O Brasil que a direita não vê

A nova direita brasileira está incrustada no Estado, é barulhenta e tem rumo. O caminho é apontado no documento “Projeto de Nação: o Brasil em 2035”, proposta para construir um cenário para o Brasil feita pelo Instituto Sagres. A publicação é coordenada por um general da reserva. Mas, antes de avaliar o documento, é bom lembrar que, por diversos motivos, surgiu em nosso país, nas últimas décadas, um ideário de direita autodenominado “liberalismo conservador”. Tem repercussões em segmentos da classe média, setores do empresariado e, especialmente, entre os militares.

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A política brasileira, no plano nacional, tem forte peso autoritário numa das instituições mais antigas do Estado: as Forças Armadas e, em particular, o Exército. Aqui é bom lembrar o seguinte: países vizinhos da América do Sul, que atravessaram regimes ditatoriais, tiveram uma transição de justiça entre o fim da ditadura militar e o regime democrático, o que não aconteceu no Brasil.

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A famosa e canhestra “anistia ampla, geral e irrestrita” neutralizou qualquer tentativa de apuração e punição dos crimes do terrorismo de Estado, bem como não permitiu esforço sistemático de mudança doutrinária no Exército brasileiro. A direita cresceu também em redes sociais, grupos informais e outros movimentos de formação política. No caso das Forças Armadas e de outras instituições do Estado, são valores e ideias de uma herança autoritária que nunca foi passada a limpo.

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A reprodução social do pensamento de direita é um enclave no Estado brasileiro, em que pesem a moderna e social-democrata Constituição de 1988 e o fortalecimento dos movimentos sociais e sindicais após o fim do regime militar. Não podemos nos esquecer da ascensão da direita internacional, que ajudou a fortalecer a direita brasileira. Mas os valores internos pesaram mais.

O projeto da direita brasileira vai até 2035. São 13 anos ainda pela frente. O documento produzido é antiquado. Traz, por exemplo, a embolorada noção de civismo — Educação Moral e Cívica — dos anos 1960 e 1970.

A ideia de nação é curiosa: segue sendo a simplificação homogênea de massas amorfas e indiferenciadas, ou, simplificando, uma nação sem rosto e sem capacidade de agir coletivamente, sem as suas organizações sociais. Surpreende que, no início do século XXI, com os enormes avanços na produção e conhecimento social e político sobre a realidade brasileira, o “Projeto Nação” não mencione os problemas centrais da nossa sociedade, como racismo, desigualdade em suas várias dimensões, extrema pobreza e outras questões relacionadas à desigualdade de gênero.

No plano econômico, não há uma só palavra sobre a desindustrialização e como revertê-la. O documento ignora também a sociedade civil organizada, com seus movimentos sociais, sindicatos e outras instituições. Temos de ter bem claro que, num país que busca uma democracia sólida, como é o caso brasileiro, não é possível a existência de enclaves que exaltam doutrinas contrárias ao Estado democrático e fujam do espírito da Constituição.

As eleições estão aí. Essa discussão tem de ser feita. Está na hora de passar o Brasil a limpo.

Ricardo Patah é presidente nacional, e Enilson Simões de Moura é vice-presidente nacional da União Geral dos Trabalhadores

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