exibido no Curta! e agora no catálogo da Netflix. As conexões entre as duas produções vão além de uma mesma gíria contida no título.

Dirigido por Thiago Mattar, esse filme narra a história do Festival de Águas Claras, no interior de São Paulo. O evento musical começou de forma muito amadora em 1975. Mas ganhou proporções impressionantes e teve quatro edições (em 1981, 1983 e 1984). No seu palco, se apresentaram figuras que também aparecem em “As dunas do barato”, que, por sua vez, retrata movimentos culturais surgidos nas areias de Ipanema no início dos anos 1970. Artistas como Gilberto Gil, Jards Macalé, Moraes Moreira e Dadi Mesquita estão nas duas produções e não é à toa. Ligando as duas histórias reais está o espírito de uma época, a do romantismo hippie.

O festival nasceu na cabeça de Antonio Checchin Junior, o Leivinha. Na época com 20 e poucos anos, ele era o mais velho de uma turma de garotos e garotas que trabalharam na produção. A ideia inicial era convidar alguns amigos para tocar na fazenda de sua família, em Iacanga. Eles imprimiram cartazes e ingressos, que espalharam nas cidades vizinhas. A coisa foi crescendo de surpresa e atraiu jovens do país todo. A audácia de Leivinha era irrefreável. Tanto que, na terceira edição, ele conseguiu levar João Gilberto. O músico enfrentou a lama da estrada e a microfonia e foi ovacionado depois de cantar “Wave”. Ainda teve bis. Foi um “momento mágico”, como afirmam testemunhas que falam no documentário. Não dá para duvidar mesmo.

O festival ficou conhecido como a Woodstock Brasileira. Porém, o projeto acabou naufragando depois de uma série de acontecimentos que não vou contar para não dar spoiler. Muita gente não conhece essa história — eu não sabia nada sobre ela. Vale conferir.