O cérebro oculto da campanha de Paes

Paulo Cappelli
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Hermes de Paula / Agência O Globo
Hermes de Paula / Agência O Globo

RIO - Principal estrategista da campanha de Eduardo Paes, Marcello Faulhaber orientou o ex-prefeito durante os intervalos do debate da Band, na noite desta quinta-feira, e planeja as propagandas no rádio e na televisão que serão veiculadas no segundo turno. Se nos bastidores o economista de 49 anos figura como peça-chave na campanha do candidato do DEM à Prefeitura do Rio, publicamente evita aparecer ao lado do ex-prefeito. Faulhaber foi citado na delação de Renato Pereira, ex-marqueteiro de Paes, e foi alvo de busca e apreensão da Polícia Civil, que investiga a existência de um "QG da propina" na gestão do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos).

Aliados de Eduardo Paes chegaram a dizer em setembro, dias após a operação da Polícia Civil, que Faulhaber havia sido afastado do posto de peça-chave e tido seu papel como estrategista minimizado. No debate desta quinta-feira, contudo, ficou evidente a influência de Faulhaber na campanha. Por conta dos protocolos de segurança contra a Covid-19 , cada candidato pôde levar apenas dois assessores para o estúdio. Um dos escolhidos por Paes foi Faulhaber. A cada 15 minutos, quando o intervalo era chamado pela apresentadora, era o economista que se aproximava do ex-prefeito para passar orientações.

Poucos, no entanto, reconheceram Faulhaber. Além da máscara para evitar o contágio pelo coronavírus, o estrategista chegou aos estúdios da Band, em Botafogo, de capuz, boné e óculos. Apesar do desgaste que a associação a Faulhaber poderia trazer, Paes avaliou que tê-lo por perto ontem poderia trazer mais bônus do que ônus. Afinal de contas, Faulhaber conhece como poucos a cabeça de Crivella, com quem trabalhou na campanha de 2016. Foi de uma conversa entre o estrategista e Paes que surgiu a ideia de usar no debate a expressão de duplo sentido "pai da mentira", que o ex-prefeito utilizou contra Crivella e que, no segmento religioso, é também uma referência ao diabo. Faulhaber planeja intensificar ainda mais os ataques no rádio e na televisão ao longo da próxima semana.

Troca de ofensas

Faulhaber foi estrategista de Crivella na campanha de 2016, quando o ajudou a derrotar o candidato indicado por Paes à prefeitura, o deputado federal Pedro Paulo Carvalho (DEM). Naquele ano, a situação era a inversa: Faulhaber já havia trabalhado com Paes, de quem foi subsecretário da Casa Civil e chegou a elaborar o plano de governo na gestão do ex-prefeito, e conhecia os pontos fracos de sua administração e de Pedro Paulo. A ruptura ocorreu em 2012. Na ocasião, em entrevista à ÉPOCA, Faulhaber afirmou que Paes era um "péssimo ser humano" e que "não é um ótimo prefeito porque quer o melhor para o Rio de Janeiro", mas por causa de sua "ambição e vaidade desmedida".

Na ocasião, Paes rebateu afirmando que tinha tirado Faulhaber do governo por conta de um suposto esquema de corrupção: "Mandei o Marcello embora porque ele foi conivente com um esquema de corrupção que descobri e abortei". A acusação levou o então vereador Cesar Maia a protocolar um requerimento de informações na Câmara Municipal.

Depois de atuar na campanha vitoriosa de Crivella, Faulhaber passou a ter uma espécie de influência informal na gestão municipal, sem ocupar cargos. Na representação do Ministério Público do Rio à Justiça, são reproduzidas centenas de conversas de Faulhaber com Rafael Alves, empresário acusado de ser um dos principais operadores do "QG da propina". Entre junho de 2017 e setembro de 2018, ambos trocaram 11,2 mil mensagens por WhatsApp. O estrategista reclamava com Rafael Alves, que é irmão de Marcelo Alves, presidente da RioTur, por não ter recebido o que havia sido combinado por prestar consultorias para o governo. E ameaçava ir ao Ministério Público estadual revelar supostas informações comprometedoras sobre a gestão de Crivella.

A reaproximação de Paes com Faulhaber, visto na política como um habilidoso estrategista, surgiu no Carnaval de 2018, quando ambos se encontraram ocasionalmente no recuo de bateria da Marquês de Sapucaí, durante o desfile das escolas de samba do Grupo Especial. Donos de gênio forte, mas senso de pragmatismo idem, ambos selaram a paz.